Colocar nossa esperança nos pés de atletas em vez de nas mãos de quem conduz o país é um desastre

Só começaremos a deixar de ser um fracasso a partir das próximas eleições, e não pelo resultado em Moscou

Foto: Lucas Figueiredo/CBF/Divulgação

Lembro quando acabou o jogo entre Alemanha e Brasil, aquele do 7 x 1. Diante das cenas de meninos e meninas nas arquibancadas, enxugando as lágrimas na bandeira nacional, comentaristas perguntavam: quanto tempo essas crianças levarão para se curar do trauma?

Dias depois, a garotada responderia com outra pergunta, sem tirar os olhos de seus tablets: que trauma? Não teve tragédia nenhuma. O que houve foi uma seleção perdendo para outra de forma humilhante diante da expectativa que havia sido criada, mas tragédia, que eu saiba, é coisa diferente.

Em 2014, durante a Copa, dois jornalistas argentinos perderam a vida em acidentes de trânsito, uma moça de 26 anos e um rapaz de 38. E enquanto comíamos pipoca em frente à tevê, milhares de pessoas perderam não apenas suas tevês, mas a casa inteira por causa das enchentes que castigaram o Rio Grande do Sul. Desculpe aí, só pra contextualizar.

Tudo indica que será diferente este ano, e mesmo não estando muito embalada, vou torcer pelo grupo do Tite e, mais ainda, vou torcer para que tenhamos amadurecido de lá pra cá. Um torneio mundial de futebol não pode ser superdimensionado a ponto de nos transformar em sentimentaloides. Colocar nossa esperança nos pés de alguns atletas em vez de nas mãos de quem conduz o país: isso sim é um desastre. Demonstra que o título esportivo é tudo o que teremos para comemorar este ano. Se não vier o título, sobrará o quê? O Brasil de sempre. E se vier, também. Só começaremos a deixar de ser um fracasso a partir das próximas eleições, e não pelo resultado em Moscou.

Desculpe aí, de novo. Não quero estragar a festa. Adoro Copa e futebol, e às 15h deste domingo vou parar tudo pra ver nossa estreia. Mas (ai, porque não mantenho a boca fechada?) espero não ter que assistir aquela cena embaraçosa de 2014: nossos jogadores entrando em campo com as mãos sobre os ombros uns dos outros feitos meninos de jardim de infância. Professores costumam usar esse recurso para que os alunos não se dispersem, mas estádio não é colégio, e quatro anos atrás, que eu me lembre, não funcionou, perderam-se todos.

Também espero que não transformem a hora do Hino num The Voice Brasil. Que não se esgoelem nem percam o foco. Nosso país encanta pela simpatia, então que todos sorriam em vez de apelar para a falsa consistência do melodrama. Não é uma guerra, poxa. É apenas a celebração de um esporte apaixonante (vamos esquecer os milhões envolvidos em marketing, etc). Aconteça o que acontecer, todos eles voltarão ilesos para suas casas em Roma, Madri, Londres. Então que a gente não se dedique tanto à demonstração de uma emoção descabida, mas simplesmente mostre serviço com ginga, raça e talento, que é o que interessa. Menos drama e mais alegria. Menos coração e mais pernas. Menos sentimentalismo e mais maturidade. Menos fricote e mais gols.

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