Christiane Torloni dá vida a soprano Maria Callas em Master Class, em cartaz em Florianópolis

A cantora lírica Maria Callas, considerada a maior soprano de todos os tempos, foi uma mulher forte, apaixonada e que revolucionou a ópera interpretando outras grandes mulheres. Antes dela, as emoções das personagens ficavam em segundo plano e o que mais importava no palco era a técnica. Com uma voz distinta e versátil, ela se destacou com um novo estilo de atuação de papéis dramáticos, emprestando vida às protagonistas das encenações operísticas.

Neste fim de semana, Christiane Torloni traz um pouco dessa forte personalidade para o palco do Teatro Pedro Ivo, em Florianópolis. A atriz é a estrela do espetáculo da Broadway Master Class, do dramaturgo norte-americano Terrence McNally. O enredo se baseia nas aulas magnas proferidas pela soprano no início dos anos 1970, na Julliard School of Music de Nova York, poucos anos antes de morrer. Nessa época, ela não cantava mais – sentia-se derrotada após o fim do midiático relacionamento com o armador grego Aristóteles Onassis, e sua voz já não dava conta de grandes montagens.

Christiane Torloni conversou com a Versar sobre Maria Callas, teatro e novos projetos. Boa leitura!

Como você conheceu Maria Callas?

Ela chegou para mim há uns 30 anos, talvez. Eu e Possi (José Possi Neto, diretor do espetáculo) ficávamos assistindo àqueles hard discs, uma mídia que nem existe mais, e ficava aos prantos vendo os vídeos da Callas. A maneira como ela entendeu as personagens dela, o olhar era como o de um pintor, que te faz enxergar o mundo de outra maneira. Principalmente no que diz respeito às heroínas, ela é um guru, uma mestra, uma inspiração. Ela fala isso no texto: “Essa é a minha interpretação. Não é a de Shakespeare. Não é a de Verdi. É a de Callas”.

O que mais te atraiu nela?

É muito incrível porque quando você se aproxima da Callas, percebe que a história dessa mulher é uma história de superação, desde o nascimento dela, pois ela foi recusada pela mãe nos primeiros dias. Então, esse é um espetáculo para você se apoiar em alguém que, mais do que tudo, não desistiu do seu belo. Ela não era só uma intérprete. Era uma grande música, tocava piano muito bem. Ela entendia tanto de música quanto os maestros que a regiam. E por isso ela pôde desfrutar deles e eles dela como ninguém. Ela não era só uma cantora interessada em cantar notas.

Você se identifica com ela? Em quais aspectos?

Somos mulheres, românticas. E tem uma questão, talvez seja o que mais me inspire, é que ela não tinha uma relação com alguém que a desafiasse. Era Callas que desafiava Callas. Isso é uma outra maneira de ver tudo. A maioria das pessoas tem o desafio de fora para dentro. Ela não, vinha de dentro dela.

Você não canta em cena. Como foi sua preparação para o papel?

Eu fiz aula de canto. Mesmo que você nunca cante em um musical, é importante para formação. Inclusive para entender o universo das orientações que ela traz aos cantores. Com meu professor no Rio de Janeiro comecei a estudar pela ária de Amina – personagem de Callas na ópera La Sonnambula – para poder entender em mim mesma o que ela faz, o quão difícil é o que ela faz. Você se apropria. Você vai fazer um pianista, você tem que entender o universo, mesmo que não vá tocar. Entender mentalmente, entender emocionalmente, porque isso muda a atitude física completamente.

De que forma o público se identifica com o espetáculo?

A peça tem um texto lindo e sempre digo que esse espetáculo é uma sessão de auto-ajuda disfarçada (risos). Ele fala muito em superação e as pessoas saem muito motivadas a se apaixonar, acreditar nos seus sonhos. Ele também tem um humor muito refinado que provoca as pessoas na plateia.

Quão importante é a peça na sua carreira?

Essa peça consagra a minha parceria de 30 anos com José Possi Neto. Em todas as montagens que fazemos, desde A Loba de Ray-Ban, a gente vem fidelizando o público pelo Brasil. Uma coisa interessante também é que esse espetáculo está trazendo um público diferenciado. Além do que sempre vai me ver, que me acompanha há quatro décadas já que já sou avó de fã (risos), vem um público que é apaixonado por ópera e isso deu uma química maravilhosa de plateia. Essa é a grande novidade desse espetáculo para mim. Tem gente que nunca tinha me visto no teatro e foi pela Maria Callas.

Fotos: Marcos Mesquita

Dos outros papéis que você já interpretou no teatro, quais foram mais desafiadores e por quê?

Cada novo trabalho é um novo desafio. Tenho um carinho especial por todas as personagens que vivi no teatro.

Você nasceu em uma família artística. Quais são suas primeiras lembranças no teatro?

A mamãe atuou grávida até uns sete ou oito meses. As minhas primeiras babás eram as camareiras. Então, o teatro para mim é o meu primeiro playground porque é o meu lugar natural até de reflexão. Lá fui amamentada, ninada, influenciada e inspirada.

Apesar de ser filha de artistas, você chegou a cursar Sociologia antes de decidir seguir o mesmo rumo. Como foi seu início na dramaturgia?

