Certas situações podem nos reduzir aos nossos instintos mais básicos – e valer a pena mesmo assim

É como se, passando por esse tipo de necessidade, nosso cérebro fosse reduzido aos instintos mais básicos

Foto: pixabay

É quase meia-noite. Faz frio – muito frio para quem saiu de casa desprevenida e só levou roupa de verão. Estou de short jeans, camiseta regata e tênis, e sem um casaco por perto. Para completar, tomei chuva – meus All Star estão encharcados; e quem consegue ficar quente quando os pés estão gelados?! Comprei uma capa de chuva vagabunda, que agora, depois do fim da chuva, continuo vestindo; como um substituto não muito eficiente para um moletom. Ao contrário do que normalmente gosto de fazer, me enfio bem no meio da multidão – pelo menos as pessoas formam uma barreira contra o vento. Tenho fome. Tenho sono. E tenho menos de seis horas antes que meu avião decole no aeroporto, para me levar de volta a Floripa – e direto ao trabalho, porque não é final de semana nem feriado.

O cenário parece meio apocalíptico, mas não é nada demais: só estou na fila esperando a van que, ao fim do show dos Rolling Stones, me levará de volta ao hotel – e, se os céus permitirem, a um banho quente e algumas abençoadas horas de sono. Ali, passando frio e morrendo de fome, eu só consigo pensar nessas coisas básicas: tirar os tênis molhados. Trocar de roupa. Comer, por favor. Dormir. Não consigo nem me alegrar ou ficar pasma com o quanto o show que eu acabei de ver foi incrível – e foi, acredite em mim. Mas todo mundo parece meio mal-humorado: braços cruzados, caras fechadas, queixos batendo. É como se, passando por esse tipo de necessidade, nosso cérebro fosse reduzido aos instintos mais básicos. Não preciso de Rolling Stones para sobreviver – preciso de comida!

Quando a van chega, não existe solidariedade ou sequer gentileza: todo mundo corre para a porta, se atira lá dentro, quer garantir um lugar o mais rápido possível – dá a impressão de que quem se meter no caminho vai levar uma mordida. Novamente, os instintos: é difícil pensar nos outros quando estamos, nós mesmos, tão desconfortáveis. Na verdade, é difícil pensar até mesmo nos nossos próprios desejos mais supérfluos: quantas vezes, durante um passeio ou viagem, você decidiu ir para casa mais cedo porque os pés já estavam doendo, porque a pele já estava queimada de sol, porque não queria perder o último ônibus da noite? Aposto que depois você se arrependeu – droga, eu devia ter dado mais uma volta na montanha-russa. Devia ter voltado àquela lojinha para comprar um suvenir. Devia ter tido paciência para procurar o melhor ângulo para aquela foto.

Mas isso tudo você pensa depois – quando está confortável, bem alimentado, quentinho (ou fresquinho, depende do incômodo original), limpo, descansado. Na hora, nada disso importa. Na hora, um miojo e uma cama são muito mais interessantes que qualquer ponto turístico. A gente até se pergunta por que diabos faz isso consigo mesmo. Será que eu me odeio? Será que sou masoquista? Mas no fundo eu sei que não é nada disso: qualquer amante de shows (ou de viagens, ou de trilhas, ou de qualquer outra coisa que seja divertida e cansativa na mesma medida) sabe que, no momento da diversão, nada disso passa pela cabeça. Quando a música começa, você esquece a chuva, esquece as bolhas nos pés, esquece o calor. Tudo é maravilhoso. Tudo é incrível.

Você vai lembrar – e talvez, por um ínfimo segundo, se arrepender – assim que as luzes se apagarem. Assim que aquela dor na lombar der olá. Assim que você notar suas roupas molhadas – de suor e de chuva – grudando no corpo. Assim que lembrar que, no desespero da sede, pagou 8 reais por um copinho de água. Mas tudo isso vai pelo ralo com a água do banho que você vai tomar chegando em casa ou no hotel – e as lembranças vão fazer tudo valer a pena. Aquela música favorita grudada na cabeça, em uma exclusiva versão ao vivo, por dois ou três dias. As fotos. Os vídeos. A consciência de que você viu pessoalmente, de perto, um artista que talvez vá ser lembrado daqui a 50, 100 anos. Boa história para contar para os netos.

E pode ter certeza de que eu vou estar no próximo show internacional que acontecer aqui por perto (às vezes, nem tão perto assim). Vou passar frio e calor, vou ficar incrivelmente exausta, vou pagar vinte reais em um cachorro-quente ruim quando a fome apertar. Mas vai valer a pena.

Ai de quem se meter na minha frente na fila da van.

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