“O sexo ajuda na autoestima, e a autoestima ajuda no tratamento”: Flávia Flores fala sobre a sexualidade da mulher com câncer

Ex-modelo catarinense foi diagnosticada com câncer de mama aos 35 anos

Flávia Flores
Foto: Divulgação

A ex-modelo catarinense Flávia Flores, hoje com 41 anos, foi diagnosticada com câncer aos 35. Não foi só com a doença que precisou lidar na época: encarou, também, a solidão. O namorado da paciente terminou o relacionamento assim que soube que seria preciso fazer a retirada das mamas. A situação poderia ter abalado a autoestima de Flávia, mas a motivou a lutar contra a doença e se unir a outras mulheres. Foi a partir disso que surgiu o Instituto Quimioterapia e Beleza, que trabalha o amor próprio da mulher com câncer.

— Minha autoestima estava elevada, eu estava feliz, tranquila. Perdi emprego, perdi namorado, perdi tudo por causa do câncer. Mas minha família estava do meu lado e não me faltou nada — revela a ex-modelo.

A história de Flávia não é rara. Ela estima que, entre as pacientes atendidas pelo instituto, 80% foram abandonadas pelos parceiros durante o tratamento. Com a mastectomia, muitas mulheres se sentem feitas, incompletas, incapazes de manter relações sexuais, com a autoimagem fragilizada.

— Muitos homens se separam, abandonam suas esposas, suas namoradas, durante o tratamento. Muitas não têm parceiros. Tem outros que fingem que a mulher não existe — lamenta Flávia.

Segundo uma pesquisa realizada na Austrália e publicada no Journal of Sexual Medicine, 70% das pacientes têm problemas na vida sexual nesse período — número bastante alto levando em consideração a faixa etária média de 54 anos das cerca de mil mulheres ouvidas pelo médico e pesquisador da Monash University, Robin Bell. É esta realidade que ela tenta ajudar a mudar. Pelo instituto, a catarinense entrega lenços, dá palestras, visita mulheres com câncer. E as incentiva a ter uma vida sexual ativa, namorar, curtir, não se entregar.

— Elas não perguntam para o médico se podem fazer sexo porque tem medo do que vão pensar. Então elas vem perguntar pra mim. Podem e devem! Claro que existem uns probleminhas de ressacamento, tem que ficar atenta. Mas o sexo deixa a mulher se sentindo desejada, amada. Ela pode se fantasiar, usar perucas, surpreender. Não é cientificamente provado que o sexo ajuda no tratamento, mas ajuda na autoestima, e a autoestima ajuda no tratamento, até a imunidade aumenta. Se a gente ficar deprimida, vai morrer. Se estiver feliz, forte, firme, tudo melhora.

Flávia terminou o tratamento há um ano, tem um filho de 25, está casada e mora nos Estados Unidos. De lá, mantém o instituto, com sede em São Paulo, e vem com frequência ao Brasil para trabalhar.

Flavia flores
Foto: Divulgação

Câncer sutra: sexo para prevenir

A Associação Americana de Luta Contra o Câncer criou o www.cancersutra.com. O endereço funciona como um guia de detecção dos câncer de mama, próstata e pele a partir da prática de diferentes posições sexuais que privilegiem o contato. O objetivo é despertar a atenção do parceiro para os sinais precoces da doença. O site explica com ilustrações como cada posição pode detectar os primeiros sintomas de possíveis tumores (caroços, manchas, eczemas e pintas, por exemplo). Há também o aconselhamento de procurar um médico para fazer o diagnóstico correto. Além de posições para heterossexuais, o guia também engloba opções para casais gays.

Como melhorar a relação sexual durante o tratamento

Ajuda psicológica: Procure um psicólogo para acelerar o processo de adaptação em relação ao novo corpo. A presença do companheiro ou companheira pode ser importante nessa etapa.

Atividades físicas: Movimentar o corpo pode ajudar a melhorar o desempenho sexual.

Lubrificante: Use lubrificantes apenas à base de água durante a quimioterapia e radioterapia. Depois, durante o tratamento hormonal, peça para o seu médico receitar algum medicamento que contenha outras substâncias que possam potencializar os efeitos. Utilize o aplicador nos dois casos, porque a lubrificação deve chegar até o canal vaginal para que você não sinta dor, e não apenas na vagina. Em pacientes de câncer de colo de útero, isso é ainda mais importante, porque pode acontecer a estenose (estreitamento do canal vaginal).

Imaginação: É comum perder a libido (vontade de fazer sexo) durante o tratamento do câncer, por isso invista no poder da sua mente. Por que não apostar em uma lingerie especial para se sentir mais atraente?

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