Nem 8, nem 80: a vida precisa de sentimentos para ser um pouco mais colorida

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Esses dias uma amiga minha estava indignada olhando o Facebook: “Por que as pessoas têm mania de fingir ser uma coisa que não são?”, perguntou. Pensei que uns 95% das pessoas deve fazer isso em redes sociais, mas aí ela explicou que sua revolta era mais específica: “Odeio gente que gosta de fingir que é durona. Minha amiga aqui vive postando imagens e frases sobre não ter sentimentos, não correr atrás de ninguém, e eu sei que ela ainda morre de chorar pelo ex-namorado. Pra que isso, gente? Admite! Não sei quando foi que não ter sentimentos, ser frio, indiferente a tudo, virou uma coisa bonita. Desde quando não ter sonhos é motivo para orgulho?”

Como boa canceriana, é claro que minha amiga iria se irritar justamente com esse ponto (como boa escorpiana, eu gosto de analisar as pessoas baseada em seus signos, desculpe). Mas tanta indignação (juro que ela ficou uns vinte minutos filosofando sobre o assunto) me fez pensar. Na questão específica dos relacionamentos amorosos, eu fiz, por muito tempo, parte desse time das pessoas indiferentes. E não era fingimento: fui solteira durante 22 anos, e, sem querer parecer arrogante, não foi por falta de oportunidade. Foi por falta de vontade. Juro que nunca tinha me apaixonado por ninguém – e, por mais que tentemos trabalhar a empatia, às vezes é mesmo meio difícil entender, se identificar ou acreditar em coisas que jamais sentimos ou experimentamos. Eu achava tudo isso meio bobagem. Meio exagero. Sofrer por amor, afe. Com tanta coisa pra ocupar meu tempo, gente.

Até eu passar a acreditar em tudo isso, claro. Suponho que para tudo tem uma primeira vez.

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Então eu entendo quem “não acredita” ou simplesmente não se envolve com relatos amorosos e histórias românticas. Mas só entendo quando for sincero: quando não for, quando a pessoa estiver realmente tentando “fingir que é durona”, eu concordo com minha amiga canceriana. Dá tanto trabalho se passar por algo que você não é — e dizem que engolir sentimento dá até doença. Socorro. Eu acho mais é que sentimentos foram feitos para ser expressados — em forma de conversa, de revolta, de choro, de música, de arte, de texto. São eles que nos movem, que nos levam a fazer tanta coisa. Para que fingir que eles são ausentes da sua vida? Para agradar ou impressionar seus seguidores no Facebook – que provavelmente não se importam nem um pouco com o que você sente ou deixa de sentir?

Acho que ninguém é, ou ninguém deveria ser, obrigado a se moldar às expectativas dos outros. Ou, pior, a uma crença própria a respeito do que os outros supostamente vão achar mais cool ou descolado.

Eu tenho umas opiniões que fazem as pessoas me acusarem de “não ter coração”: como ter passado tanto tempo sozinha e sem querer namorado, ou como o fato de que não sou lá muito chegada a crianças e bichinhos de estimação. Mas sou uma das pessoas mais sonhadoras que conheço. Chorei em todas as dezenas de vezes em que reli Harry Potter, fui passar uma temporada trabalhando na Disney poque queria conhecer o backstage daquele mundo de fantasia, faço planos que algumas pessoas julgam bobos ou exagerados — e não ligo de assumir tudo isso. Viver as emoções causadas por meus sonhos e minhas paixões vale muito mais do que uma suposta admiração alheia por ser mais uma alma distante em um mundo tão frio.

E – apesar de escorpiano ter fama de mau – não acho mesmo bonita ou louvável essa postura indiferente diante das alegrias e tristezas da vida. Acho que tentar manter a pose de rainha ou rei do gelo tira muito do colorido que o dia a dia tem — e, às vezes, atrapalha até mesmo o colorido da vida alheia. Mas talvez isso seja coisa de signo de água — escorpianos, cancerianos ou piscianos, somos sentimentais. Nisso eu e minha amiga nos entendemos.