O incrível caso do bêbado que voou

Posso garantir que não percebi nenhuma ironia, pista alguma de que ele poderia começar a rir da minha cara no segundo seguinte

risada
Foto: Pexels

No domingo, quando eu, Aurora e Flora, duas menininhas fofas que estão aprendendo a andar de skate e bicicleta, fomos tomar um caldo de cana para aliviar o calor tórrido de uma tarde de dezembro, o vendedor contava uma história. Pesquei sem querer.

“Ah, achei que era mentira! Então é verdade?”, disse o interlocutor, um cidadão de cara rosada e sorriso simpático, apesar dos dentes que lhe faltavam. O vendedor de caldo de cana confirmou. Era a mais pura verdade.

Um furacão tinha arrasado sua cidade natal, no interior do Paraná, destelhando casas e fazendo cair árvores. O fato acontecera na semana anterior. O destaque da história, e neste momento o vendedor de caldo de cana fez uma cara muito séria, era que um bêbado da cidade, sem a prudência dos sóbrios, caminhava no meio da rua e foi levado pelo vento.

“Ele foi mais ou menos daqui até aquele prédio”, disse o vendedor de caldo de cana. “Aquele prédio”, ele disse apontando para uma edificação distante uns 600 metros.

Neste momento fiz com o rosto aquelas caras de quem não tem muito o que dizer, olhos arregalados amistosamente e queixo empurrado pra frente, demonstrando que estava acreditando em tudo. Foi um daqueles casos em que a gente mente só com a expressão do rosto.

“E a velha morreu do coração”, disse o homem, sem explicar de onde tinha vindo a velha na história. Achei simpático perguntar. “A velha estava em casa e viu o bêbado voando e morreu do coração na hora”, ele disse, novamente sem nenhum traço de constrangimento.

Olhei bem nos olhos dele e ele nos meus. Posso garantir que não percebi nenhuma ironia, pista alguma de que ele poderia começar a rir da minha cara no segundo seguinte por ter acreditado nesta história surreal.

“É mesmo?”, perguntei, tomando um gole de caldo de cana. “Verdade”, me disse o vendedor. “Quanto saiu aqui?”, perguntei. “Seis pila paga”, me respondeu. Juntamos nossas três notas de dois reais, entregamos ao homem e nós encaminhamos pra casa. O tempo estava começando a fechar.

Leia também:

Com sorte, viveremos mais ou menos 30 mil dias. Como aproveitá-los melhor?

Leia mais colunas de Marcos Piangers