Saber viver ainda significa gozar os prazeres da vida sem culpa

Foto: Divulgação

Realizei um desejo antigo, o de passar um mês inteiro num apartamento em Paris, fingindo ser moradora da cidade. Paris é mágica: quanto mais tempo se permanece nela, mais linda ela se revela, cinco ou seis dias não bastam para captar sua potência arquitetônica e estética. Voltei com os olhos encharcados de beleza e tentando entender o que significa, de fato, “savoir vivre”, o famoso conceito que virou atração turística francesa.

Paris está repleta de moradores de rua, reflexo da dificuldade de inclusão dos refugiados. A cidade anda barulhenta e alguns bairros não oferecem mais a segurança e limpeza de antes, mas o “savoir vivre” resiste: ninguém abre mão de um papo à mesa de uma calçada, onde há fartura de pão, água, queijo e vinho (a cesta de piquenique que eu levaria para uma ilha deserta). Às 22h o céu ainda está claro no verão. As margens do Sena são ocupadas por turmas de amigos, por artistas amadores, por casais de todos os sexos e por solitários que filosofam enquanto observam os barcos transportarem turistas boquiabertos.

Saber viver ainda significa comer, beber, amar, vadiar, ler, ouvir música, flanar pelas ruas, atravessar os dias como se este fosse o único e inadiável compromisso do ser humano: gozar os prazeres sem culpa.

Sou sócia fundadora deste clube, mas esta é apenas a parte hedonista da história. Saber viver é ter estilo e opinião, mesmo ao custo de patrulhas. É se sentir livre para errar e até se divertir com isso. É conviver bem com seus paradoxos. É extrair inspiração da solidão, e não tratá-la como um castigo. É dar bom aproveitamento aos dias sem se render a uma agenda militarizada, cheia de horários e deveres que impossibilitam as improvisações. É não se deixar escravizar por celulares, relógios, dinheiro. É manter o ego sob controle: ele só serve para caprichos particulares e secretos, nunca deve “sair de casa” e se transformar em esnobismo, em demonstração de poder, essas coisas patéticas.

Saber viver é trocar a tarja preta pelo vinho, se fazer de surda com gente chata, parar de querer prever o que vai acontecer, gostar de caminhar, não encarar nada como sagrado, parar de ser desculpar por tudo, gostar da vida que leva, entender que nem todos os sonhos precisam ser concretizados e não desejar ser a razão de viver de ninguém, a não ser de si mesmo. Nada disso é monopólio francês, ainda que tenha um je ne sais quoi de Serge Gainsbourg.

O que torna Paris uma festa? A cidade desperta nossa vontade de estudar arte, de trocar ideias com desconhecidos, de lutar por boas causas, de alimentar o espírito – de nos tornarmos uma pessoa mais interessante, enfim. Claro que é possível entrar em depressão em Paris, a dor é universal, mas viver como se todos os dias fossem uma manhã de sábado pode ser tentado onde quer que estejamos.

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