Olivier Anquier: o chef empreendedor

Há 40 anos, o francês resolveu construir sua vida no Brasil. Na TV, fez carreira como apresentador e, na cozinha, celebra o sucesso de seus empreendimentos

Foto: Jaime Leme/Divulgação

O francês Olivier Anquier está completando 40 anos no Brasil. O chef de cozinha e apresentador adotou o país e o país o adotou. Foi em terras brasileiras que construiu sua história e formou família.

Em 1979, desembarcou no Brasil pela primeira vez. A profissão de modelo foi a que o manteve e que proporcionou a oportunidade de criar laços e amizades que foram decisivas para que ele se tornasse brasileiro, como se define hoje.

Nos anos 1980, Olivier era considerado um dos 10 principais modelos masculinos internacional, mas sabia que ali não estava a sua realização profissional. Com a morte do pai, em 1989, ele voltou para o Brasil com o objetivo de encontrar no litoral brasileiro um lugar para morar e montar uma pousada e restaurante, já que identificava na gastronomia sua verdadeira vocação.

A primeira parada foi em Jericoacora, no Ceará, onde montou o Aloha, seu primeiro restaurante. Foi nessa época que ele conheceu a sua primeira esposa, a atriz Débora Bloch, mãe de seus filhos mais velhos, Júlia e Hugo. Atualmente, ele é casado com, a também atriz, Adriana Alves, com quem tem uma menina, Olívia.

 

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Foi Débora quem indicou Florianópolis como um mercado promissor da gastronomia. E foi assim que Olivier, nos anos 90 escolheu a capital catarinense, mais precisamente a Lagoa da Conceição, para montar seu segundo restaurante, o Malaika, que ficou aberto por duas temporadas.

Em breve passagem pela cidade, no último fim de semana, Olivier falou com a Versar sobre sua relação com a Ilha, sua trajetória no país e seu olhar empreendedor.

Entrevista

Você teve um restaurante em Florianópolis. que memórias guarda desta época e qual o motivo do fechamento?

Tive um restaurante na Lagoa da Conceição, em 1991. Eu abri o Malaika, o segundo restaurante da minha vida, após ter ficado dois anos com meu primeiro restaurante, em Jericoacoara, no Ceará. Eu cheguei em Florianópolis por causa da mãe dos meus primeiros filhos, a Débora Bloch. Ela foi para Florianópolis para apresentar uma peça de teatro e quando voltou — morávamos no Rio de Janeiro — ela me disse que eu tinha que conhecer a cidade: “é sensacional, eu acho que é um lugar que você poderia fazer seu restaurante”. De fato, a descrição que ela me fez correspondia àquilo que eu encontrei. Procurei um local e encontrei uma casa de pescadores açorianos na Lagoa, que transformei no Malaika. Esse restaurante eu toquei durante dois anos, exclusivamente durante as temporadas. Uma característica de Florianópolis, na época, pelo menos, era que as praias eram movimentadas durante o verão e, durante o inverno, completamente mortas. Essa era a realidade, fazendo com que não tivéssemos condições de morar o ano inteiro na cidade e vivendo do estabelecimento.

Casa que foi transformada no restaurante de Olivier em Florianópolis. Foto: Arquivo pessoal

Nesse período, teve contato com a culinária local ou seu restaurante era focado na culinária francesa?

As opções de restaurantes em Florianópolis, em 1991, eram muito limitadas. Eu fazia preparo de minha autoria. Sou francês, não por isso sou chef francês. Eu sou cozinheiro francês que tenho técnicas caseiras de preparo, e colocava em aplicação aquilo que vem da minha cultura. Eu fazia um pouco de tudo, a base eram os frutos do mar, carne tipo filé, enfim, a particularidade da culinária francesa: pratos com molhos. Fui o primeiro restaurante da nova era da culinária de Florianópolis, e do Brasil, inclusive. Minha primeira filha foi concebida em Florianópolis, ela nasceu nove meses depois da última temporada, inviabilizando completamente a possibilidade de me separar da minha filha. Então, foi aí que migramos para São Paulo e eu comecei a trabalhar para a abertura e criação da primeira padaria francesa em São Paulo, a Pain de France. Foi o start para o fechamento de um capítulo de vida para a abertura de um novo profissional.

