Martha Medeiros: Eu não pertenço a esse lugar

Em protesto, Pedro Cardoso deixou entrevista ao vivo – Foto Reprodução

Era um restaurante popular e estava com as mesas lotadas, a maioria ocupada por dois casais. A mesa em que eu estava era maior: cinco adultos e três adolescentes. Nem 15 minutos de conversa e eu já não entendia o que fazia ali. Estava alheia aos assuntos e não achava graça das piadas. Até que um dos adultos disse algo detestável, e eu pensei: “não pertenço a esse lugar”. Lembrei a minha casa, o meu quarto, onde eu preferiria estar. Preciso ir embora. A comida está vindo, é agora, levanta e vai. Mas não levantei.

Não foi, nem de longe, a pior noite da minha vida. Já estive em vários outros lugares a que eu não pertencia. Uma missa rezada por um pastor mal intencionado. Um escritório com gente estressada trabalhando até tarde. Uma entrevista que dei para um jornalista que induzia as minhas respostas. Uma festa num clube sofisticado onde as pessoas só falavam em dinheiro. Um quarto úmido de hotel, com as paredes descascadas e luz branca no teto.

Quando pude, saí mais cedo, saí antes do fim, mas nunca fui embora durante o apogeu de um acontecimento, como uma noiva que abandona o altar. Nunca fiz da minha retirada um gesto político, audacioso e inesperado. Sempre fui daquelas que, uma vez dito sim, mantinha meu sim até o limite da educação – mesmo quando o sim já tinha virado, dentro de mim, um não.
Pra ser gentil, me senti estrangeira várias vezes sem estar viajando. Pode ser suportável, mas nem sempre. Cortesia demais nos desintegra. Se alguém te oferece um baseado, é só dizer “não, obrigado”, caso não seja chegado. Se alguém te tira pra dançar, é só dizer “não, obrigada”, caso esteja cansada. Alguém ao teu lado diz que buzinar é coisa de preto, discorde e denuncie o racismo, em vez de ficar num silêncio conivente. E toque a vida pra frente.

Como elegantemente fez o ator Pedro Cardoso quando se levantou de um programa de tevê transmitido ao vivo e se retirou, em duplo protesto: ele foi solidário com os trabalhadores em greve da TV Brasil, que é pública, e o fez também em repúdio a um comentário inapropriado que o presidente da emissora teria feito contra Taís Araújo. Pedro é um homem inteligente, politizado e, como se viu, um lorde. Não agiu feito um moleque. Foi até o programa para divulgar um livro que havia lançado, mas diante das informações que recebeu ao chegar lá, sobre a greve e sobre a injúria, não se sentiu confortável em dar audiência a um canal que não estava sintonizado com suas convicções. Pediu desculpas a todos, explicou-se e, com toda a calma, deixou o estúdio, não sem antes abraçar a apresentadora.

“Eu não pertenço a esse lugar”. A cada vez que essa frase grudar em seu pensamento a ponto de gerar desconforto, levante, se despeça e agradeça por você ter coragem para decidir, pernas para sair e sua dignidade aguardam lá fora.

Leia mais:
Martha Medeiros: humor é coisa séria
Martha Medeiros: somos todas divas