O movimento da vida e da moda

Projeto com moradores do Maciço do Morro da Cruz, em Florianópolis, faz a ponte entre crianças e adolescentes com o mundo fashion, sobretudo promovendo a melhora do aprendizado, desenvolvimento da autoconfiança e estabelecendo relacionamentos mais equilibrados

Foto: Dari Luz, especial

Promover algo de bom para alguém pode ser transformador, principalmente em se tratando de crianças e adolescentes. Hoje, dediquei a coluna para falar no projeto Vidas em Movimento + Conexões, realizado com moradores do Maciço do Morro da Cruz, em Florianópolis. O objetivo era atender 20 crianças, de 8 a 12 anos, e 30 adolescentes de até 16 anos, totalizando 50 participantes, com atividades relacionadas ao mundo da moda, em especial os desfiles, sendo a edição batizada de Passarela’s.

Foram oito encontros, uma vez por semana, no total de dois meses, finalizando com uma apresentação no Ceart, na Udesc, e contou com apoio de estilistas locais que confeccionaram os looks.

A movimentação contou ainda com profissionais e empresas especializadas em moda, beleza, teatro, psicologia, fotografia, marketing e eventos que ofereceram cursos, workshops e oficinas, tudo na Sede da Associação de Moradores do Morro do Céu (Amorceu), entidade que abraçou o projeto sem distinção.

Vidas em Movimento foi muito além da experiência fashion, oferecendo, sobretudo, uma lição para o dia a dia, promovendo a melhora do aprendizado, desenvolvimento da autoconfiança e estabelecendo relacionamentos mais equilibrados:

– É provado que crianças e adolescentes que desenvolvam estas habilidades interpessoais crescem com melhores perspectivas em aspectos profissionais e pessoal – destaca a coordenadora do projeto, Glauci Santos.

Os participantes descobriram que as diferenças, muitas vezes, são apenas superficiais e que, na verdade, devemos nos relacionar com a essência das pessoas. No aspecto econômico, o projeto Passarela’s estreitou as distâncias entre as comunidades, empresas e profissionais que ali estiveram expondo seus produtos e serviços. Para os futuros modelos, como Jéssica de Oliveira Custódio e Raquel Santana de Oliveira, que estão nesta edição da Versar, a visibilidade poderá dar oportunidade no mercado da moda e artístico, que sempre está em busca de novos talentos.

Jéssica usa colar Nakana, camiseta ER Freitas, saia Redaviqui Davilli, lenço de cabeça coach. Raquel usa trench coat Burberry, camisa Abercrombie, saia Redaviqui Davilli, camiseta Beirão e arranjo floral We Plant Atelier. Foto: Dari Luz, especial

Identidade de moda

Embalado nas curvas, nos becos e no colorido do morro, com peças que dialogam com o africano que existe em cada um, o estilista Redaviqui Davilli, nascido em Garopaba mais “manezinho” que conheço, criou uma coleção com sete saias e camisetas. As peças foram inspiradas na expressão “o ponto fora da curva”, buscando representar os conceitos atribuídos ao ser “menina/mulher negra” nos contextos periféricos atuais. O estilista resgatou a identidade afrobrasileira expressada por tecidos, recortes e cores vibrantes.

O trabalho do designer apresenta é uma crítica ao julgamento do estereótipo do ser da periferia, propondo a reflexão sobre o feminino, a periferia e a moda. Para desenvolver as peças para o projeto, o estilista utilizou tecidos com estampas africanas e bordados que evidenciaram a riqueza da conexão histórica do continente africano com o Brasil.

Com o trabalho voltado para a moda como uma ferramenta de transformação social, Redaviqui tem sua trajetória inspirada na cultura afro-brasileira e cultura italiana:

– Sou amante do made em Italy, essa coisa de artesão me encanta!

O estilista desde muito jovem era apaixonado por moda, se formou em Design de Moda e é aluno do programa de Mestrado profissional em Design de Vestuário e Moda da Udesc.

 

Marca com propósito

Inspiradas na história dos seus ancestrais, nas suas próprias realidades e na de outras mulheres, as irmãs Elisa Freitas e Rosangela Freitas resolveram empreender e criaram a ER FREITAS, uma marca social que já nasceu fortalecida pela cultura negra e pela sua importância na sociedade.

Por meio de projetos e produtos, a ER FREITAS é uma mobilizadora de ações que tem o objetivo de fortalecer a autoestima das mulheres negras, tirando-as da invisibilidade, contando as suas histórias, melhorando o que está no seu entorno e mostrando o seu papel social.

Para alavancar o seu objetivo e promover impacto positivo na vida dessas pessoas, a marca precisava criar algo que simbolizasse a sua causa e viabilizasse financeiramente as ações planejadas. Assim, nasceu a primeira coleção de camisetas que leva os nomes das irmãs empreendedoras nascidas em Florianópolis. As camisetas estampadas, sempre nas cores preta, branca e cinza, representam a cultura negra e são mais do que peças de vestuário, levam mais do que frases, são canal de comunicação que ecoam expressões, que emociona e dá orgulho, que gera simpatia e empatia de quem usa.

– Não é o simples apoio a uma causa, é a confirmação da necessidade da mulher negra se posicionar e de ocupar o seu importante lugar na sociedade – enfatiza a ex miss Elisa.

