O Irlandês, de Martin Scorsese, fornece novas respostas a velhas questões

Foto: Divulgação

*Andrey Lehnemann, especial

Ao conversar com Richard Schickel, num livro de entrevistas sobre sua filmografia, Martin Scorsese racionava sobre uma cena entre Jack Nicholson e Leo DiCaprio. “Já fiz esta cena várias vezes. Olhando em retrospecto, encontro a mesma cena em outros filmes meus – Caminhos Perigosos, Touro Indomável e daí em diante em todos os outros filmes. Sempre tem a ver com pais e filhos, o que um pai deve a seu filho, e o que um filho deve ao pai em termos de lealdade. Tem a ver com confiança e traição. Quando se cresce num mundo como esse, o pior que você pode fazer é trair. Traição tem a ver com amor. Com amor entre duas pessoas e como o amor é traído. Porque existe um laço entre essas pessoas. Senão elas realmente não seriam afetadas uma pela outra com tanta força. Acho que tem de ser isso“, discorre. O historiador Richard Schickel complementa que todo artista repete temas. Há cenários diferentes, pessoas diferentes, mas no fim são variações do mesmo tema.

Quando nos deparamos com essas mesmas lembranças em O Irlandês, por outro lado, há alguma decadência na forma com que essa história passa a ser contada por Scorsese em seu novo filme. Do mundo subterrâneo e violento de Os Bons Companheiros, nós agora observamos um asilo pouco atraente e bastante claro. Não há glamour, no fim da vida. Aos 77 anos, o autor passa a querer compreender um pouco mais da proximidade da morte natural como penitência. Há uma pergunta que parece invadir O Irlandês sem que nunca seja realmente enunciada: “o que sobra para quem vive demais?“.

O cineasta aponta para as mortes de cada personagem que surge em cena com certo cinismo, mostrando que todas aquelas pessoas que vivem na “alta sociedade” da máfia estarão mortas com tiros ou facadas muito em breve. O assassinato é o destino natural para todos eles. Uma das sequências mais interessantes de O Irlandês cria uma bela analogia com flores representando o fim de uma vida, por exemplo. Mas é a lição de quem vive demais que fica. É o próprio Scorsese, assumo, raciocinando que todos chegam às vésperas da morte com suas péssimas decisões, não sabendo muito bem como chegaram até ali, só fizeram o papel certo no momento certo.

Nesta ótica, Robert DeNiro vive Frank Sheeran como um homem dividido entre sua lealdade para as duas pessoas mais próximas que teve durante sua vida – Jimmy Holfa (Al Pacino) e Russell Bufalino (Joe Pesci). É a mesma vivência que Scorsese debate com Schickel no livro Conversas Com Scorsese – se a única coisa que aquelas pessoas têm são esses laços, essa confiança; ao quebrá-los, o que sobra? O semblante contido de DeNiro ao saber que precisará dar um jeito em Jimmy evidencia a sua força como ator e o motivo de ser constantemente citado como um dos maiores atores de todos os tempos. Ao mesmo tempo, Al Pacino, um gigante em cena, constrói um homem brilhantemente situado numa tênue linha entre a malícia e a autoconfiança. Seu destino trágico é amenizado pela sensibilidade com que seu diretor encara as decisões que circundam sua vida, além da química entre os atores – que expõem os laços tão preciosos para Scorsese. Joe Pesci, por sua vez, é a síntese da decadência natural que O Irlandês mostra. A viagem que faz com Frank coletando quase burlescamente os pagamentos do bairro, além de sua vida na prisão, define o mundo que sobra para aqueles que fizeram certas escolhas. “Era a vida dele, ou a nossa“, Rus ajuíza. Mas que vida, realmente? Essa parece ser o cerne da questão de Scorsese.

No final, para Frank, mesmo que não se tenha nada, a honra do nome persiste. Ou ao menos o que isso quer dizer para o personagem. O protagonista jamais desiste da cultura que aprendeu na vida e a que lhe manteve vivo, mesmo quando confrontado com policiais. “Frank, ele está morto? / Quem matou?” – esse diálogo sintetiza profundamente o que se passa pelo personagem de DeNiro e a qual mundo ele ainda está agarrado.

O Irlandês caminha pelo mundo que destacou o nome de Scorsese desde Caminhos Perigosos – seu preciosismo técnico é visto desde as cores das gravatas de seus personagens que transitam entre vermelhos gritantes até cores pretas com toques vermelhos, sinalizando a hierarquia de patrões e empregados –, claro. Mas é sua maturidade como realizador que lhe faz percorrer as mesmas questões de sua filmografia com um pouco menos agressividade e mais respostas para velhas questões.

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