O poder do “tó”

Foto: Divulgação

Uma amiga não sabia o que fazer. Filho pequeno, e o pai não ajuda em nada: não troca fralda, não coloca o bebê pra dormir, não dá mamadeira, não passeia de carrinho. Até que descobriu o poder do “tó”.

Acordou num sábado com a criança chorando, foi até o berço, pegou-a no colo e levou-a até o marido, que ainda roncava. “Tó”, ela disse. “Como assim?!”, perguntou o marido sonolento. “Toma conta”. Saiu pra dar uma caminhada. Coração apertado, ainda fechando a porta pensou em voltar. Desceu a escada nervosa. Caminhou até a padaria, pra tomar um café. Fazia meses que não passava o café da manhã sozinha, sem choro de criança, sem ter que trocar fraldas.

Ficou olhando o movimento, ouvindo passarinhos. Imaginou o marido se virando em casa. Ele sabia onde estavam as fraldas? Conseguiria perceber o cheiro de cocô? Os sinais de que a criança quer mamadeira? Saberia ninar o próprio filho? Imaginou-o apavorado, indignado, pedindo divórcio quando ela voltasse pra casa. “Bem, está feito”, pensou. Foi caminhar no parque. Comprou uma água de côco. Viu outras mães com seus bebês, passeando com carrinhos. Fez a coisa certa? Deveria ter trazido o filho?

Chamou um Uber. Colocou o endereço de casa. Estavam na esquina, mudou. “Posso trocar o destino?”. Foi pro shopping. Estava passando um filme com o Ryan Gosling. Comprou pipoca. Nenhuma criança no cinema. Duas horas sem fraldas, sem dar mamadeira, sem refluxo, sem colocar pra arrotar. Ficou feliz. “Quem diria?”, pensou. “Uma palavra de duas palavras tão poderosa. Tó”. O poder do “tó”. O “tó” tem poder.

Ficou até o final dos créditos do filme. Comeu tranquilamente na praça de alimentação. Bebeu um chope. Olhou sapatos. Comeu um doce. Era começo de noite quando chamou o Uber. Chegou em casa, o marido brincava com o bebê no tapete da sala. Tinha lenço umedecido sujo de cocô em cima da cômoda. Louça suja. Foi tomar banho. Demorou. Quando saiu o bebê dormia no berço. Os lenços umedecidos sujos não estavam mais em cima da cômoda. Sorriu. Foi até a cozinha, pegou a esponja da pia, foi até o marido e disse: “tó”.

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