Heróis com a cara das crianças brasileiras estão na tela da Mostra de Cinema Infantil

O evento, que acontece de 30 de junho a 8 de julho, em Florianópolis, vai exibir cerca de 70 filmes, entre curtas e longas nacionais e internacionais

Cena de "Lá do Alto", de Luciano Vidigal. Foto: Reprodução

As referências de heróis para as crianças vêm sendo desconstruídas no cinema nacional. Protagonistas negros, mulheres, indígenas assumem a narrativa e permitem que mais crianças se sintam representadas. O mapeamento das infâncias brasileiras pela Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis é revelador: pelo menos onze curtas que vão concorrer aos prêmios foram realizados por diretores negros. O evento, que acontece de 30 de junho a 8 de julho, em Florianópolis, vai exibir cerca de 70 filmes, entre curtas e longas nacionais e internacionais. Em parceria com o Canal Futura, vai dar quatro prêmios de R$ 5 mil em dinheiro a curtas nacionais: Melhor Animação e Melhor Ficção, escolhidos pelo Júri Oficial; Prêmio Júri Popular, concedido pelo voto do público; e o Prêmio Especial, apontado por um júri formado por crianças.

— O cinema brasileiro tem que agradecer a esse movimento de diversidade. Acho necessário. É um enriquecimento e isso está refletido na programação da mostra de cinema infantil — afirma Luciano Vidigal, diretor da ficção Lá do Alto, um dos curtas que será exibido na mostra nesta sábado (30).

Para o diretor, as novas vozes que ecoam na sétima arte surgiram a partir do período pós-cinema digital, que eliminou a necessidade do uso da película cinematográfica, um material mais caro, e democratizou o acesso à produção audiovisual. São também resultados do Edital Curta Afirmativo, lançado em 2012 pelo Ministério da Cultura.

Rodando nas telas do mundo todo, Lá do Alto foi premiado em 19 festivais, entre os prêmios estão o de melhor filme de curta-metragem da competição de filmes brasileiros no Los Angeles Brazilian Film festival (LABRFF) 2016. O curta traz o protagonismo de um menino negro, morador de favela. Sonhador, ele tenta convencer seu pai a conhecer o alto de uma montanha, na favela do Vidigal, que ele acredita ficar perto do céu, para poder se comunicar com sua avó, de quem sente saudades.

Foto: Reprodução

Vidigal levou sua experiência da preparação do elenco de Cidade de Deus para atingir o que chama de “cinema realidade”.

— O ator (Thawan Lucas) acreditava mesmo que o céu ficasse perto da montanha. A gente ensaiou muito, toda a preparação foi em cima da emoção, vivência e intuição. Ele é um menino sensível, inteligente e esperto — relata o diretor, que também é nascido e criado na favela e tenta traduzir em suas produções o universo que só recentemente passou a ter visibilidade no cinema infantil. A favela é, no entanto, o pano de fundo, o que salta em seu curta é a combinação poesia – afeto.

— A temática é social, mas é um filme sobre afeto. Por meio do afeto eu falo uma linguagem universal que comunica com uma criança japonesa, iraniana. A poesia era o critério desde o início.

É o primeiro filme de Vidigal com uma criança protagonista.

— A temática da infância me cativa. A criança tem a questão lúdica e da ingenuidade. Gosto muito de pensar a arte como algo profundo e a criança tem isso: é muito sincera, tanto o ator quanto público — conta o diretor.

Vidigal revela que quando passou a estudar cinema e assistir a filmes independentes, principalmente iranianos, encontrou uma maneira de entender melhor o contexto social no qual estava inserido. Para ele o cinema é lugar de percepção da realidade e transformação. O realizador se prepara para dirigir um longa voltado ao público juvenil.

— O cinema teve a força na minha vida de me transformar num ser humano mais consciente e me fazer enxergar essas diferenças. Na minha infância eu não tinha referências reais, o herói era o branco americano. Fico mais esperançoso quando vejo diretores negros. Agora essas crianças vão ter referências e isso muda a vida. Esses diretores trazem referências reais, referências brasileiras, já que a maior parte da nossa população é negra.

