Documentário catarinense retrata a vida de mulheres motoristas

"Nas Curvas da Estrada" será lançado neste sábado, dia 16, às 20h, no CIC, em Florianópolis

Filme conta a história de três mulheres: taxista, caminhoneira e motorista de ônibus (Fotos: Reprodução)

Um documentário feito por mulheres, sobre mulheres. Essa é a essência de Nas Curvas da Estrada, trabalho documental que conta a história de mulheres motoristas. O filme será lançado neste sábado, dia 16, às 20h, no CIC, em Florianópolis.

Ivone, Preta e Soraya são as donas das histórias encontradas e contadas pela diretora Viviane Mayumi, 28 anos, nascida em São José dos Campos (SP) e moradora da capital catarinense. O filme é a estreia de Viviane como diretora — ela já havia atuado em séries e filmes como assistente de direção. A jovem também assina a criação e a produção executiva da webserie Super, junto com a Lara Koer, Maria Fernanda Bin e a Caroline Mariga.

Nesta entrevista, Viviane fala sobre o processo de escolha das personagens, como foi a construção do documentário e o trabalho da equipe formada majoritariamente por mulheres, incluindo a trilha sonora, que traz a respeitada Dandara Manoela.

Assista ao teaser:

Como surgiu a ideia de fazer esse documentário?

Filme de estrada é um gênero que gosto muito pois permite trabalhar com alegorias, tanto sociais (como o clássico Thelma e Louise, em que duas mulheres enfrentam a sociedade patriarcal) quanto de ideais (generalizando, a eterna busca humana pela liberdade e felicidade). Siga em Frente, projeto de artes-visuais contemplado pelo Prêmio Elisabete Anderle em 2013, é baseado num roteiro desse gênero que assino junto com a Marina Watson-Wood. Então eu ainda tinha vontade de trabalhar com esse gênero e foi numa corrida de táxi com a Soraya que a ideia do projeto surgiu. Normalmente converso bastante com os taxistas (na época os aplicativos não haviam chegado à Ilha), mas foi a primeira vez que eu fiz uma corrida com uma mulher taxista em Floripa e só consegui trocar algumas poucas palavras com ela, pois minha cabeça estava a mil pensando em todas as mulheres motoristas que já encontrei um dia – as “mãestoristas”, como a minha mãe, e “vótoristas” que carregam seus filhos e netos para cima e para baixo, as “as tias” dos transportes escolares, as caminhoneiras, as motoristas de ônibus… E a ideia de uma série como se você pegasse carona com essas motoristas e conversasse com elas o que desse vontade surgiu. Então adaptei a ideia para se enquadrar num curta que inspirasse coragem a outras mulheres e que mais para frente pudesse se transformar em um episódio piloto.

Quem são as mulheres entrevistadas?

Para ajudar a encontrar as mulheres motoristas eu contei com a experiência da Adriane Canan e da Moara Costenaro, também diretoras de documentários. Juntas elas assinam a pesquisa do filme. Fizemos uma pré-seleção de várias mulheres motoristas e partimos para encontros ou conversas por telefone com elas. Conheci mulheres incríveis, algumas tinham plena noção do quão pioneiras e empoderadas elas eram, outras diziam que não viam nada demais, pois elas sempre trabalharam com isso. Queria que todas pudessem estar no filme, mas como o projeto contemplado no Prêmio de Cinema Catarinense foi um projeto de curta-metragem, foquei no desafio de fazer um curta-doc bem feito e assim não seria possível apresentar todas as mulheres que conheci e suas peculiaridades de uma forma justa.

Soraya é taxista
Loine é motorista de ônibus transporte escolar
Preta dirige caminhão

O curioso das três escolhidas é que a Loine (Ivone Rocateli) chegou através de um contato da Adriane, a Preta (Maria Delaide Zanatta) pela Moara e a Soraya (Soraya Teles Vieira) um contato meu. A Soraya é taxista em Florianópolis. Quando nos conhecemos oficialmente por conta do filme, ela estava batalhando para conseguir comprar o próprio táxi, já havia conhecido o estado inteiro pois trabalhava em institutos de pesquisa, o ponto dela é no Hospital Infantil. A Preta normalmente fica em Curitiba, mas toda vez que falo com ela, está em algum lugar diferente do país entregando algum caminhão. Ela tem histórias muito engraçadas sobre perrengues na estrada. A Preta é muito admirada por seus colegas de profissão. Ela já desceu a cordilheira dos Andes para entregar caminhões no Chile, e incentiva colegas, principalmente mulheres, a seguirem a profissão. E a Loine é motorista de ônibus escolar de Guarujá do Sul (Extremo-Oeste catarinense), cidade de quase 5 mil habitantes. Então todo mundo conhece a Loine e ela é única mulher dirigindo o transporte escolar da prefeitura. Arrisco dizer que ela é uma celebridade. A cidade toda nos acolheu muito bem. Tanto que senti o dever de realizar a pré-estreia lá antes de Florianópolis. Fizeram uma projeção na praça, junto com a cerimônia de acendimento das luzes de Natal e lançamento de um projeto de cinema da cidade. Quase 2 mil pessoas viram o filme.

