Tribalistas: “O que a gente cria quando estamos juntos é um quarto artista”

Carlinhos Brown e Marisa Monte falam sobre turnê inédita e primeiro show em Santa Catarina

Tribalistas
Foto: Marco Froner/Divulgação

“O tribalismo é um anti-movimento, que vai se desintegrar no próximo momento. O tribalismo pode ser e deve ser o que você quiser. Não tem que fazer nada, basta ser o que se é”. A canção Tribalismo define a essência dos Tribalistas, grupo que surgiu da parceria entre Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte. Há 25 anos, eles começaram a compor juntos, participar dos shows uns dos outros, e a dar vida ao grupo que, mais que banda, é um movimento. Uma união de tribos, como definem.

Há 16 anos, os Tribalistas lançaram o primeiro disco com canções que estouraram nas rádios. Mas foi só em 2018 que o trio decidiu fazer a primeira turnê, que já passou por cidades do Brasil e da Europa, e agora chega a Santa Catarina. Na próxima sexta-feira, dia 14, eles se apresentam na Arena Petry, em São José.

Carlinhos Brown e Marisa Monte conversaram a com a reportagem sobre a turnê inédita, a relação com SC e o conceito tribalista. Em uma pausa após o retorno da turnê na Europa, os dois nos atenderam por telefone, em uma conferência — Marisa estava no Rio de Janeiro e Brown em Salvador. Mais que uma entrevista, foi uma oportunidade para que os dois trocassem palavras de afeto e de saudade e mostrassem expectativa para o reencontro em terras catarinenses.

Tribalistas
Foto: Leo Aversa/Divulgação

Como está sendo essa turnê inédita de vocês, que chega a Santa Catarina?

Marisa: Está sendo um sonho pra gente. É um desejo antigo nosso, uma expectativa enorme, e que agora, depois de 25 anos de parceria, a gente conseguiu realizar. Pra gente também é uma celebração da nossa história coletiva, criativa. É muito emocionante poder viver esse encontro com o público, poder cantar as canções junto com todo mundo, esse coral que tem sido nossos shows, tanto no Brasil quanto fora. A gente já está morrendo de ansiedade para o próximo encontro.

Brown: É viciante, menina. A gente já está morrendo de saudade. É viciante Arnaldo, Marisa e eu junto com aquela equipe.

Nos shows pelo Brasil vocês têm se apresentado com figurinos e cenário superproduzidos. O que podemos esperar aqui?

Marisa: Vai ser um show com tudo. Porque um show não é só áudio, ele é audiovisual, tem toda a parte de direção de arte, tudo para potencializar nossa comunicação com o público. A gente foi pra Europa com o mesmo cenário, e Santa Catarina vai ganhar um show completo, com tudo, com toda essa extensão estética que vai além da parte musical.

Em 2016 foi o último show de Marisa Monte em Florianópolis. No ano seguinte, a cidade recebeu a exposição de Arnaldo Antunes, “Palavra em movimento”, e ele também tocou aqui em 2017. Carlinhos Brown, a gente tem visto pela TV, no The Voice. Vocês têm uma relação com Santa Catarina? Costumam vir ao estado mesmo sem ser a trabalho?

Marisa: Eu adoraria, porque as praias são lindas, balneários maravilhosos. Eu tenho bons amigos que moram aí, mas vou pouco. A gente vive muito na estrada, e geralmente as férias são em casa, que quando termina tanta viagem a gente quer ficar quietinho. Mas eu estou planejando. Uma hora dessas eu vou pra aí pra curtir um pouquinho do litoral. As cidades têm um estilo de vida que combina muito com a gente. Floripa tem os surfistas, a natureza, as praias. É muito lindo, muito inspirador. Espero poder encontrar nossa tribo com a tribo daí.

Brown: Olha como Tribalistas é legal, está me levando para todo Brasil, esse país que eu amo. Esse lugar é encantador, cheio de história. Eu não sei surfar não, mas se divertir é conosco. Acho que vai ser um show incrível, as pessoas vão nos dar a oportunidade de estar entre amigos, fazendo música, com uma grande vibração positiva.

Há 16 anos vocês se uniam e lançavam o primeiro álbum, e hoje estão lotando shows no Brasil todo. O que mudou no trabalho dos Tribalistas neste período?

Marisa: Nosso processo criativo sempre foi muito fértil, mas teve um ganho enorme. Uma das grandes mudanças é a possibilidade de a gente pela primeira vez se encontrar ao vivo, no palco, em um show criado por nós três, com um repertório todo feito por nós, porque a gente gravou no estúdio dos Tribalistas um total de 23 músicas, mas quando fomos levantar o repertório, encontramos mais de 50 canções já gravadas dos três. Sem falar coisas do Carlinhos que eu gravei, do Arnaldo que eu gravei. É uma obra muito grande e o show esclarece para o público nossa parceria criativa para além dos nossos próprios álbuns como Tribalistas. Porque a gente já compunha juntos há 10 anos quando decidimos gravar o primeiro álbum, continuamos compondo intensamente entre o primeiro e o segundo, e continuamos compondo depois do segundo, durante a turnê. A gente já está fazendo músicas novas. Essa fagulha criativa segue de formas diversas, também em filmagens, DVDs uns dos outros, e agora, pela primeira vez, a gente está vivendo esse sonho de fazer shows juntos, com um repertório comum, músicas que estão na boca de todo mundo. É bonito poder viver essa comunhão com multidões que atestam nossa história. A grande novidade é nosso encontro ao vivo.

