Não há nada de errado comigo: eu simplesmente não quero ter filhos

Fotos: Ricardo Wolffenbüttel
Eu me emociono fácil com qualquer música da Disney, chorei feito uma condenada assistindo P.S. Eu Te Amo, mimo meu namorado mais que a média das minhas amigas – e, mesmo assim, ouço frequentemente a acusação de que “não tenho coração”. E tudo por um simples fator: eu não gosto de crianças. E não sei fingir que gosto.

Veja bem – “não gostar”, aqui, quer dizer simplesmente isso: não gostar. Não quer dizer “desgostar”. Eu obviamente não olho para uma criancinha e fico pensando coisas ruins sobre ela, ou, sei lá, desejando mal a ela. Eu só não sofro do “efeito bebê”: aquela coisa que faz 90% dos seres humanos se desmancharem ao ver um bebê, um vídeo de um bebê, uma foto de um bebê. Quer ver se for um bebê ou uma criança fazendo uma “coisa fofinha” (seja lá o que for isso): é aquele “AAAWN” coletivo, aquele impulso irresistível de compartilhar a foto ou o vídeo no Facebook. Eu não tenho isso. Não sinto isso. Pior é quando estou na presença do bebê – porque eu não sei interagir. Não sei pegar no colo. Não sei como conversar com ele – definitivamente me recuso a fazer aquela vozinha infantil que as pessoas usam para se dirigir às crianças, por favor. Não sei como fazer ele parar de – socorro – chorar, caso essa desgraça aconteça.

Eu começo a me dar bem com crianças quando elas chegam lá nos seus sete, oito anos de idade – porque aí me sinto à vontade para tratá-las como trataria qualquer adulto; sem voz fofinha, sem ficar cheia de dedos. Começo a achar a coisa um pouco mais fácil.

E esse é apenas um dos muitos fatores que me fazem não querer ter filhos. Tudo bem. Eu tenho 28 anos de idade – minha mãe diz que até os 30 também estava convicta de que jamais seria mãe. Pode ser que as coisas mudem. Mas, por enquanto, eu não consigo me imaginar engravidando. Tendo um filho. Sendo responsável pela criação de uma pessoa. E não é nem que eu não consiga imaginar isso acontecendo agora: eu não consigo imaginar isso acontecendo jamais. Minha irmã tem 25 anos, e definitivamente não quer uma gravidez para ontem – mas está certa de que quer filhos em algum momento do futuro. Eu, não.

Tenho pânico de pensar na gravidez. Em pensar em passar meses enjoada, sentindo dores, engordando, carregando outro ser humano dentro de mim. Tenho pânico de pensar no parto – normal, cesárea, seja como for. Tenho pânico de pensar que serei em grande parte responsável pelo caráter e pelo futuro de alguém. E se eu fizer alguma coisa errada? E sim, é verdade: também não consigo me imaginar abrindo mão do meu tempo, do meu dinheiro, das minhas noites de sono, em prol de uma pessoa que, no mundo e no universo de hoje, nem existe.

E é nessa parte que todo mundo fala que eu não tenho coração. Ou então que sou egoísta. É sério – eu fico até meio incrédula quando penso que estamos em 2018 e ainda existe gente que acha que tem algo moralmente errado com uma mulher que não quer ter filhos. Desculpa, vai: não sou obrigada – a ter filhos, a cumprir um papel que os outros querem que eu cumpra, a aceitar uma suposta felicidade que talvez simplesmente não sirva para mim. Eu acredito, de coração, quando alguém diz que “ter filhos foi a melhor coisa que já me aconteceu”. Tenho certeza de que, para essa pessoa, realmente foi. Mas também tenho certeza de que a vida de quem tem filhos não é mais e nem menos do que a vida de quem não tem: é simplesmente diferente. Cada um é cada um, dizem. Cada um tem seu caminho. Cada um com suas prioridades. Cada um com seu conceito do que é ter ou não “um coração”.

Para mim, por exemplo, o conceito é bem claro: não ter coração é assistir a O Rei Leão e não chorar. E ponto final.