Novo namoro de Fátima Bernardes traz à tona discussão sobre relações de mulheres mais velhas com homens mais jovens

“Quem sabe isso quer dizer amor, estrada de fazer o sonho acontecer”.

O trecho de uma canção do compositor mineiro Lô Borges serviu de legenda para a foto da apresentadora Fátima Bernardes pedalando de braços abertos ao lado do advogado Túlio Gadêlha Sales, na mesma pose. A postagem no Instagram de Fátima selou o que o Brasil comentava ardorosamente desde a semana passada, quando circularam as primeiras fotos do casal passeando em um shopping do Rio de Janeiro. Mais do que o novo amor de uma celebridade nacional, chamou a atenção a diferença de idade entre os dois: ele, aos 29 anos, 26 anos mais jovem do que ela, aos 55 anos.

Do estranhamento à reação das redes – passando, claro, pela iniciativa de fazer esta reportagem –, a repercussão da notícia é coerente com o que a antropóloga Mirian Goldenberg apontou na pesquisa que rendeu o livro Por que os homens preferem as mulheres mais velhas? (Editora Record, 2017). O título, ela mesmo admite nas primeiras páginas, é uma provocação:

– É fácil constatar que a grande maioria dos homens prefere se casar com mulheres mais jovens. Mais correto seria perguntar: Por que alguns poucos homens brasileiros se casam com mulheres mais velhas? Entretanto, pesquisando os mais diversos tipos de relacionamentos, me chamou a atenção que esse tipo de arranjo conjugal é um dos que apresentam mais indicadores de satisfação, frente a outros muito mais comuns, daí o título – conta Mirian, que observou em sua pesquisas casais cariocas de mulheres até 20 anos mais velhas do que seus  parceiros, e todos juntos há mais de uma década.

Salvo um e outro comentário duvidando das boas intenções do advogado, a notícia sobre Fátima Bernardes despertou uma reação altamente positiva. Além da chuva de mais de 650 mil likes no Instagram, se repetem adjetivos como “maravilhosa”, “poderosa”, “lindos” e desejos de felicidades ao casal. Mas se a reação é tão positiva mesmo em um ambiente por vezes tão hostil como as redes sociais, por que vemos tão poucos desse tipo de arranjo conjugal por aí?

Segundo Mirian – presença frequente, inclusive, nos debates sobre relacionamento do programa Encontros com Fátima Bernardes – esse tipo de mudança de postura na sociedade ocorre em três etapas. A primeira delas é a do discurso de aceitação. A segunda é a aplicação do discurso na vida real, nos comportamentos do dia a dia. Na terceira e derradeira fase, essa nova postura se transforma em um valor da sociedade e deixa de chamar a atenção. No caso dos relacionamentos entre mulheres mais velhas e homens mais jovens, de acordo com a antropóloga, o Brasil está vivenciando a transição mais complicada, da primeira para a segunda fase.

Reprodução / Instagram

– E infelizmente muito do preconceito é das próprias mulheres, que são muito cruéis julgando a si mesmas e umas às outras. Primeiro, porque internalizaram essa visão de que o seu parceiro deve ser um homem “superior”: mais velho, mais alto, mais forte, mais poderoso, mais bem-sucedido. E também porque, com esse pavor do envelhecimento tão peculiar às brasileiras, elas não se permitem diversos comportamentos depois de determinada idade – analisa Mirian.

No livro, a antropóloga enxerga esse comportamento das mulheres como coerente a outras restrições. Em uma pesquisa anterior sobre envelhecimento, por exemplo, ela perguntou “Você deixaria de usar uma roupa porque envelheceu”. A diferença entre os gêneros foi gritante: 96% das mulheres disseram que sim, enquanto 91% dos homens responderam que não. Namorar homens consideravelmente mais jovens, portanto, seria visto como mais um comportamento vetado a mulheres, mas que homens pouco se importam quando a situação se inverte. Quiçá, almejam. Já entre mulheres, esse tipo de arranjo ainda é visto como sintoma de “envelhecer mal” ou “não saber a idade que tem”.

Algumas dificuldades para realizar essa reportagem são reflexo disso. Não faltam casos de mulheres na faixa dos 50 e 60 anos namorando homens que recém lidam com os primeiros cabelos grisalhos. Embora sejam só elogios aos relacionamentos em si, são raros os que desejam aparecer em páginas de revista falando sobre o assunto. Além de preservação da privacidade, a restrição se deve porque falar sobre o assunto abertamente envolve expor também o preconceito de pessoas muito próximas. É o caso de Mara (o nome é fictício), que aos 60 anos namora um homem de 36 há dois anos.

– De um a 10, te digo que o apoio que eu tive da minha família foi zero. Desde que estamos juntos, por exemplo, nunca mais fui convidada para aniversários e outros eventos. Saímos bastante, mas evitamos andar de mãos dadas na nossa cidade. Fora daqui, sim. E aí percebemos uns olhos arregalados. Acho que estamos juntos porque a nossa mente tem a mesma idade. As do resto da sociedade, não posso dizer o mesmo – declara a funcionária pública aposentada.

Os relacionamentos apresentam bastante pontos em comum. É comum, por exemplo, que no caso das mulheres ele se dê após um longo casamento com um parceiro mais velho, e que gerou filhos. Em geral, a abordagem partiu do homem mais novo, e surpreendeu a parceira, que relutou até se dar conta de que o interesse por ela não trazia segundas intenções diferentes do que qualquer outra manifestação de desejo. Os aspectos negativos também se assemelham, como ouvir comentários de que os homens estão sendo sustentados por suas namoradas.

– Desse comentário maldoso aí eu dou muita risada, porque quando acontece de um pagar a conta do outro, é sempre ele que paga para mim. Mas no nosso caso, acho que chamamos um pouco menos de atenção porque eu, modéstia à parte, não aparento a minha idade. Me dão no máximo uns 38 anos. Saímos eu, meu namorado e a irmã dele, de 23 anos, e não há qualquer diferença no nosso comportamento, nas nossas roupas, nos nossos assuntos. Em um relacionamento assim, a gente fica com a cabeça mais jovem – conta Sônia, empreendedora que, aos 54 anos namora um representante comercial de 34 anos, mas que tampouco topou publicar seu verdadeiro nome.

São raros casos com o da arquiteta Suzete Johann, 62 anos, casada há sete anos com o gestor ambiental Marcelo Boneto, 39 anos, que falam sobre o assunto abertamente. Marcelo, conta a esposa, era amigo do filho de Suzete (hoje com 37 anos) e frequentava a casa deles. Há 10 anos, o tom da conversa entre os dois mudou.

– Ele ligava sempre lá pra casa, até o dia em que o Marcelo disse que não era com o meu filho que ele queria falar – conta Suzete, às gargalhadas.

É na fala dela, ao comentar as dinâmicas do seu relacionamento, que aparece uma das características mais citadas por Mirian em seu livro.

– O nosso relacionamento tem leveza. Nós brincamos um com o outro o tempo todo. Ele diz “vem cá, minha velhinha”, e eu respondo: ‘tu vai ver, velhinha!”. Meu netinho chama o Marcelo de “vô”. O que eu sinto é que temos um relacionamento muito puro, sabe?

Mas puro, esclarece Suzete, não é no sentido de algo ingênuo. Mas no sentido de algo livre de “toxinas” comuns a outros tipos relacionamentos. Ela complementa:

– Quando não se tem preconceito algum, só o que sobra é aquilo que um sente pelo outro.

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