Vocês conseguem pontuar o que tem de cada um no trabalho do grupo? Existe algo que tem mais o perfil da Marisa, do Arnaldo ou do Carlinhos Brown?

Marisa: A gente é muito diferente. Um é de São Paulo, um é da Bahia, eu sou do Rio. Mas exatamente essa diferença de sotaques, a diversidade, é que faz uma química interessante. A gente também é muito complementar. Mas nós três somos compositores de letra e música. Os três fazem tudo. A gente também não sabe muito bem o que cada um trouxe. É claro que ter o Carlinhos tocando um show inteiro, um músico virtuoso, é o máximo pra gente. Ter o Arnaldo com aquela timbragem dele e toda a propriedade com que ele lida com as palavras, é o máximo. Quando eu estou no palco e vejo os dois do meu lado, eu me sinto muito segura de tudo, porque um vai se orientando através das impressões e sentimentos dos outros. Tem uma química, uma soma de sotaques, de timbres, de sentimentos, de vivências, que resulta numa coisa que vai além de nós três e que a gente diz que é um quarto artista. Porque é um show meio que três em um, um show que tem três artistas individuais vivendo esse momento de trabalho coletivo, mas na verdade o que a gente cria quando estamos juntos é um quarto artista. É uma outra coisa que não é nem eu, nem Carlinhos, nem Arnaldo. É uma outra identidade artística mesmo.

Brown: Fazer essa turnê nos ressignificou além dos 15 anos, porque a gente descobriu que eramos Tribalistas antes. Marisa fala da gente enquanto instrumentistas. Tribalistas nos dá essa segurança. Marisa toca ukulelê, toca violão, canta, usa dois microfones, o que é a coisa mais linda. Aí Arnaldo faz um poema, junta as vozes. Nós cantamos um show juntos o tempo inteiro. Esse artista que é o quarto Tribalista, eu brinco dizendo que ele tem mais de 150 anos.

Em entrevistas vocês afirmam que “Só a nossa existência já é uma exaltação à diversidade”. Mais que uma união musical, o surgimento dos Tribalistas tem também um viés ideológico?

Brown: Eu não considero que seja assim tão ideológico. Mas tem o nosso respeito para com o outro, o nosso desejo de ter sempre esse abraço coletivo, que é lá onde as coisas ganham potência, no meio de outros. Viemos de uma tradição explícita de um país que tem o Clube da Esquina, Os Mutantes, o Tropicalismo, a Jovem Guarda, as escolas de samba. O pais carnavalizado é um país de salvo conduto, já tem uma performance diferenciada de qualquer parte do mundo. Esse é um país que sai às ruas, não só pra protestar, mas também pra se divertir. A nossa maior ideologia é que a vida seja um Carnaval. Não uma fantasia, mas essa realidade de encontro com o outro, de expressão. Tribalistas traz essa catarse coletiva. Isso de que o coletivo é maior que o individual. A gente vai fazer o show e se delicia, é lindo ver.

Marisa: Eu acho que sim. De alguma maneira, involuntariamente, a gente acaba sendo um encontro de esforços coletivos muito bem sucedida. Isso diz muito dos nossos ideais, do que a gente pensa, do que acredita. É um exemplo de equilíbrio, de respeito, de admiração mutua. É reflexo de diversidade, de pessoas diferentes, de homens e mulher juntos. Não que isso seja nosso conceito inicial, mas a gente consegue identificar no nosso encontro um exemplo do que a gente acha positivo. E o que a gente mais gosta mesmo é poder cantar junto, em harmonia. Quando a gente consegue ampliar isso para 20, 30 mil pessoas, é uma benção.

Vocês fizeram a primeira turnê pelo Brasil em um ano eleitoral, que foi tão polarizado, com tanto discurso de ódio, fake news. Como foi percorrer o país neste período?

Marisa: Foi um momento maravilhoso em que a gente pode reafirmar todas essas coisas em que a gente acredita, o respeito às diferenças, às crenças, diversidade, união, harmonia. Foi muito bom poder viajar com esse show afetuoso, que fala do Brasil que a gente ama, que tem todas essas qualidade que eu estou falando. A diversidade, o respeito, a arte, a criatividade. A gente pode colocar na prática. Trouxemos um afeto que precisava ser vivido na prática e conseguiu botar todo mundo pra cantar afinadamente nesse ano de tanta dissonância. Uma coisa que eu aprendi com a música é que cada um canta de um jeito, mas quando é uma multidão, dá sempre certo. A multidão canta sempre afinada. Nesse ano poder fazer isso através da música, da criatividade, da arte, botar todo mundo pra cantar de um jeito amaroso, em que as pessoas se abraçam, choram, celebram a vida, a união, é tão bonito. Eu achei que foi o melhor ano do mundo pra gente viver isso.

Serviço

Tribalistas em Santa Catarina

Dia 14/12, às 22h

Quanto: A partir de R$ 120. Desconto de 20% para sócio do Clube NSC na Pista Lateral e 10% na Cadeira Prata na compra do ingresso no site Eventim.

Local: Arena Petry (Rodovia SC-281, 4.000, Sertão do Maruim, São José)

Leia também:

Gal Costa revisita trajetória e fala sobre parceria com Marília Mendonça: “eu quis fazer uma sofrência”