Jéssica usa brincos Nakana, macacão Cami To Me. Raquel usa camiseta Beirão, saia Redaviqui e jaqueta Moncler. Foto: Dari Luz, especial

 

Naturalmente

Agente de transformação socioambiental que desenvolve produtos, projetos e outras soluções de forma criativa, inovadora e eco eficiente. A marca do Campeche Raiz Natural, uma das colaboradoras do Vidas em Movimento + Conexões utiliza recursos naturais, com todo o respeito ao meio ambiente do início a fim dos seus processos. Focada na proteção e preservação do meio ambiente, propõe, sobretudo, a percepção da necessidade urgente de mudança de hábitos de vida e de consumo para uma forma sustentável de viver.

Quando num processo de produção existe a conexão com a essência de cada passo, uma rede de habilidades, de sentimentos, de histórias e isso resulta em produtos únicos, pessoas valorizadas, natureza respeitada e crescimento em comunidade. Pequenas transformações são realizadas e despertares possibilitam e incentivam a deixar para as próximas gerações um mundo justo, limpo e bonito. O vestido que usei nesta produção é no tecido tricoline orgânico, da Cooperativa Justa Trama, tingido naturalmente através da técnica de impressão botânica com cosmos, macela, eucalipto e acácia negra.

 

Movimento jovem

A Cami To Me, de Camyle Vieira, é uma marca jovem que tem como objetivo fazer as pessoas se expressarem através da moda, de forma divertida e autêntica. Para a coleção Movimente-se, apresentada recentemente no Ceart, foi usado um clássico do inverno, o xadrez, de forma diferenciada e trazendo cor para a estação, sempre brincando com o contraste do azul com rosa, mostrando que sempre é possível transformar o tradicional em algo novo. Nas modelagens, aviamentos utilitários e bolsos oversized combinados com detalhes fashion trazem a pegada urbana da marca.

 

Raquel usa acessório de cabeça Nakana, camiseta e saia Beirão e colete Polo/Ralph Lauren. Jéssica usa vestido e camiseta Beirão. Foto: Dari Luz, especial

 

Ciclos, recicle

A coleção “Rhythm and blues”, do figurinista e mestre José Alfredo Beirão Filho, foi inspirada por uma das últimas tendências internacionais, upcycling, ou seja, técnica que consiste em, com criatividade, dar um novo e melhor propósito para um material que seria descartado sem degradar a qualidade e composição deste material. Upcycling nada mais é do que uma forma de customizar roupas, mas que leva em consideração muito mais do que apenas transformar uma camiseta velha ou roupas paradas no armário há algum tempo.

A partir de vestes compradas em brechós de caridade, bermudas, calças, casacos e vestidos se transformaram numa coleção de 10 looks inspiradas nos primórdios das danças de rua. O termo “Rhythm and blues” foi usado originalmente para descrever gravações comercializadas, predominantemente, por artistas afro-americanos, num momento em que um estilo baseado no jazz com uma batida pesada e insistente estava se tornando mais popular, sendo hoje utilizado principalmente para se referir a um subgênero com influencias de soul, funk e hip- hop na música pop.

Para o desenvolvimento da coleção, tudo começou pelo universo dos grafites, as sobreposições oversized, como maxi jaquetas, e elementos para detalhes. Foram resgatadas nesta busca aos brechós, vestimentas em jeans, algodão preto e um vestido estampado para ser o fio condutor de toda a coleção. Para finalização, a artista plástica catarinense Juliana Hoffmann fez a intervenção plástica em todas as peças, dotando-as de um colorido único e peculiar. Algumas dessas referências deram formas a peças da coleção, que para sair do papel passaram por um processo de pesquisa e identificação envolvendo muito cuidado, para serem transformadas numa peça desejo.

Jéssica usa vestido Raiz Natural e colar Nakana. Raquel usa casaco e saia Beirão, brincos Nakana. Foto: Dari Luz, especial

Inspiração na Benetton

E viva Oliviero Toscani, diretor de arte da italiana Benetton, que abriu o caminho para as campanhas de moda inclusivas que vemos hoje. A coluna deste fim de semana foi inspirada na marca que teve belas sacadas do fotógrafo, hoje com 76 anos, que ficou na direção criativa por 18 anos e que três décadas mais tarde retorna ao comando.

A United Colors of Benetton, em meados da década de 1990, era sem dúvida um dos nomes mais reconhecidas no mundo. Famosos, os visuais impressionantes de seus anúncios e campanhas, a postura política e a lista diversificada de modelos a tornou influente na moda e na cultura pop. Toscani ingressou em 1982 e recebeu plenos poderes da empresa; o uso de modelos de todas as raças e tons de pele em suas icônicas imagens de grupo tornou-se a marca registrada.

A diversidade virou sinônimo da Benetton. Depois dela, outras labels pegaram carona no sucesso deste conceito, como Balmain, em 2014, uma campanha da Gap que contou com um grupo misto de alto nível, incluindo Yara Shahidi, Priyanka Chopra e Adwoa Aboah, e a campanha que mostra a coleção de Tommy Hilfiger, com desenhos para ajudar as pessoas com deficiência a se vestirem com facilidade, que era igualmente inclusiva.

A Benetton sempre priorizou a inclusão de todos, independentemente de sexo, raça ou sexualidade. Toscani disse que a maior parte da reação que ele enfrentou foi interna e não do público em geral.

Participaram deste editorial
Produção executiva, produção, styling, pesquisa de moda: Lise Crippa
Modelos: Jéssica de Oliveira Custódio e Raquel Santana de Oliveira
Fotos e tratamento de fotos: Dari Luz
Produção de cena: Larissa Maldaner
Beleza: Larissa Maldaner