“Nós não fomos feitos para ficar sentados”, dizia Marcelo Yuka, que nos deixa uma lição

“Você já viu algum cadeirante velho?”, perguntava ele. “Não uma pessoa velha que tenha ido pra cadeira de rodas por fraqueza, mas uma pessoa como eu? Não"

Marcelo Yuka
Marcelo Yuka (Foto: Julia Kurc/Divulgação)

Stand up é um termo inglês que significa “ficar de pé” ou “levantar-se”. Popularizou-se quando surgiram as primeiras apresentações de comediantes que, sozinhos no palco, sem cenário, dispunham apenas de um microfone para fazer a plateia rir. Mais tarde, o termo passou a designar o remo em pé: stand up paddle. É uma modalidade antiga de surfe, originária do Havaí, mas que hoje é praticada também longe das ondas – em rios, lagos e em alto mar, por profissionais e também por amadores que buscam equilíbrio, diversão e condicionamento físico.

Estamos em pleno verão e a menção a esse esporte já justificaria a coluna, mas quem me trouxe ao assunto foi Marcelo Yuka, compositor que fundou a banda O Rappa e que morreu há duas semanas, aos 53 anos, de infecção generalizada. Em 2000, ele levou nove tiros ao tentar socorrer uma mulher durante um assalto e ficou paraplégico.

Afora a canção Minha Alma, sucesso que consagrou o verso “Paz sem voz não é paz, é medo”, eu conhecia pouco de seu trabalho, mas aprendi a respeitá-lo através da biografia Não se preocupe comigo, escrita pelo jornalista e amigo de Yuka, Bruno Levinson. Conheço o Bruno e acompanhei suas manifestações depois que Yuka se foi. Bruno disse que Yuka sempre soube que morreria cedo. “Você já viu algum cadeirante velho?”, perguntava ele para Bruno. “Não uma pessoa velha que tenha ido pra cadeira de rodas por fraqueza, mas uma pessoa como eu? Não. Nós não fomos feitos para ficar sentados”.

Chegamos ao ponto. Não fomos feitos para ficar sentados.

Não fomos feitos para passar horas numa poltrona diante de um computador, afundados num sofá com um celular na mão, numa cama manejando um controle remoto, numa sala de espera enquanto não chamam nosso nome – e esta última situação uso como metáfora para milhões de preguiçosos que estão sentados numa “sala de espera” aguardando para entrar na vida, em vez de alcançá-la com os próprios pés.

Não fomos feitos para o sedentarismo, a pasmaceira, o tédio, a paralisia e os quilos extras que a inatividade traz. Considero vulgar a expressão “tirar a bunda da cadeira”, mas é disso que se trata, grosso modo. É exasperante ver que muitos adolescentes com energia de sobra estão desperdiçando-a com um cansaço existencial que nada mais é do que medo de expandirem seu destino, de correrem atrás de projetos sem garantia, de se submeterem a aventuras incertas – como se tudo não fosse incerto. Aboletam-se, atrofiam-se e morrem cedo. Com o agravante de estarem presos a uma cadeira por livre e espontânea vontade, ao contrário de Yuka.

Pois eu, que estou longe dos meus 17 anos, venci a resistência que sempre tive a esportes náuticos: me pus de pé em cima de uma prancha e passei a remar, vacilante e valente ao mesmo tempo, como em toda estreia. Stand up! Levante-se também. Pela razão que achar que mereça, mas levante-se.

Leia também:

Por que pedimos perdão por chorar?

Leia mais colunas de Martha Medeiros