Eu me perguntava como conseguiria construir a confiança delas em mim estando longe, então tive a ideia de criar um grupo com as três, a Moara e a Adriane, e mandava vídeos e áudios do que estava fazendo para elas e elas respondiam contando o que estavam fazendo também. Muitas vezes elas acabavam conversando entre si, sobre assuntos de onde vieram e da estrada. Me senti muito privilegiada de poder observar e participar da dinâmica delas.

Você contou com uma equipe pra executar o projeto?

Outro ponto também que acredito ter contribuído para que elas se sentissem confortáveis nas entrevistas foi ter escolhido uma equipe de filmagem só de mulheres. No projeto contemplado pelo Prêmio Catarinense de Cinema eu propus que a equipe seria composta 75% por mulheres. Consegui 80%. Durante as filmagens éramos cinco mulheres (Carolina Medeiros, diretora de produção, Kike Kreuger, diretora de fotografia, Karim Rojas, assistente de câmera, Renata Naegele, som direto e em uma diária que a Renata não pode ir, foi a Ingrid Gonçalves) numa Spin com equipamentos até o teto, e a Flavia Castro, produção executiva, e a Patrícia Perassa, controller, nos dando suporte de Floripa. Além da equipe ser formada majoritariamente por mulheres, acho legal comentar que a trilha do filme é performada pela Dandara Manoela, uma cantora bem conhecida na Ilha. E pela Marissol Mwaba também. Uma equipe de filmagem só de mulheres causava a princípio um estranhamento nas pessoas, mas logo isso se transformava em admiração. E isso foi um movimento que percebi ser recorrente na profissão de motorista.

Enfrentou dificuldades para fazer?

Para mim a etapa mais complexa foi o momento da montagem, porque em todas as outras etapas da produção havia uma visão muito certa do que seria o filme – um documentário estilo filme de estrada sobre aventuras (ou histórias?) de mulheres motoristas. Eu e a equipe construímos esse norte, mas fomos para as filmagens, que aconteceram em 10 dias, muito abertas ao que surgisse. Quando já tinha feito todas as perguntas que havia me programado, abria o diálogo para outras questões da vida, deixava elas falarem o que sentissem que deveriam falar e abria para a equipe perguntar algo também. Chegando na ilha de edição, depois de um mês estudando o material, a Lara Koer (montadora) me apresentou um primeiro corte de quase uma hora de duração. Muita história boa, muita imagem bonita que dava dó de cortar. Olhávamos nossas anotações para ver se estávamos ao menos indo na direção que nos propusemos — sim, estávamos, mas ainda não era aquilo. Pedimos a opinião de alguns amigos quando nos vimos apegadas demais às imagens, com o filme quase na minutagem que ele tem hoje. Até que tivemos aquela resposta que precisávamos ouvir e o instinto ceifadoras apareceu. A sensibilidade da Lara foi imprescindível nesse processo que durou quase quatro meses. Ela dizia que recebemos cinco mil peças de um quebra-cabeça que só se montava com mil e as outras peças poderiam montar outros quebra-cabeças também.

Serviço

Pré-estreia do documentário Nas Curvas da Estrada
Quando: 16 de Março de 2019, às 20h
Onde: Cinema do Centro Integrado de Cultura – CIC

A pré-estreia é uma parceria com o Cineclube do curso de Cinema da Unisul.

Ao fim da sessão, acontecerá uma roda de conversa com a equipe e as motoristas do documentário.

Sessões Acessíveis: Se você precisa que a sessão tenha audiodescrição, tradução para libras ou LSE (Legendas para Surdos e Ensurdecidos), avise.

EVENTO GRATUITO

Leia também:

Cineasta catarinense ganha destaque com produção em Hollywood

Conheça histórias de mulheres catarinenses que quebram tabus