Câncer de mama: mastologista explica sintomas, causas e tratamentos

Na semana em que a apresentadora Ana Furtado revelou ter retirado um tumor maligno, especialista esclarece as principais dúvidas sobre a doença

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Foto: Felipe Carneiro

Nesta semana, a apresentadora da TV Globo Ana Furtado, de 44 anos, surpreendeu o público ao revelar em vídeo postado no Instagram que está em tratamento contra um câncer de mama. Ela contou que passou por uma cirurgia para a retirada de um tumor e que agora se submeterá a sessões de quimioterapia como parte do processo de tratamento pós-cirúrgico.

“Estou aqui para abrir meu coração com todos vocês. Depois de um autoexame seguido de uma mamografia, descobri um câncer de mama em estágio inicial. Foi um baque muito grande quando recebi a notícia. Mas, apesar de tudo, busquei de todas as minhas formas, toda minha coragem, toda minha fé, toda minha esperança para conquistar a minha cura. E também agradecer muito a Deus pelo fato de sempre estar muito atenta à minha saúde e fazer com regularidade todos os meus exames de mama. O que quero dizer para vocês é que já operei, já tirei meu tumor. Agora preciso fazer todo o processo de tratamento pós-cirúrgico, que inclui a quimio e quero dizer que estou com muita fé, muita esperança e tenho muita coragem pra seguir adiante. E quero me solidarizar neste momento com todas as pessoas que estão passando pelo mesmo processo que estou passando. Aqui eu deixo todo meu amor, carinho e força para todos vocês”, afirmou Ana, que vai se ausentar por um tempo da TV para se dedicar ao tratamento.

Em uma mensagem postada junto ao vídeo, a apresentadora ressaltou a importância de estar atenta ao corpo através do autoexame e de fazer os exames regularmente.

“Faça o autoexame. É o primeiro passo para perceber alterações nas mamas. Caso ache algo estranho, procure um mastologista (médico especialista em mamas) como eu fiz. O autoexame não é um método diagnóstico e não substitui a visita ao mastologista mas pode ser o primeiro sinal de alerta. Se cuide”.

De fato, atenção aos sinais e prática da mamografia no período recomendado são fatores cruciais para combater o tipo de câncer mais comum entre as mulheres no Brasil e no mundo, depois do de pele não melanoma. Segundo estimativas atualizadas do INCA (Instituto Nacional do Câncer), em 2018 o País deve registrar aproximadamente 59 mil novos casos.

O Ministério da Saúde recomenda que mulheres entre 50 e 69 anos de idade devem fazer uma mamografia anualmente, baseado em evidências científicas que mostram que o rastreamento é mais eficiente nessa faixa etária. No entanto, essa política é alvo de questionamentos por parte de diversos médicos. A própria SBM (Sociedade Brasileira de Mastologia) aconselha que a prevenção pelo exame de imagem aconteça de forma rotineira a partir dos 40 anos.

— O câncer de mama em mulheres com 40 anos ou menos é provocado por mutações genéticas. E apesar de raro, costuma ser bastante agressivo. Portanto, quanto mais cedo for detectado, melhor — explica a mastologista Rebeca Neves Heinzen, de Florianópolis.

Na entrevista a seguir, a especialista esclarece esta e outras dúvidas relacionadas à doença:

O Ministério da Saúde recomenda a mamografia a partir dos 50 anos. Já a Sociedade Brasileira de Mastologia aconselha a partir dos 40. Por que essa discordância?
— Para o Ministério da Saúde, a inclusão de mulheres entre 40 e 49 anos no exame tem limitada evidência de redução de mortalidade e o balanço entre riscos e possíveis benefícios do rastreamento não é tão favorável. A questão do rastreamento a partir dos 40 anos é a detecção do que pode ou não virar câncer. Existem doenças chamadas lesões atípicas, que têm algum grau de atipia e que devem ser tratadas porque não há como saber como elas vão se evoluir no futuro.

O autoexame costuma ser o primeiro sinal de alerta na maioria dos casos?
— Não. Normalmente o sinal de alerta é alguma alteração na mamografia. Até porque, para a mulher sentir o nódulo ao apalpar o seio, significa, na maioria dos casos, que o tumor já está em estágio mais avançado. O autoexame é importante principalmente para as mulheres se conhecerem e perceberem quando algo está diferente. Também auxilia na detecção dos chamados tumores de intervalo, ou seja, que surgem entre uma mamografia e outra.

As mulheres devem estar atentas a que outros sintomas além dos nódulos?
— Nódulos não são os únicos sinais de desenvolvimento de câncer de mama. Sangramento pelo bico do seio, alteração no formato da mama, retração do seio (aparência de que está entrando) e vermelhidão também podem ser sintomas da doença.

Em geral, aumentou o número de mulheres que conseguem ter um diagnóstico precoce?
— Hoje em dia o câncer de mama acomete uma a cada oito mulheres. Mas graças à informação sobre a importância da mamografia, estamos detectando casos mais precocemente, o que aumenta bastante as chances de cura.

O que explica mulheres jovens, por volta dos 30 anos, desenvolverem a doença?
— Tumores malignos em mulheres com menos de 40 anos são raros e geralmente provocados por mutações genéticas, ao contrário dos casos em mulheres acima dessa faixa etária, em que raramente esta é a causa.

Além da propensão genética, quais fatores aumentam o risco do desenvolvimento de tumores malignos?
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Obesidade, sedentarismo, má alimentação, ingestão exagerada de álcool e terapias de reposição hormonal são fatores de risco. Mulheres que fazem reposição de hormônios, sobretudo as combinadas de estrogênio e progesterona, devem sempre se preocupar ainda mais em seguir uma boa alimentação e praticar exercícios físicos. Não é indicado se submeter às terapias de reposição hormonal por mais de dez anos e é fundamental fazer um acompanhamento detalhado com exames periódicos. Além dos fatores citados acima, mulheres com mamas muito densas, que apresentam dificuldade de detecção, e que se submeteram a radioterapia no tórax por conta de outras doenças durante a infância também têm chances mais elevadas de desenvolver câncer de mama. Quem já foi diagnosticado com lesão com atipia e tem histórico de familiar de câncer de mama, ovário, útero e intestino também pode ser propenso à doença.

O uso de anticoncepcional não entra nessa lista?
— No ano passado foi divulgado um estudo que correlaciona o uso do anticoncepcional ao desenvolvimento de câncer de mama. Mas do ponto de vista estatístico, essas pesquisas ainda são fracas. Então, não é uma máxima. Com certeza ser obeso é mais perigoso que usar anticoncepcionais no que diz respeito à possibilidade de desenvolvimento da doença.

A apresentadora Ana Furtado, apesar de ter descoberto o nódulo no início, foi submetida à cirurgia. Em que casos os médicos recomendam a intervenção e em quais, terapias como quimio e radioterapias?
—  Atualmente todos os tumores malignos localizados na mama e na axila, que não tiveram metástase, têm indicação de cirurgia. A recomendação de tratamentos como a quimio e a radioterapia dependem do tamanho do tumor e do acometimento dos gânglios da axila. A depender desses fatores, os pacientes podem fazer apenas um ou os três tratamentos.

O que é exame de assinatura genética e para quê serve?
— É um exame mais detalhado que tem o objetivo de avaliar se o paciente com câncer têm grande probabilidade de reincidência. A assinatura auxilia os médicos a elaborarem uma linha de tratamento mais assertiva. Infelizmente é um exame caro e pouco acessível no Brasil, já que não é disponibilizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Na saúde complementar, ou seja, convênios médicos privados, geralmente é necessário que o paciente entre com um recurso na justiça para o procedimento ser aceito.