Vanessa Tobias: mestre em problemas

Foto: arquivo pessoal

Em 2011 fui até o Arizona, nos Estados Unidos para fazer um curso com um dos meus grandes mestres. Naquela fase meu foco estava em conhecer mais de perto como um líder ensina e inspira.Jack Canfield é considerado o Coach nº1 nos Estados Unidos, teve 7 livros entre os 10 mais vendidos da Lista do New York Times – ao mesmo tempo (!!!) – então eu estava a caminho de cruzar minha vida com um sábio, provavelmente.

Sempre tive muita resistência ao tipo de professor “sem problema” – que diz que tudo dá certo o tempo todo. Me sinto deslocada. Fiz uma palestra há uns dois anos – e nelas sempre conto como as coisas estão: tem em meu currículo de empresária muito mais do falecimento do meu irmão mais velho – que morreu de infarto – e da minha íntima e famosa queda por bolachas e brownies, do que do meu mestrado em Administração. Mesmo procurando e gostando de ser natureba, quando vem a TPM me derreto com as Trakinas de chocolate com recheio morango – que jogam por terra os treinos suados de uma semana inteira.

Acredito que já sofri muito procurando negar os meus problemas, até entender que aceitar o que não sei, e agradecer pelo que está vulnerável em mim, me permitirá trabalhar na minha evolução. Ao que a gente resiste, persiste – algo nessa linha. Precisamos colaborar com o inevitável – venho me dizendo isso há anos. Colabore com o inevitável, Vanessa. Dor momentânea, prazer de longo prazo.

Nessa palestra de dois anos atrás uma senhora muito bem intencionada me sugeriu que eu não compartilhasse meus problemas, afim de que eu pudesse parecer mais forte e mais bem sucedida e por consequência, na opinião dela, eu venderia mais cursos e teria mais clientes. Até quero mais clientes – e isso seria ótimo, mas será que se mantém por muito tempo alguém que esconde quem é? Como o sucesso pode estar sustentado em alguma mentira ou omissão – em qualquer área da vida?

Naquele curso de 2011, Jack entrou aplaudido de pé depois da leitura de seu currículo de vitórias e sucessos. Caminhando no meio das 230 pessoas muito calmamente, não parecia muito deslumbrado, mas confortável com sua própria história. Optou por um palco baixo – próximo ao público, e subindo o degrau foi na direção de seu computador. Parado, olhou para a projeção, olhou para o computador, apertou algum botão que travou tudo: computador e telão. O público fez aquele silêncio e ele, na maior tranquilidade, colocou os óculos, avisou alguém da sua equipe, alguém foi até o palco, destravou o que precisava e então ele começou o curso. Gente, que alívio – encontrei um sábio, realmente.

Para aquela senhora eu, muito amorosa, expliquei que minha abordagem é mais humanista, e que aprendi com um grande mestre que o que torna alguém exemplar não é o sucesso permanente, mas o continuar mesmo sendo imperfeito. No primeiro intervalo de curso fui a passos largos na direção de Jack – que gosta e prefere ser acessível – dei um abraço forte e agradeci porque ele também trava o computador – como se eu dissesse: também posso errar?! E, ele sorriu no estilo: “#tamojunto, sou como você”. Sempre acreditei que mestres são como uma extensão da família. Senti que estava em casa.

Entendi que, quando erramos e aceitamos o erro, podemos melhorar nele. Trazer para a consciência, pesquisar o lugar de nosso elo mais fraco jamais será fraqueza, mas o sinal mais evidente da nossa força – e isso nos aproxima, humaniza e nos faz ser uns com os outros e uns para os outros inspiração transformadora.

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