Não lembro o que leio, apenas que foi bom

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Foto: Carlos Macedo/Divulgação

Guardo muitos livros em casa, uma pequena biblioteca de milhares. Metade ainda espera minha leitura e a outra metade já foi devorada, mas ainda assim a mantenho, já que acontece comigo algo desesperador: não lembro o que leio. Nada. Qual era o nome do personagem, qual a trama, como é que ela termina. Nada.

Há quem recite trechos de seus autores preferidos, quem reconheça passagens de obras lidas anos atrás e quem declame poemas alheios como se fossem seus. Não lembro nem meus próprios versos, o que dirá os versos dos outros. Amo os livros e tenho com eles uma relação doentia. Doença neurodegenerativa: o sentimento fica, a lembrança vaza.

Outro dia, observando as lombadas perfiladas nas prateleiras, encontrei Lentamente, de Erik Orsenna, romance francês que recomendei para muitos amigos, inclusive para um jornalista que se encantou a ponto de entrevistar o escritor em Paris. Pois mal me recordo do livro. O personagem amava uma mulher casada, e mais não sei dizer.

Não há como esquecer Canção de Ninar, de Leila Slimani. É um romance recente e impactante. Tirza, de Arnon Grunberg. Enclausurado, de Ian MacEwan. São livros que ainda retenho, pois não faz tanto tempo que os li e trazem passagens que abalam e surpreendem, mas o critério “não-faz-tanto-tempo-que-os-li” não é confiável. Três dias atrás fechei um livro que li com prazer, mas não me pergunte do que se trata. Sumiu de dentro de mim.

É uma espécie de mal de Alzheimer restrito apenas aos livros. Vejo a foto da capa, tenho certeza de que passamos bons momentos juntos, mas não me vem nenhum registro da história. E aí me pergunto: vale a pena continuar com o hábito da leitura, se logo depois perderei esse investimento de tempo?

A boa notícia: vale. É preciso confiar em tudo o que se conecta com a nossa sensibilidade. A retenção não precisa ser formal, ninguém irá nos sabatinar sobre o enredo, o que importa é a consequência emocional da leitura, a interiorização das descobertas, as portas que se abriram dentro da gente e que nos transformaram, mesmo sem termos consciência disso.

O poeta José Paulo Paes explica assim: “Cultura é tudo aquilo que a gente se lembra após ter esquecido o que leu. Revela-se no modo de falar, de sentar, de comer, de ler um texto, de olhar o mundo. É uma atitude que se aperfeiçoa no contato com a arte. Cultura não é aquilo que entra pelos olhos, é o que modifica seu olhar”. Grande poeta, que faleceu em 1998. Li muitos poemas de José Paulo Paes e não recordo de nenhum.

Mas certamente sua poesia me deu alguma percepção da vida que eu ainda não tinha, e isso me tornou melhor, maior e mais humana. Como acontece a cada bom livro que leio e que desgraçadamente esqueço.

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