Não conheço crianças perfeitas e também não conheço pais perfeitos

pai e filho
Foto: Pexels/Banco de Imagens

Estava no corredor número oito do supermercado do bairro assistindo minha filha pequena fazer um glorioso escarcéu anunciando para todos os clientes o quanto queria ganhar doces e o quanto o seu pai (o papai pop!) era péssimo ao não satisfazer suas vontades chocólatras. Ela gritava coisas do tipo “mas eu queeeeeeeerroooooooooooo” e eu me lembrava que, antes de ter filhos, jurava que jamais aceitaria que filho meu fizesse cena no supermercado, ele iria levar um tapa tão bem dado que ficaria desnorteado e jamais pediria nada nunca mais, pelo contrário, decidiria ali mesmo começar a trabalhar e se formaria em medicina antes dos dezoito anos. Pobre ilusão, o fato é que minhas filhas vieram e acabei incapaz de agredi-las, que bom que todas as pesquisas científicas comprovam que palmada é a pior atitude mesmo e o certo é explicar as coisas para a criança. Ufa.

Pra piorar, toda vez que minhas filhas dão vexame tem alguma pessoa que me reconhece por perto, todas as pessoas que leem esta coluna, e meus livros, e vêem meus vídeos e palestras e esperam que eu seja o pai perfeito e minhas filhas tenham comportamento impecável. Óbvio que isso não acontece, primeiro porquê não sou pai perfeito, pergunte à minha esposa, e segundo porquê não existe criança que não faça algum tipo de drama quando quer ganhar alguma coisa. Lá estava eu no corredor de número oito do supermercado e um cidadão de bigode e óculos passou com seu carrinho, percebeu a cena que minha filha estava fazendo e disse: “Escrever é fácil, né?”, enquanto eu tentava acalmar minha filha. Alguns leitores são muito desagradáveis, como podem ver. Tenho certeza de que não é o seu caso, mas foi o caso daquele senhor de bigode e óculos, se eu não me engano levava papel higiênico no carrinho e não era nem da marca mais cara.

Não tenho vergonha de dizer que aqui em casa minha filha de seis anos lava a louça de vez em quando, já preparou sua própria comida (fez arroz, fritou o bife e o ovo) e sempre que acaba de se alimentar coloca o prato na pia. Ela também escova os dentes e dorme cedo, faz a tarefa de casa e arruma o quarto sempre que pedimos, considero-a uma menina muito obediente mas, como já disse, de vez em quando dá um show de indisciplina, geralmente em lugares públicos e quando alguém que me considera o melhor pai do mundo está vendo. Quando ela não quer ir embora da casa de uma amiguinha, por exemplo, lá estou eu ajoelhado implorando para que ela venha comigo enquanto peço desculpas aos donos da casa. Ou pior, quando estamos em algum restaurante e ela fica chateada de não ganhar sobremesa, todas as pessoas sentadas perto da nossa mesa ouvem os gritos e pensam: “jamais permitiremos esta algazarra quando formos pais!”. Rá, penso comigo mesmo. Faço votos de fertilidade.

E quando uma repórter me entrevistava e perguntou “como criar crianças perfeitas?” e eu respondi, rapidamente: “Não sei!”. Não conheço crianças perfeitas, não conheço pais perfeitos e, certamente, não conheço adultos perfeitos. Conheço apenas aqueles que tentam acertar e que aprendem com os erros. Crianças farão pirraça, como fizemos eu e você. Em lugares públicos, minhas filhas colocarão em cheque minha fama de bom pai. Mas elas são comportadas quando ninguém está olhando. Eu juro que são.

Mais de Marcos Piangers: