O tabu sobre orgasmo feminino

orgasmo
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orgasmo feminino ainda é um tabu. Para muitas mulheres falar sobre o assunto ainda é motivo de vergonha. Os fatores que contribuem para tanto constrangimento é uma soma de falta de informação, falta de autoconhecimento, e padrões que foram “estabelecidos” pela sociedade. O assunto deveria ser tratado com naturalidade, afinal somos seres com capacidade biológica de sentir prazer. Faz parte de nós.

Em fevereiro de 2017 o Projeto de Sexualidade da Universidade de São Paulo (Prosex), do curso de Medicina, concluiu que metade das brasileiras não tem orgasmo nas relações sexuais. O estudo foi feito com três mil participantes entre 18 e 70 anos de ambas as orientações sexuais.

Para B. da 5º fase de psicologia da Unisul o estudo e os fatos estão muito ligados ao que as mulheres foram ensinadas desde pequenas.

– A exploração do corpo feminino é geralmente vista como errada. Enquanto muitos pais incentivam os filhos homens a masturbação, quando se deparam na mesma situação com filhas o assunto não é abordado da mesma maneira. Fomos criadas assim, e sem nos conhecermos somos incapazes de orientar nosso par para uma relação de prazer mútuo.

Mas como fazer com que o assunto seja abordado? Começando a falar sobre. E foi de uma campanha comercial que surgiu o dia do orgasmo. A data escolhida foi 31 de julho, criada na Inglaterra em 1999 e se espalhando pelo mundo, muito associado à venda de produtos eróticos. Além da venda de produtos a comemoração tem o objetivo de desmistificar o prazer sexual. Como fazer para desvendar esses mistérios e mudar a mentalidade das mulheres sobre o assunto?

Sofia, estudante de medicina da 4º fase da Unisul, campus Pedra Branca, comenta que o orgasmo feminino está muito associado ao psicológico da mulher.

– Para mulher o sexo já começa antes mesmo do ato. Ele está associado a como ela se sente naquele momento. Algumas se sentem obrigadas a transar, o que com certeza é um grande crime contra elas mesmas. Precisamos aprender que o sexo “não segura ninguém”. E quando nos livrarmos do peso de termos que fazer algo conseguiremos atingir o prazer, não só no sexo como na vida de maneira geral.

A família da futura médica é do interior do estado e para eles o assunto não é abordado, pois precisamos honrar o sobrenome da família e quem os escuta. Uma mulher que fala abertamente sobre esses assuntos e que se importa com o seu próprio prazer seria alguém que não se importa com o seu marido.

Apesar de parecer absurda a visão da família de Sofia, ela continua no imaginário de milhões de brasileiras. Não se fala sobre o assunto. E não falar é um facilitador para não se conhecer e a falta de autoconhecimento resulta em estudos como o citado anteriormente, mulheres que não sentem prazer.

A indústria pornográfica é outro grande norteador para o tabu que envolve a temática. Nos filmes as mulheres conseguem fazer posições mirabolantes, ir até o inimaginável. As ações acabam alimentando no imaginário que todas elas conseguem fazer as mesmas coisas. A mulher se vê muitas vezes coibida a fazer aquilo e que se não o fizer não estará satisfazendo o outro.

A jornalista Dora Moutot em perfil no Instagram dedicado exclusivamente para a temática. Ela esclarece mitos, posta tirinhas engraçadas e recebe diversos depoimentos. Um post com um texto bastante explicativo indica porque as imagens passadas em filmes pornôs podem ser tão tóxicas para relações sexuais. Em filmes os enquadramentos, caras, gritos e gestos estimulam o outro a acreditar que este é o padrão de orgasmo.

A pergunta “T’as joui” que no português significa “você já gozou?” também é abordada pela jornalista e segundo ela são essas as condições que fazem com que muitas mulheres finjam o orgasmo e forcem caras e bocas. E complementa, quando existe atenção ao corpo e cumplicidade não é preciso perguntar. Para essa pergunta ela expõe a resposta de várias mulheres “estou com cara?”. Essa resposta exemplifica a simulação de orgasmo que muitas vezes enche o ego do próximo e nos coloca em um espaço em que ambos saem perdendo. Perdemos não só o prazer, mas a troca de sensações e experiências que o sexo pode causar.

A discussão aberta por Dora Moutot e outras grandes pensadores e formadoras de opinião não deve ficar apenas no universo virtual. É preciso conversar, e ainda temos muito que conversar. O primeiro passo é expor nossos medos, colocar o dedo na ferida e soltar o verbo. O prazer é um direito de todos.

*Especial por Ana Schoeller, estudante de Jornalismo

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