Ficção e a realidade: as outras narrativas

Cena de “Fábula de Vó Ita”, de Joyce Prado e Thallita Oshiro. Foto: Reprodução

A produção audiovisual é o segmento com o pior indicador de desigualdade racial no Brasil. De acordo com o “Informe Diversidade de Gênero e Raça nos Lançamentos Brasileiros de 2016”, publicado pela Agência Nacional do Cinema (Ancine) em junho, entre os longas-metragens brasileiros pesquisados, a grande maioria foi dirigida por pessoas brancas, alcançando 97,2% do total. Nenhum foi dirigido por uma mulher negra.

Os resultados de editais afirmativos do Minc começaram a aparecer depois de 2016. É o caso da ficção Fábula de Vó Ita, de Joyce Prado e Thallita Oshiro, contemplado pelo Edital Carmen Santos, edição 2013, que busca assegurar a participação de mulheres. Parte dele foi financiada coletivamente pelo público na plataforma Catarse. Joyce destaca outros fatores que vem permitindo a apropriação da linguagem cinematográfica por essa parcela da população, como o acesso à universidade pela comunidade negra e de baixa renda e a ascensão de movimentos sociais, LGBTQ e de mulheres.

— O período entre 2010 e 2020 marca a chegada desse perfil de formados ao ambiente de trabalho e de realização. Temos esse histórico em comum, do acesso à universidade por programas que buscam equidade. Passamos a participar dos debates e contestar a forma hegemônica de reprodução de narrativas — afirma a diretora.

Joyce acredita que há públicos predispostos a conhecer as novas narrativas.

— Os jovens de hoje começam a questionar mais cedo, há disposição maior para o diálogo e escuta. Somente a partir dos 25 anos comecei a ouvir o feminismo de uma forma menos preconceituosa. Hoje, as garotas debatem essa perspectiva mais cedo — acredita.

A negritude apresentada de uma maneira afirmativa em Fábula de Vó Ita surgiu da necessidade de construir uma contranarrativa ao perfil eurocêntrico e disciplinador da menina princesa. O curta é protagonizado por Gisa, uma menina que tem um cabelo cheio de vida e personalidade, mas seus colegas da escola vivem debochando dela por conta disso. Vó Ita envolve sua netinha Gisele para lhe mostrar a beleza das diferenças e o valor de sua própria identidade.

A ficção reflete uma situação recorrente na vida das crianças negras: o preconceito na sala da aula. Tanto a protagonista quanto as outras meninas, que fizeram o teste, assim como mães e avós que as levaram, relataram vivências semelhantes.

— A gente está retratando o que a atriz passou e continua passando na escola. A vivência perpassa o cotidiano de todo o elenco do curta. É um desafio da sociedade, porque as crianças já chegam com alguns dizeres racistas que fazem parte do seu cotidiano. Os professores têm uma série de desafios em relação a aprender a educar as crianças para que essas situações não sejam recorrentes — finaliza.

Encontro Nacional do Cinema Infantil

Essa nova cena que aponta para a pluralidade das infâncias brasileiras será o fio condutor do debate que acontece no Encontro Nacional do Cinema Infantil, sábado (30), das 10 às 12h, no Centro Administrativo do Governo do Estado de Santa Catarina.

O evento, que integra a programação adulta da mostra, vai reunir diretores de filmes selecionados nesta edição para discutir também políticas públicas para projetos voltados à infância, e conteúdo audiovisual em outras plataformas como youtube, netflix, e outros streamings. Entre os confirmados estão Assumpção Hernandes Moraes de Andrade, produtora da animação Tropa de Trapo – na selva do Arco Íris, André Pellenz da ficção Detetives do Prédio Azul, Arthur Felipe Fiel da animação Dando asas à imaginação, Joyce Prado e Thallita Oshiro da ficção Fábula de Vó Ita, Luciano Vidigal da ficção Lá do alto e Mauro D`Addio da Silva da ficção Sobre Rodas.

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