Movimento nas redes sociais pede mais empatia a crianças com deficiência

Mães e pais de crianças denunciam situações de intolerância e agressão que enfrentam no dia a di

Foto: Reprodução / Instagram

*Por Nathália Carapeços

E se fosse seu filho aquele menino com problemas de desenvolvimento de que os pais da escolinha tanto reclamam? E se fosse sua filha a garotinha de quem os vizinhos se afastam na pracinha?

Vestindo camisetas pretas que estampam a hashtag #ESeFosseSeuFilho, atores e atrizes aparecem em vídeos caseiros fazendo essa pergunta após relatarem situações tristes e constrangedoras envolvendo crianças com deficiência.

Os casos reais são chocantes e já devem ter passado pela sua timeline nos últimos dias. Há relatos como o do menino chamado de “problema” em um elevador por uma mãe acompanhada de sua filha, e também a história da vizinha que ligou para a polícia em razão do barulho feito por um garoto autista, mesmo sabendo de que se tratava de uma criança com deficiência. E quem está por trás dessa ação que viralizou nas redes sociais é um coletivo de mães, pais e familiares nascido justamente na internet: há três anos, eles compartilham experiências por meio de mensagens de WhatsApp no grupo Juntos.

A iniciativa de criar um fórum para troca de informações foi da professora de educação física Andrea Apolonia, 46 anos, mãe de Rafaela, 19, diagnosticada com Síndrome de Angelman. A doença rara consiste em uma má-formação cromossômica que se manifesta pela deficiência intelectual e atraso no desenvolvimento, entre outras características. A Rafa, explica Andrea, não consegue falar, ler ou escrever. O grupo de WhatsApp se tornou uma rede de apoio para as famílias, além de servir como meio de divulgação de eventos inclusivos.

– Nasceu para essa troca com uma pegada positiva, para cima. Sem o mimimi do “meu mundo caiu”. Trocamos informações, pensando em como a gente pode se unir para se ajudar. O grupo começou com mães e foi crescendo, incluindo depois pais, avós e irmãos – relembra a carioca.

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Em setembro do ano passado, uma mãe compartilhou no grupo um desabafo estarrecedor. A escola na qual seu filho estudava, no Rio de Janeiro, pediu para o menino deixar a instituição porque ele estaria “atrapalhando as outras crianças”. Os pais dos colegas teriam mostrado certo incômodo com a condição do garoto, “já que pagavam caro para seus filhos terem uma educação de qualidade”. O menino em questão ainda não tem diagnóstico fechado, mas a suspeita é de autismo. Essa foi a gota d’água para o pessoal do Juntos, conta Andrea:

– O grupo ficou indignado, pensamos em como nos movimentarmos em relação a isso. Resolvemos planejar uma ação de fato, passeata, alguma coisa para mostrar que não poderíamos mais aceitar isso. Daí uma mãe sugeriu a hashtag #eSeFosseSeuFilho, e foi assim que começou.

Como a professora é colaboradora do jornal O Globo – ela participa de uma coluna e de um blog sobre assuntos como inclusão e deficiência –, as primeiras histórias reais acompanhando a hashtag foram publicadas ali. O movimento chamou atenção da produção do programa Encontro com Fátima Bernardes e, em novembro, a ação ganhou destaque na televisão. Logo depois, o grupo passou a lançar os relatos em vídeo nas redes sociais. E para garantir o clique no conteúdo convidaram artistas para serem protagonistas – já participaram da iniciativa nomes como Betty Gofman, Mariana Lima, Isabela Garcia, Luciano Mallmann, paraplégico após um acidente, e o documentarista Daniel Gonçalves, que tem paralisia cerebral. No Instagram, os vídeos já acumulam mais de 30 mil visualizações.

– Não é a questão de ter filhos com deficiência, mas saber que precisamos estar todos juntos nessa luta. Não paramos para pensar no outro, falta empatia. Nosso movimento é de sensibilização. Você gostaria que seu filho fosse retirado de uma piscina? Ou da escola? – questiona Andrea.

A gaúcha Lau Patrón foi convidada pelas mães do Juntos para ser madrinha do projeto. Escritora, palestrante e mãe de uma criança com deficiência, o João Vicente, de seis anos, ela participou do primeiro vídeo da hashtag #eSeFosseSeuFilho.

– Ao ouvir, ninguém acredita que uma pessoa possa ser realmente capaz de tratar outra dessa maneira, mas isso acontece todos os dias. Essa sementinha plantada gera reflexão e pode mudar a forma com a qual uma pessoa vai agir na sua próxima experiência com uma criança com deficiência – explica Lau, que mantém o perfil @avanteleaozinho.

Vídeos inéditos serão divulgados pelo grupo até março, quando novas ações do Juntos devem vir por aí. Acompanhe o trabalho do coletivo em @juntos_grupo. E se pergunte: e se fosse seu filho?