O trabalho faz parte da sua vida – mas não precisa ser a sua vida

O negócio é tentar se importar menos com o que os outros estão fazendo — e definir quais são as suas prioridades

frustração no trabalho
Foto: Pexels

Há alguns dias, escrevi um texto sobre tristeza e felicidade — e sobre como, hoje em dia, não estar alegre o tempo todo parece um tipo de derrota. Eu escrevi porque andava me sentindo assim, meio desanimada, e me surpreendi com a quantidade de gente que se identificou com o texto.

Eu acho que essa frustração vem muito mais de fora do que de dentro: é uma cobrança geral para que sejamos felizes, realizemos nossos sonhos, larguemos tudo para correr atrás daquele desejo que parece (e às vezes, convenhamos, é mesmo) impossível. Com essa cobrança, vem a comparação com os outros, a sensação de que estamos fazendo menos que eles – e menos do que deveríamos, afinal, pelo que pregam por aí, fazer é mais que possível: é quase fácil, né? Se você não está aproveitando cada dia como se não houvesse amanhã e acordando todas as manhãs com um sorriso no rosto, you’re doing it wrong.

Acho que a esfera de nossas vidas em que esse discurso aparece com mais força e frequência é na parte profissional. Eu não sei onde começou essa pregação, só sei que não era assim na época dos meus pais: alguém que tivesse um emprego estável, com um salário que permitisse pagar as contas da casa, a prestação do carro e a escola dos filhos podia se considerar mais que feliz. O emprego era isso: o ganha-pão. O trabalho dava recursos e autonomia para que você fosse feliz e realizado ao conseguir adquirir seus bens e pagar a viagem de férias – mas não se esperava que ninguém passasse o final de semana pensando naquele projeto oh-tão-empolgante que ia entregar na segunda-feira.

Essa nova definição de trabalho é fruto da Geração Y, onde, para o bem ou para o mal, eu me encaixo: o pessoal da Geração Y prefere uma viagem ao carro do ano. Prefere uma pós na área dos sonhos à entrada do apartamento próprio. Prefere a aventura de trocar de emprego três vezes por ano à estabilidade de passar a vida toda na mesma empresa. Prefere o emprego que empolgue, que faça os olhos brilharem, que permita que se use a roupa que bem entender e se acesse o Facebook durante o expediente, que não ligue muito para o horário em que se entre ou saia — mesmo que esse emprego eventualmente pague menos; mesmo que, justamente pela flexibilidade de horários, você acabe fazendo muitas horas extras sem perceber; mesmo que aquele projeto seja oh-tão-empolgante que você vai acabar trabalhando nele no domingo, afinal, você ama o seu trabalho, né?

Antes que alguém diga que eu sou louca, acho bom explicar: eu acho maravilhoso pensar na perspectiva de fazer o que se gosta — e obviamente não acho que haja algo errado em ir para o trabalho com empolgação. O problema está, de novo, na imposição desse estilo de vida: se você for contra a corrente, vai ser chamado de louco, de infeliz, de loser, de conformado.

Ansiar pela sexta-feira não é mais coisa que qualquer ser humano normal faz, é coisa que atinge somente os perdedores, os que não querem crescer. Não estar super motivado o tempo todo é justa causa para demissão. Passar mais de dois ou três anos na mesma empresa é coisa de quem está estagnado, conformado, e provavelmente não sabe encarar desafios. Querer fazer oito horas de trabalho, certinho, sem mais nem menos, é coisa de gente antiquada ou preguiçosa.

É só pegar um exemplo: gente que faz concurso. Mesmo que muita gente ainda faça, mesmo que muita gente almeje uma carreira pública, quem não embarca nessa vida adora julgar quem escolheu esse caminho. “Meu deus, eu ia morrer fazendo um trabalho tedioso desses.” “Meu deus, como você pode se sujeitar a fazer algo de que não gosta, só porque o salário é bom?” “Meu deeeus, tem que ser muito conformado, mesmo. Eu ia ser infeliz demais vivendo desse jeito. Trabalho não pode ser só dinheiro.”

Mas quer saber uma novidade? Pode, sim. Algumas pessoas têm prioridades diferentes na vida: e a sua pode ser ganhar bem o suficiente para ter uma vida confortável e boa demais fora do trabalho, mesmo que o serviço em si seja meio chato. É claro que não tem nada de errado em se especializar naquilo que se é bom, em buscar um trabalho que tenha a ver com o que você gosta de fazer — quanto menos difícil e tedioso for seu serviço, melhor, certo?

Mas você não precisa se sentir um loser, um conformado, uma pessoa menos esforçada ou menos capaz, se decidir que quer mesmo é trabalhar com papelada a vida toda, “só” porque o salário bate os R$ 15 mil por mês. Ou se achar que está bem na empresa em que entrou há cinco anos, sete ou dez anos, e que quer continuar por ali mesmo. Ou se decidir que um emprego que exige que você esteja a postos no final de semana não é para você. Ou se não conseguir acordar motivado todo santo dia: trabalho, no final das contas, é trabalho — se não tivesse perrengue, se não desanimasse de vez em quando, se não fosse menos legal do que viajar, ir à praia ou dormir, ninguém seria pago para fazê-lo.

A boa notícia é que seu trabalho não é a sua vida — ou pelo menos não deveria ser: o trabalho é uma parte dela, talvez até mesmo um suporte para fazer todo o resto dela acontecer. O negócio é tentar se importar menos com o que os outros estão fazendo — e definir quais são as suas prioridades. Talvez você vá ser menos Geração Y. Mas certamente não vai ser menos feliz.

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