Momo do WhatsApp: o monstro existe mesmo?

Especialistas em segurança cibernética sabem pouco sobre suposta ameaça a crianças e adolescentes

Momo do WhatsApp
Foto: Angela Chagas / Agência RBS

Por Itamar Melo 

No dia 12 de julho, o jornal Vanguardia, de Saltillo, uma cidade na região nordeste do México, publicou em seu site uma notícia de título chamativo: “Momo, o número sinistro de WhatsApp e a perturbadora imagem de que todos estão falando”.

Segundo a publicação, havia na rede social um “número de telefone maldito”, que estava fazendo circular a imagem de uma mulher de “aparência aterradora”, o que seria parte de um “jogo sinistro e violento”. Dia após dia, outros sites latino-americanos começaram a divulgar a notícia, muitas vezes apenas reproduzindo o que já havia sido dito antes ou apresentando versões ligeiramente modificadas, com informações desencontradas.

Nesta semana, o tema chegou com força ao Brasil. Gerou inúmeras postagens em sites noticiosos, foi abordado por youtubers, ganhou comentários nas redes sociais. Apesar disso, continua sendo um fenômeno nebuloso. Ninguém sabe realmente do que se trata, se de fato viralizou, se provocou pânico em crianças e adolescentes e se oferece qualquer espécie de risco. A notícia parecia ter se espalhado pelo mundo, nos mais variados idiomas. É até possível que o assunto tenha viralizado mais em sites jornalísticos do que no WhatsApp.

Muitos consideraram o fenômeno o novo o Baleia Azul, associando-o a um suposto jogo que teria se espraiado pelo mundo no começo do ano passado, também via WhatsApp, e que levaria jovens a realizar uma série de tarefas cada vez mais perigosas, culminando com o suicídio. Hoje acredita-se que o Baleia Azul, amplamente divulgado pelos meios de comunicação, não passava de fake news.

No caso do Momo, ainda que algumas notícias falem também em desafios perigosos, que seriam direcionados a crianças e adolescentes, parece haver exagero a respeito de um eventual risco. Para entrar em contato com Momo, o usuário teria de adicionar aos seus contatos um número de telefone com código de área japonês. A partir daí, poderia trocar mensagens com a personagem, cuja aparência foi descrita como aterrorizante e perturbadora — na verdade, trata-se de uma figura que poderia, sim, estar em algum filme de terror, mas que logo descobriu-se ser uma escultura existente em Tóquio.

A reportagem adicionou o número em uma conta pessoal e tentou contato via WhatsApp. Como vários outros veículos de comunicação, não obteve retorno. O perfil, ao que tudo indica, está inativo há semanas.

O professor da Unisinos Leonardo Lemes Fagundes, sócio e diretor de segurança cibernética da empresa Service IT, procurou fazer um levantamento sobre Momo e não localizou nenhum site especializado ou empresa de antivírus que tenha conseguido fazer esse contato ou identificado de que se trata o perfil da personagem.

— Talvez exista um alarmismo. As informações não dão conta de que seja algo que se deva levar mais a sério. Falando como profissional de segurança, digo que não é problema adicionar um novo número nos contatos, desde que se tenha cuidado com as próprias configurações de privacidade — diz.

Segundo relatos feitos na internet, Momo supostamente conversaria com os usuários que o contataram, enviando vídeos assustadores e fazendo ameaças. Pelas características do que foi descrito, sites de tecnologia levantaram a hipótese de que possa se tratar de um chatbot — um software que simula ser uma pessoa e consegue estabelecer um diálogo de forma que consegue ser convincente.

Thiago Marques, analista de segurança da empresa Kaspersky Lab, afirma que essa área está bem desenvolvida, e que um usuário pode ser iludido e achar que está falando com alguém real — especialmente se a conversa for por escrito. No caso de troca de áudios, por exemplo, se o perfil for de outro país, como parece ser o caso de Momo, o uso de um tradutor vai ser necessário, e o usuário perceberá com facilidade que se trata de um conversa artificial.

O risco, para o analista de segurança, é que nessa conversa uma criança ou adolescente repasse informações que não deveria:

— Por meio de engenharia social, que é esse processo de levar uma conversa, o perfil pode fazer com que uma pessoa passe informações que normalmente não passaria a estranhos, tendo por trás disso interesse financeiro. Pode, por exemplo, lançar um desafio, como pedir uma foto do cartão de crédito do pai, ou coletar dados para depois fazer alguma chantagem. O roubo de informação, só pelo fato de se estabelecer uma conversa, não é um risco, a não ser que a pessoa clique em algum link ou baixe um aplicativo malicioso.

Marques ressalta, no entanto, que as informações disponíveis sobre a personagem Momo não permitem afirmar que se trata disso.

— Do que foi relatado, o que se sabe é que se trata de um contato com imagens estranhas — diz.

Fagundes, da Unisinos, entende que ao menos para uma coisa Momo pode servir: alertar os usuários de redes sociais para revisarem suas configurações de privacidade e chamar a atenção dos pais para que monitorem aquilo que as crianças estão acessando.

Diante da informação de que o perfil de Momo estava viralizando, trazendo ameaça a crianças e adolescentes, a reportagem consultou o Sindicato do Ensino Privado (Sinepe/RS), que representa as escolas particulares gaúchas. O sindicato informou que as instituições não notaram a existência do suposto fenômeno e, por isso, não estão programando nenhum tipo de atividade relacionado a ele.

As recomendações

  • Vale para as redes sociais a mesma orientação que se dá às crianças fora do mundo virtual: não falar com estranhos. A pessoa que está do outro lado pode ter más intenções.
  • É importante proteger o smartphone com um antivírus. Ele identificará links e aplicativos maliciosos.
  • Não abra links ou baixe arquivos suspeitos.
  • Os adultos devem monitorar o uso que crianças e adolescentes fazem da internet. Há aplicativos específicos para isso. Instalados no celular do filho, eles fornecem aos pais dados sobre a navegação, mas respeitando a privacidade das conversas.

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