Monalysa Alcântara: negra, nordestina, empoderada e miss

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Terceira mulher negra já eleita Miss Brasil, a piauiense Monalysa Alcântara sofreu ataques racistas na web quando ganhou o concurso, em 2017. Aos 19 anos, ela surpreende pela maturidade com que encara a responsabilidade do título e a importância da representatividade e do feminismo. Há três semanas, Monalysa esteve em Florianópolis e aproveitamos para bater um papo com ela – que, em maio, passa a coroa para a próxima Miss.

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Você foi a terceira mulher negra a ser eleita Miss Brasil em mais de 60 anos de concurso. A primeira (Deise Nunes) foi em 1986 e depois em 2016 (Raissa Santana). Outro fato inédito aconteceu pelos dois anos seguidos. Você sentiu uma responsabilidade ainda maior por isso?
Por conta da nossa história, existe sim uma responsabilidade. Você acaba representando toda uma raça que precisa e não tem tanta representatividade. Mas isso nunca me assustou. Queria trabalhar com o que amo, que é ser modelo. Mas, de alguma forma, queria ser aquilo que eu não tive. Uma mulher que mostrasse para as meninas que podemos passar por cima do preconceito e conseguir nossos objetivos. Por não ter tido outras misses negras, isso é importante. É uma honra muito grande.

E você acabou ficando entre o Top 10 no Miss Universo…
Fiquei muito feliz, mas mais do que isso, eu estava muito satisfeita. Eu não estava nervosa, estava realizada. Era só gratidão. Fiquei muito orgulhosa, principalmente por conta de algumas críticas que recebi – o que é normal, principalmente para quem participa
de concursos. Mas foi uma resposta às críticas, então minha felicidade foi maior ainda.

Quando fala em críticas, você se refere aos ataques racistas que sofreu quando foi eleita Miss Brasil?
Uma resposta aos ataques racistas que sofri, e aos comentários cheios de preconceito que as pessoas falam que é apenas opinião. Uma amiga sempre diz que opinião é você dizer se prefere comer estrogonofe ou frango, e não ficar falando esse tipo de coisa que faz mal. Mas fiquei feliz também pelo meu povo, e por mim, porque vai ficar sempre marcado no meu coração.

Assista à entrevista completa:

Você é super jovem, mas já é bem empoderada. Como foi isso na sua vida? Você teve esse processo de reconhecer-se como mulher negra, de passar pela transição capilar, por exemplo?
Passei. Cheguei a alisar meu cabelo porque sofria na escola, eu era a única mulher negra da minha sala e as pessoas me criticavam bastante. Além da questão da cor, eu sempre fui muito diferente, meu estilo era diferente. Eu gostava de usar bermuda e as meninas falavam, mas roupa não tem gênero para mim. Então, eu passei por esse processo, e tentava alisar meu cabelo para parar de sofrer. Mas não mudou nada. Eu percebi que ia continuar tomando na cara. E ainda quase acabei com meu cabelo. Isso tudo para mim foi muito precoce. Na época, não tinha essa coisa de transição, eu não tinha acesso à internet, e eram poucos vídeos que falavam sobre isso no Youtube – que, para mim, é o difusor desse movimento de transição capilar e de aceitação. Passei pela transição sem saber, cortava o cabelo liso porque não gostava, sem imaginar que isso faria com que meu cabelo natural crescesse e voltasse. Aí comecei a entrar no mundo da moda, onde as pessoas gostavam do meu cabelo e ele era um diferencial. Comecei a me conhecer e respeitar a minha beleza. Depois que você passa pela transição e vê seu cabelo maravilhoso, você entende como ela foi necessária para te mudar não só por fora, mas por dentro. Muda o jeito de pensar. Não tem como eu não me envolver com esse assunto porque ele faz parte de mim.

E o que você acha de concursos de beleza e suas participantes levantarem bandeiras empoderadas e feministas? Como ocorreu no Peru, quando as candidatas falaram dados da violência contra a mulher ao invés de suas medidas corporais.
Achei genial. Acho super importante. Se você me perguntasse isso anos atrás, eu ia falar que odiava concursos, que isso era coisa de meninas bonitas e bonequinhas que não pensam. Era nisso que eu acreditava até entrar nesse mundo. E eu comecei até a estudar e ler mais, porque você está ali representando a mulher. Minha equipe do Miss Brasil fala que não está atrás de uma menina bonita, está atrás de uma mulher, que tenha personalidade e conteúdo. Ela precisa disso para encantar, porque as pessoas gostam de gente com personalidade. Temos que quebrar esses tabus e o concurso de beleza pode ajudar. Além disso, ele mudou muito nos últimos anos. Temos que falar sobre empoderamento, feminismo, precisamos parar de ter medo dessa palavra. As pessoas diminuem essa luta, então, eu gosto quando a gente fala sobre isso. Eu vi muita sororidade no concurso, as meninas sempre se ajudavam. Por mais que a sociedade tente colocar rivalidade entre as mulheres, nós estamos tão conscientes e espertas que estamos fazendo o contrário e estamos nos unindo.