Diversidade no setor de programação demonstra que a profissão não se restringe ao estereótipo de homens, jovens e nerds

Foto Felipe Carneiro

Rayany Wasem ouviu falar de programação pela primeira vez em 2016 quando cursava o nono ano em uma escola municipal no bairro Rio Vermelho, em Florianópolis. Quando a professora falou sobre programar aplicativos para resolver problemas reais, a jovem conseguiu ver uma oportunidade, que imaginava ser tão distante, na palma das mãos. Junto com uma colega, Rayany quis participar do Technovation Challenge, uma competição internacional de programação para meninas. Longe de ser a imagem que as pessoas idealizam de um programador — sim, no masculino, uma vez que a caricatura desse profissional geralmente é composta por homens, jovens e nerds —, Rayany e a colega programaram o app Pet Goal, para diminuir a quantidade de animais de rua e o comércio deles.

Para conseguir viabilizar o aplicativo, elas usaram os computadores da escola, já que nenhuma das duas tinha o eletrônico em casa. O Pet Goal foi semifinalista da competição na etapa que avalia soluções da América Latina e África naquela temporada. Depois disso, Rayany se descobriu programadora e atualmente ela é Jovem Aprendiz na ArcTouch, empresa desenvolvedora de aplicativos.

A programação é hoje a linguagem mais falada no mundo, e futuramente, de acordo com especialistas, como um dos criadores do Code.org, movimento global que apoia o ensino de programação nas escolas, será tão importante quanto o inglês. Pensando nisso, alguns países já oferecem cursos básicos de programação na escola — a Inglaterra implantou a programação como matéria escolar em 2014. No Brasil, existem entre quatro e cinco mil empresas que desenvolvem ou produzem software. Isso indica um grande mercado para quem sonha em seguir essa carreira.

O mercado de portas abertas

Assim como Rayany, Victor Oliveira abraçou as oportunidades. Não sem muito trabalho e esforço, durante um intercâmbio nos Estados Unidos em 2011 o jovem, então com 20 anos, conseguiu um emprego de programador na UBER, sendo um dos dez primeiros funcionários da empresa —  que na época ainda engatinhava. De volta ao Brasil, Victor percebeu a distância entre os profissionais qualificados no país e as empresas que precisam de programadores no exterior. Assim, junto com três amigos de faculdade, criou a Cheesecake Labs, uma empresa que programa aplicativos e softwares personalizados e emprega mais de 50 pessoas em Florianópolis.

Para além de aproximar profissionais e demandas, os jovens empresários se preocupam com o cenário da cidade onde vivem. Percebendo a desigualdade de acesso à informação e tecnologia — o que afasta muitos jovens de construírem uma história como a de Victor —, a Cheesecake mantém cursos abertos para a comunidade que ensinam gratuitamente programação e incentivos para o empoderamento de minorias dentro desse setor, ainda muito elitizado e masculino.

Mas se depender de programas como os oferecidos pela empresa e da vontade de pessoas como Letícia Isabel da Luz, essa realidade está perto de mudar. Letícia tem apenas 14 anos e está participando do curso Aprendendo a Programar, na capital catarinense. A iniciativa é do Comitê para a Democratização da Informática e ensina a linguagem básica da programação para jovens. Apaixonada por jogos digitais, Letícia desabafa: “acho incrível ter a possibilidade de aprender a desenvolver os games que tanto jogo”. A menina muito feliz com a oportunidade, não se prende a ela. Pensa à frente e acredita que as aulas de programação que está tendo hoje serão um diferencial na hora de encarar o mercado de trabalho.

Programação ao alcance de todos

As possibilidades de inclusão nesse mercado tão cheio de estereótipos são amplas, e dependem basicamente de força de vontade e boas oportunidades Foi a partir delas que Maurício Sá Peixoto entrou nesse meio. Maurício é deficiente visual e atua na área de programação da Softplan, uma das maiores desenvolvedoras de software do país. Ele trabalha como analista de testes, atuando para garantir a acessibilidade dos programas desenvolvidos, ou seja, para que qualquer pessoa possa acionar normalmente botões, links por comandos do teclado, ter acesso às imagens por meio de textos alternativos, preencher formulários e etc.

Maurício sempre foi fã de tecnologia e chegou a trabalhar como professor de informática na ACIC – Associação Catarinense para Integração do Cego. Ele sonhava em integrar uma grande empresa do setor mas esbarrou em dificuldades de uso de alguns programas e na falta de oportunidades, até conquistar a vaga na Softplan. Para ele, as pessoas com deficiência precisam ser vistas como potencial, com habilidades que venham a contribuir para os resultados e para a competitividade da empresa. Maurício complementa que promover a diversidade e a acessibilidade na programação são caminhos para tornar a sociedade mais acessível como um todo.

“A acessibilidade web precisa ser pensada desde o início do projeto e não como algo adicional que pode ser pensado depois. É preciso uma mudança de cultura por parte dos desenvolvedores, designers, gestores de projetos e os demais envolvidos na concepção do produto, para terem a consciência que pessoas com deficiência são usuárias dos sites e que, se os padrões de desenvolvimento web forem seguidos corretamente, a maioria das barreiras de falta de acessibilidade na web estarão resolvidas. Acessibilidade não é um favor e nem opcional, estando prevista, inclusive, na lei”, pontua ele. Maurício ainda destaca: “aqui na nossa equipe, estamos sempre buscando a inclusão, mostrando a importância de se ter uma equipe diversa e que respeite as diferenças”.


Empoderamento digital

Meninas como Rayany e Letícia também estão contribuindo para mudar o estereótipo da profissão de programador. Uma pesquisa divulgada pela UBER mostra que até o ano passado, dos 12 mil funcionários, apenas 36% eram mulheres.

Ingrid Faber, desenvolvedora de software da Hexagon Agriculture, empresa com escritório em Florianópolis e voltada para tecnologias da informação para a eficiência, produtividade e sustentabilidade no setor agrícola, já sentiu na pele as dificuldades ainda encontradas por mulheres para atuar dentro do setor de programação. Ela trabalha na área de tecnologia há oito anos e já foi a exceção em algumas empresas por onde passou. Mãe de gêmeas de três anos, ela acredita que a mudança da realidade majoritariamente masculina no setor começa bem antes da escolha da profissão. “Temos que despertar o interesse pela ciência e pela tecnologia desde cedo e desenvolver habilidades que normalmente são mais estimuladas nos meninos. Isso é nossa responsabilidade como pais e mães. Lá em casa por exemplo, os contos de fadas têm sempre um toque especial. As nossas princesas costumam morar no vale encantado do silício”, conta.

Para Ingrid, uma maior diversificação no cenário da programação passa, sim, pela desmistificação do “cara estranho da TI”. “As pessoas precisam ter consciência de que a tecnologia está em todas as áreas, não importa o seu interesse. Em todos os lugares existe espaço para a tecnologia e para a inovação”, ressalta. Ingrid está tão determinada a trazer mais mulheres para a área tecnológica que ela e o marido criaram um clube de computação para crianças aqui em Florianópolis, o Little Geeks Club. A proposta do clube é desmistificar a ideia do geek masculino e solitário.

Histórias como estas demonstram que o setor de programação está em transformação, e tem sido uma chance para quem quer, por meio de códigos, tornar a realidade muito mais plural.

Foto: Felipe Carneiro