Sempre que sinto medo de encarar a realidade, me pergunto: “O que estou escondendo?”

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Quando eu estava no colégio cometi um pecado duplo: menti para o professor de religião. Ele tinha pedido para fazer um trabalho – na época eles eram feitos em papel almaço, escrito tudo à mão – e eu não fiz. Quando ele foi devolver os trabalhos, me cobrou que eu não tinha feito e eu, “bati o pé” sobre a minha mentira culpando-o por ter perdido meu trabalho: “Imagina professor, o trabalho deve ter sido extraviado”.

Sentia vergonha quando lembrava daquele momento, mas fiquei com muito medo de assumir meu erro – eu realmente temia o que poderia me acontecer. Até que em um dia me demandaram um trabalho de alta responsabilidade e fazia parte do meu processo de formação – já com 20 e poucos anos. Precisei analisar a razão que me fazia sentir insegura diante daquela entrega.

Sempre que sinto medo de encarar a realidade, me pergunto: “O que estou escondendo? O que preciso encarar? Tem coisa aqui dentro, Vanessa – confessa!?.” Nunca a palavra confissão tinha feito tanto sentido.

Parte dos impulsos que são dados para frente, precisam de um passo no passado. É como se a chave para a porta do avanço estivesse em nossa linha biográfica, com as marcas das verdades e das mentiras que contamos um dia. Como eu poderia confiar em minha capacidade, se eu era alguém com coragem de mentir para não arcar com as possíveis consequências?

Com o passar do tempo, percebi que olhar para os segredos – e assumir nosso verdadeiro tamanho – é a única maneira de transformar nossa natureza. Nossa força está empenhada no elo mais fraco da corrente – e o quanto antes cada um assumir para si suas escolhas, melhor para revisão e expansão da nossa consciência. Portanto, maior a nossa força e confiança em nossa capacidade de ser alguém que vale a pena.

E lá estava eu, aos 20 anos, conversando com a Vanessa de 13. Estava realinhando, reajustando as velas, repensando nossos valores, procurando dizer a esta Vanessa que reside em mim, e que um dia escondeu a verdade, o quanto há de dignidade no ser que, em confessando seu erro, manifesta a humildade do desejo de mudança.

 

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