Restaurante Malaika. Foto: Arquivo pessoal

Você foi modelo, se descobriu na cozinha e, há alguns anos, está à frente de vários programas de televisão. Como aconteceram essas transições?

Cheguei aqui no Brasil em 1979, em dezembro, como turista, e me apaixonei pelo país, mas principalmente pelos brasileiros, pela maneira brasileira de falar, de ser e de enxergar a vida, e isso me levou desejar ficar, e fiquei. A profissão que se apresentou – que inicialmente era para ser efêmera, o tempo de eu aprender a língua para depois buscar alguma profissão que corresponderia mais a minha personalidade – foi a de modelo. Com o sucesso da carreira, vivi quatro anos no Brasil sem voltar para a França. Foi nessa época que eu virei brasileiro no meu forte interno. Foram quatro anos sensacionais, e eu acredito que foram eles que determinaram meu futuro no Brasil. Depois voltei para França para exercer essa profissão lá, para ver se o que deu certo no Brasil, daria certo lá, e de fato deu.

 

Fui modelo até 1989, quando voltei para o Brasil após o falecimento do meu pai e fui realizar meu sonho de gringo: montar uma pousada em algum lugar do litoral brasileiro. Foi assim que eu cheguei em Jericoacoara, após três meses e meio de viagem em uma Rural 68, de Amadeus, no sul do Espírito Santo, até Jericoacoara, onde montei o Aloha. O projeto de fazer uma pousada se reduziu a um restaurante porque a realidade
do empreendimento não correspondia ao meu capital nem minha força. E aquilo que vocês viram durante quase 20 anos no Diário do Olivier, uma intimidade com o fazer, com o preparar pratos de forma simples, impactante, acessível e do cotidiano de um francês, de família francesa, isso veio de família, convivi com isso a minha vida toda. Meu pai era médico, mas carregava com ele a busca dos prazeres e das emoções que todos os momentos da culinária podem proporcionar. Todo domingo ele fazia o almoço e a mão de obra para acompanhar ele na cozinha era minha e de mamãe. Então, querendo ou não, nós sempre tivemos essa familiaridade com a cozinha, com esse universo caseiro e sempre tivemos essa filosofia de família, que é o que eu apresentei no Diário do Olivier durante tantos e tantos anos.

Na gastronomia, você criou a sua identidade. que dica daria para quem está começando  nessa área?

Eu sou um pouco especialista nessa categoria, seja em restaurante ou televisão, e isso até hoje. Tanto é que hoje eu tenho um restaurante – aberto em 2008 – de um prato só. De lá para cá eu abri um outro restaurante em um lugar completamente improvável de São Paulo, que é o Esther Rooftop, na cobertura do primeiro prédio modernista do Brasil. Ele não tem nenhuma placa na rua, absolutamente nenhuma visibilidade. E, além disso, um bar que era meio que rejeitado pelo paulista. E mais uma vez as pessoas não acreditavam que seria um sucesso, e é. Hoje, estamos festejando o terceiro ano do restaurante. Assim como a padaria, que está no térreo desse mesmo prédio, que tem um conceito completamente diferente e que também está tendo um sucesso generoso, exatamente pela maneira diferente de apresentar e oferecer um produto bom, dentro de um envelope diferente, com um conceito diferente. Isso que eu daria como conselho a uma pessoa: ousar com inteligência, sensibilidade, coragem e consistência. A outra coisa que eu recomendaria é fugir do obvio, daquilo que já foi feito, sempre surpreender e inovar.

Essa sua veia empreendedora foi o seu diferencial no mercado competitivo da gastronomia?

Ser empreendedor é ser muito corajoso. Eu gosto de construir. Acho que todos nós estamos aqui para deixar alguma coisa para agora e para depois.

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