O hambúrguer e o mundo moderno

Foto: Pixabay

Ontem eu comi um hambúrguer.

Aqui, no conforto do meu lar, enquanto me lambuzava de cheddar e gordura, eu fiquei refletindo: há não muito tempo atrás (em matéria de história da humanidade), se quisesse comer um hambúrguer (supondo que esse conceito já existisse), eu teria que criar uma vaca. Matar a vaca. Limpar a vaca. Separar e moer a carne. Moldar e assar o hambúrguer. Teria que juntar todos os ingredientes da massa do pão – que eu nem sei exatamente quais são -, amassar com meus próprios dedos, assar. Teria que ir ao galinheiro pegar ovos para fazer a maionese. Teria que plantar alface e tomate, cuidar pra não bichar, regar, adubar, colher, separar os melhorzinhos, limpar, cortar. Teria que fazer o mesmo com a cebola, e não me pergunte como eu iria saltear e caramelizar a maldita, porque eu não faço ideia de como se faz isso. E ficaria sem cheddar, porque a produção desse ingrediente é ainda mais obscura para mim.

O mais mágico de tudo é que eu não precisei nem mesmo sair de casa para comprar um hambúrguer. Na verdade, não precisei nem mesmo de dinheiro físico, de notas e cédulas, para pagar pelo meu hambúrguer. Mal precisei interagir socialmente com alguém. Dei alguns cliques no meu computador, e, depois de menos de meia hora, o hambúrguer chegou à minha porta, prontinho, grande, bonito, cheiroso, embalado. Comi sem nem sujar a louça. Sem ter que inventar a embalagem que conservou o calor do pão, sem ter que criar a moto que serviu de meio de transporte para meu alimento, sem ter nem que saber pilotar a tal moto. Hoje, também não precisei me preocupar com os restos da embalagem, que o caminhão de lixo pegou aqui na minha porta e levou para a reciclagem.

E, sabe, com tudo isso, eu fico me perguntando como diabos existe tanta gente revoltada com o mundo moderno. Com a globalização. Com o “sistema”. Todo mundo tem aquele amigo que queria viver na Idade Média, sabe? Ou na época do Japão feudal. Ou ser pirata na Idade Moderna. Ou aquele tio que acha que a ditadura militar foi a melhor época da política brasileira. Ou aqueles conhecidos que vivem dizendo que queriam mesmo é ter nascido na década de 1970, 60, 80, whatever; só porque gostam das músicas e da cultura do período. Queriam mesmo?

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“Eu nasci na década errada”, diz aquela galera que acha que o mundo nunca esteve tão ruim quanto agora. Não me entenda mal: eu não estou dizendo que o mundo é perfeito. Não estou excluindo as falhas do “sistema”. Estou me perguntando como pode existir tanta gente que critica e esbraveja contra processos das quais elas mesmas tanto se beneficiam. Pode reparar: muitas vezes aquele seu amigo que critica o tempo todo as grandes corporações é o primeiro a torrar todo o salário na primeira promoção online de roupas que aparece – e esquece de agradecer às grandes corporações pela variedade de produtos e a facilidade de acesso a eles. Muitas vezes aquela sua amiga que discursa contra as mazelas da globalização usa celular norte-americano, carro alemão e estuda espanhol porque está louca para fazer um intercâmbio em Madrid. E eu duvido muito que esse povo que “queria viver na Idade Média” gostaria de passar a vida sem banho, sofrendo de doenças que hoje são história e tendo as regras da vida ditadas pela Igreja. Eu, hein.

Ele tem suas falhas – e é justo apontar cada uma delas. Mas, se você parar para pensar bem direitinho, o mundo moderno é lindo. Ele é injusto? Diga isso aos servos dos senhores feudais na Idade Média. Ele é violento? Diga isso aos gladiadores romanos e aos que morreram nas fogueiras da Inquisição – sempre com plateias mais empolgadas que as dos shows de rock de hoje em dia. Ele criou gerações sedentárias e com hábitos nada saudáveis? Diga isso aos egípcios do mundo antigo, membros da civilização mais avançada da época, e mortos de velhice aos 32 anos de idade.

Talvez o grande problema do mundo moderno tenha sido possibilitar o nascer e morrer de gerações que não precisam se esforçar por grande coisa – e, justamente por isso, se esquecem de pensar na boa vida que têm. Que me perdoem os pessimistas: minha fé no mundo moderno é inabalável. Aliás, sabe o tempo livre que você tem para reclamar no Facebook sobre como nasceu na década ou no século errado? Agradeça ao mundo moderno – se não fosse por ele, você poderia ter que usar esse tempo para criar, matar e limpar sua própria vaca.