Comecei a minha carreira artística ao mesmo tempo em que eu fazia Sociologia na PUC. Para mim, então, a carreira sempre esteve conectada a uma consciência política. A minha estreia na Globo foi nos anos 70. O Walter Avancini me convidou para fazer o Indulto de Natal. Ali achei que jamais seria uma atriz. O Walter tinha uma pegada tirânica, ele era duro, fiquei com tanto medo que mal conseguia falar. Anos depois fiz a minha primeira protagonista, na novela Gina. Foi muito difícil. O Herval (Rossano) era bravo, mas a televisão é incrível porque você aprende fazendo. Não tive curso melhor de formação artística do que a minha experiência na TV Globo e depois na Manchete, que também foi impressionante, você tem que aprender a fazer tudo.

Como será seu papel em Verão Noventa Graus (próxima novela das sete que deve estrear no segundo semestre)?

Vou viver Mercedes, uma adorável vilã que é dona de uma gravadora e está totalmente conectada com o mundo da música. A novela, dirigida pelo Jorge Fernando, tem uma pesquisa muito boa sobre todos esses fatos que aconteceram entre os anos 1980 e 90, um momento de ouro no Rio de Janeiro, e tem como protagonistas Claudia Raia e Dira Paes. Vou fazer par romântico com Alexandre Borges. Vai ser uma novela solar, com muita referência musical.

Você vai lançar em breve o documentário O Despertar da Florestania. Pode falar mais sobre o filme?

Vou fazer a minha estreia como diretora no documentário. Produzi o longa-metragem em parceria com a Globo Filmes. O documentário, que assino a direção com o Miguel Przewodowski, está previsto para ser lançado em abril e é resultado de uma experiência que tive quando fiz abaixo-assinado pela preservação da Amazônia, em 2008. Ele traz encontros incríveis que tive durante o abaixo-assinado, quando conseguimos mais de um milhão e 200 mil assinaturas – um recorde no Brasil -, e depois quando a gente fez o processo da Renca (Reserva Nacional do Cobre e Associados) para impedir o Temer de vender metade da Amazônia.

Como foi que você abraçou a causa da floresta Amazônica?

A motivação por lutar pela Amazônia surgiu durante as filmagens da minissérie Amazônia – de Galvez a Chico Mendes. Quando a minissérie começou, nós tivemos três dias de workshop na Amazônia e foi ali que recebi “o beijo”. A Bela Adormecida, que estava dormindo há 20 anos, acordou naquele momento. A magnitude da floresta Amazônica não toca só visualmente, mas espiritualmente também. É o espírito de luta, de amor, que nos faz levantar e lutar. Não somos donos apenas da nossa casa, mas também da calçada, do bairro, da cidade, do Estado, do país. O Brasil é de todos nós. Precisamos fazer dele um lugar mais amoroso, menos abrasivo do que está.

O que os brasileiros que vivem mais distante, como aqui no Sul, podem fazer para ajudar a evitar o colapso da floresta? Você tem dicas para as pessoas que querem ter atitudes eco-friendly?

Temos que saber que podemos ajudar o planeta com pequenos cuidados. Existem pequenas coisas no dia a dia que todos podem fazer. É uma mudança comportamental. Em alguns dias, você quer a casa mais iluminada, mas no dia seguinte, pode usar luz de velas. Fica tão romântico! Além disso, podemos não ficar com o carro ligado esperando uma pessoa chegar; não ficar horas passando condicionador no cabelo com a água escorrendo pelo ralo; podemos e devemos implicar com o marido quando ele fica horas fazendo barba com a torneira aberta; não jogar gordura nem no tanque nem na pia; economizar água quando você lava o carro…

Como você encara o processo de envelhecimento?

Respeito a passagem do tempo na minha pele, por exemplo. As coisas estão acontecendo… Vejo, me acostumo, aceito e vamos tocando a vida.

Você já fez papéis espíritas. Como é sua relação com a espiritualidade?

Sou uma pessoa com fé. E não sou só eu, o povo brasileiro é muito ligado na espiritualidade. A novela A Viagem me ensinou uma coisa muito importante que, além do entretenimento e da diversão, o trabalho da gente é um consolo. Entendi em A Viagem que só o meu trabalho pode consolar, eu não tenho força pessoal para isso, mas quando eu estou no meu trabalho sou powerizada pela arte, que é sagrada, sou útil. É como Oscar Wilde dizia no final da Salomé: “O mistério do amor é maior do que o mistério da morte.” E está lá na Viagem e vai estar lá na história do Chico Xavier, a capacidade do amor de ultrapassar as dimensões da nossa humilde, oblíqua e míope compreensão da vida. Então, na Viagem eu recebo cartas que são cartas escritas por pessoas e outras psicografadas durante a novela, dizendo porque eu tinha que estar fazendo a novela.

Você não tem redes sociais. Como avalia esses tempos de superexposição na web?

Não tenho tempo para as redes sociais. Essa virtualidade ocupa um tempo real, então acho que deve ser usada para coisas bem específicas. É uma plataforma maravilhosa para disseminar seus projetos e ideias quando já estão em fase de conclusão. Essa é a forma que prefiro usá-las. Tenho
um trabalho mais concentrado e até solitário, mas cada um tem seu estilo e se algumas pessoas conseguem conciliar, tudo bem.

Master Class com Christiane Torloni

Quando: sexta (2) e sábado, às 21h, e domingo, às 19h
Onde: Teatro Pedro Ivo (Rodovia SC 401, Km 15, 4600, Saco Grande, Florianópolis)
Quanto: R$ 100. Sócios do Clube NSC e acompanhantes têm 40% de desconto na compra do ingresso antecipado no site Blueticket


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