O dia que conheci meu pai

Foto: Pixabay

Foi no lançamento do meu segundo livro, na livraria Travessa do Rio de Janeiro, que notei que minha esposa estava nervosa, olhando pra fila. Mais especificamente ela olhava para um homem: cabelo branco, barriga grande, acompanhado de uma amiga. Quanto mais perto chegava a vez dele pedir um autógrafo mais minha esposa me olhava nervosa. Comecei a perceber que algo estava acontecendo. Então, percebi que só podia ser uma coisa: aquele homem na fila era o meu pai biológico.

Alguns meses antes, minha mãe finalmente havia me contado o nome do homem que nos abandonou. Através das redes sociais minha esposa o localizou. Estava morando no Rio de Janeiro. Conversaram por chat. Ele, logo na primeira troca de mensagens, acusou minha mãe de não deixá-lo participar. Minha esposa sugeriu que ele me procurasse. Ele respondeu: “eu não opero dessa maneira”.

Alguns homens operam do jeito que querem. Abandonam mulheres grávidas, dizem que a culpa é da mulher, aparecem sem ser convidados. Minha questão não é com um homem específico, é com todos nós que vivemos despreocupados com o coração dos outros. Não sei se ele queria alguma recepção calorosa, se esperava que eu me emocionasse com aquele encontro. Quando chegou sua vez, apertei sua mão e disse: “Eu sei quem você é”. Me olhou surpreso. Conversamos como se ele fosse o estranho que é. Dediquei um autógrafo. Agradeci a presença. Passei a atender os próximos da fila.

A questão não é que eu tenho mágoas, é que não tenho paciência. Acho que cada homem que abandona um filho inventa uma desculpa. Foi a mulher, foi a mãe da mulher, foi o momento da vida, foi apenas uma aventura, a culpa é de todo mundo menos dele. O homem que abandona o filho e reclama que o país está essa bagunça. O homem que abandona o filho e ainda espera receber palmas. Guardo palmas pra dar pra minha mãe e tudo o que ela fez por mim. Para minha esposa e filhas que me ajudaram a ser o homem que sou hoje. A época que eu chorei pra ter um pai já passou. Agora é minha vez de ser pai. Não vou botar a culpa em ninguém pelos meus erros.

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