“Neto de aluguel”, em Florianópolis, faz companhia a idosos e vira melhor amigo

Renato percebeu que as rotinas das famílias hoje em dia não permitem essa convivência com os idosos e resolveu agir

Fotos: Tiago Ghizoni

A profissão de acompanhante de idosos vem se popularizando no país, principalmente como opção de fonte de renda. Mas para Renato André Mondini Ribeiro, de 31 anos, morador de Florianópolis, a escolha não foi financeira.

— Eu sou professor e larguei a educação para cuidar do meu avô. Aos 96 anos, ele veio para a minha casa e eu decidi parar com tudo para dar atenção. Ele morou em uma casa de repouso, quando ficou viúvo, mas ninguém tinha mais condições de assumir, e então eu pensei em trazer ele para casa. E aí começou a convivência com ele, comecei a ajudar em tudo, cortar a barba, ir ao banheiro, tomar banho, trocar uma roupa, e isso foi evoluindo. Nisso criou-se uma amizade muito interessante. Eu tenho áudios gravados que nenhum primo meu ou os próprios filhos do meu avô imaginam as coisas que ele me contou.

 

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E vestidos dessa forma nos despedimos brevemente. Já faz um mês que olho a cama vazia, sorrio pro curió e agradeço o presente que foi nossa amizade. Tua bênção, Vô.❤😢 *Foto: arquivo pessoal. ➖ NETO DE ALUGUEL – 48 999142723 ➡Siga no Instagram ➡Compartilhe no Facebook ➖ Conheça mais sobre o NETO DE ALUGUEL https://youtu.be/a5wcfzP0Lh0 ➖ #idosos #idososativos #vidasaudavel #terceiraidade #saude #longevidade #liberdade #envelhecer #netodealuguel #avos #parkinson #alzheimer #fisioterapia #amor #carinho #alegria #terapia #gerontologia #musica #pilates #musically #melhoridade #veteran #respeito #musicoterapia #geriatria #ortopedia #vida #saudedoidoso #familia

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A relação com o avô Manuel Ribeiro, ou Vô Nequinho, que faleceu recentemente, motivou uma importante reflexão. Renato percebeu que as rotinas das famílias hoje em dia não permitem essa convivência com os idosos.

— A verdade é que hoje ninguém dá atenção para ninguém, ninguém senta para conversar, para saber o que o outro está sentindo. Os filhos estão trabalhando, os netos estão na escola, ou estão fora do país. E todo mundo bate foto: “olha meu avô de tantos anos” e bota no Instagram. Mas sentar para conversar, trocar uma ideia com o cara 60 anos mais velho, não tem. E o neto de aluguel surgiu dessa necessidade.

A necessidade, segundo a psicóloga Telma Lenzi, é uma crescente na vida moderna. De acordo com a especialista, as famílias não estão preparadas para o envelhecimento prolongado dos parentes.

— Na nossa cultura, a gente não se preparou para essa sobrevida. As famílias estão tendo idosos nos seus 90 anos e não sabem o que fazer, sem ter muita estrutura para isso. Os idosos vão chegando nessa idade, começam a precisar de cuidados, e normalmente a família e seus filhos estão todos ocupados, em plena atividade profissional. O idoso está de fato mais abandonado — afirma Telma.

A terapeuta também aponta que, nessa fase da vida, a pessoa fica mais carente, mais frágil, e precisa de companhia, principalmente alguém que o escute.

— Normalmente o idoso tem histórias muito lindas de vida para contar e, muitas vezes, as pessoas da família já escutaram essa história muitas vezes e perdem a paciência. Mas na solidão, o que a gente mais precisa é de alguém que escute com qualidade.

“Eu quero me tornar amigo, dividir os melhores momentos do dia”, enfatiza Renato André Mondini Ribeiro, o Neto de Aluguel

Foi nesse cenário que Teresa Maria Knoll, de 74 anos, percebeu que o marido precisava de mais atenção. Aposentada, ela ainda procura manter uma vida ativa — de compras no supermercado e encontros da tarde com as amigas — e José Carlos Knoll já não pode mais acompanhar. Com 75 anos e portador de uma deficiência neurológica, o dia a dia de Seu Zé se tornou mais lento.

— E eu estava sobrecarregada, 24h com ele, há três anos somente nós dois, e eu estava me esgotando. Meus filhos falaram: mãe, você precisa de alguém para ajudar a cuidar dele — contou Teresa, que, uns meses antes, viu propaganda do Neto de Aluguel no salão de beleza que frequenta, na vizinhança.

Os encontros de Seu Zé e Renato, três vezes por semana, incluem, além das conversas sobre histórias de vida, idas à academia, barbearia e um importante passeio pelo prédio.

— Ele adora fiscalizar a obra que está sendo feita aqui do lado. Não é dele, mas vamos lá todos os dias para saber se os funcionários estão trabalhando direitinho e se o prédio está subindo como tem que ser — conta Renato, que se diverte com a função escolhida como favorita pelo idoso.

Renato também acompanha José Carlos na academia do prédio, para fazer atividades físicas indicadas pela fisioterapeuta que acompanha a saúde do idoso

Na academia do prédio, Renato auxilia os movimentos na bicicleta, único equipamento permitido pela fisioterapeuta responsável pelo paciente, Juliana Cavalcante. Especialista em pacientes com deficiências neurológica, ela afirma que a convivência do Renato com o Seu Zé tem benefícios para agregar ao tratamento do idoso.

— Eu acho interessante que ele tenha essa companhia para fazer as atividades físicas, porque ele tem um déficit neurológico que acaba dificultando os movimentos e deixando ele letárgico. Ter alguém diminui os riscos de queda e traz estímulos para as funções das atividades diárias — afirma a médica.

Relação de família

“Ele já é meu neto”, afirma Teresa Maria Knoll

Apesar de ser um serviço, oferecido, em média, por R$ 150 o período, Renato não enxerga a nova profissão como trabalho. Para o Neto de Aluguel, que atende outros três idosos na Grande Florianópolis, o mais importante é se tornar parte da família.

— Você vai colocar alguém estranho dentro de casa, então precisa dessa confiança. E eu quero me tornar amigo, dividir os melhores momentos do dia — enfatiza Renato.

Sentimento que é recíproco na casa do Seu Zé, que mesmo com dificuldades para falar, devido à deficiência neurológica, fez questão de afirmar:

— Ele é o melhor amigo que eu já tive na vida.

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