O índice Romário e a arte de ser a pior do melhor time

Romário na Copa do Mundo de 1994 Fotógrafo: bd zh

Eu amo esportes. Estou mais em casa agora no início da rotina de mãe, curtindo a minha cria. Enquanto estou em casa e ele está dormindo eu vario entre arrumar a casa, trabalhar a distância ou assistir televisão e redescobrir a programação. Acompanhei os Jogos Panamericanos e adorei – estava tudo tão bem organizado e bonito, e o Brasil ganhou um montão de medalhas. Além de descobrir modalidades que eu nunca tinha escutado falar, como a “Ginástica de trampolim”, eu vivi momentos nostálgicos da época de atleta de vôlei e handebol.

Na época de escola eu até que jogava direitinho, mas reconheço que não era aquele talento todo. Eu sobrava em coragem e em treino – queria sacar nos pontos mais difíceis e bater gol de 7 metros no Handebol, quando os jogos estavam acirrados. Chegava antes e ia embora depois dos treinos. Eu tinha esforço quando me faltava no talento.

O Romário – ex-jogador de futebol, que hoje é senador – é o criador de pérolas da autoestima elevada. No final de um dos jogos, ao ser entrevistado pelo sucesso no resultado – que veio pelos gols que ele fez – quando perguntado sobre como se sentia ao ter virado aquele jogo, ele eternizou o que eu chamei de “índice Romário”, dizendo a frase: “Quando eu nasci, Deus olhou para mim e disse: Esse é o cara”. Nesse dia eu dei risada e pensei sobre o quanto precisava elevar esse indicador de autoestima e acreditar mais em mim. Era preciso me colocar a disposição da vida com as minhas habilidades, mas também saber que o mais difícil não é o talento, mas me tornar uma pessoa que aceita que somos uma criação divina que ainda precisa desbravar horizontes. Se para Deus nós somos “o cara”, até onde iríamos entendendo isso?!

De toda maneira o Romário é aquele talento desprendido. Bateu pênalti na final da Copa de 94, sem nunca ter treinado um chute desse tipo – e acertou, claro! Disse que a responsabilidade de trazer a Copa era dele, e que na hora mais complicada ele não poderia estar de fora. De fato, a sorte divina acompanha o gênio, e ele sabe disso.

Tive alguns professores muito marcantes e os tenho em memória porque me colocaram para bater pênalti. Um desses mestres é professor de Matemática e, a outra, a professora de Biologia. Com eles eu podia apelar para o sorriso e para simpatia – eu podia ser gente boa – mas ali eu estava para estudar, e se eu ia mal – ia mal mesmo. Meus talentos de outros campos não tiravam notas altas ali, e isso me deu medo. Eu poderia ter passado a vida achando que simpatia era minha única virtude capaz de abrir portas – mas com o olhar deles percebi que eu poderia ser boa em matérias “impossíveis”, e me ensinaram sem permitir que eu me limitasse ao que eu já conhecia sobre mim. Descobri admiração pelas matérias, até algumas facilidades e mudei a forma de ver o impossível para sempre.

Como atleta de vôlei eu tive a oportunidade de jogar para um dos melhores times do Estado. No Clube 12 as meninas eram ninjas. Certamente eu não seria titular daquele time tão cedo, mas ao ser escalada para treinar com elas, mesmo sempre sendo a última a ser escolhida para o jogo, sabia que eu seria exigida nos treinos e em quadra como titular. Para o meu ego ser a última a ser convocada podia ser difícil, mas para a minha alma, jogar num time incrível era pura evolução. Entre o orgulho e o crescimento, o que eu deveria escolher, afinal?

O Fabiano, o Alexandre e o Zeca – treinador e preparadores físicos da época – pegavam igualmente pesado comigo. Eu sentia que podia muito mais quando cortavam forte ou colocavam a gente para correr na praia. Pensava que eles viam em mim capacidades que eu nem conhecia e que tinham as técnicas para me desenvolver. Foi quando eu me vi crescer, entrar em forma e jogar muito melhor em seis meses de treino forte do que em anos de treino médio. Até saque viagem eu conseguia fazer, e me jogava com garra para pegar bolas quase perdidas. Comecei a admirar as “derrotas” em jogos cada vez mais difíceis do que vitórias em jogos fáceis. E isso também mudou minha vida.

As nossas escolhas podem desde já manisfestar nosso engajamento com o nosso ilimitado. Tudo o que não sabemos nos reserva o infinito que reside em nós. O impossível existe e está no Deus que nasce conosco – e que insiste para que a gente vá além, deixando de lado o orgulho, colocando no titular o desejo de terminar este ano melhor do que começamos.

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