Opinião: o espectador moderno não quer discutir. Quer ser entretido

Novela volta à grade da Globo nesta segunda-feira, no "Vale a Pena Ver de Novo"

Foto: Divulgação

*Andrey Lehnemann, especial

Eu não consigo mais parar meu tempo, a minha rotina, para ir ao cinema e assistir a um filme. Prefiro passar meu tempo em casa, descansando e meditando“, confidenciava-me uma conhecida dia desses. Revelava que a arte havia ficado em segundo plano na sua vida, já que trabalhava cerca de 60 horas por semana e que o cinema se tratava de um escapismo banal. Infelizmente, uma afirmação comum em nossa realidade. Com o monopólio mercadológico das grandes companhias, a semana de estreias se tornou povoada quase que exclusivamente por filmes de super heróis, remakes e blockbusters, sem espaço para o cenário independente e autoral, a não ser em cinemas menores ou streamings. É o reflexo, como apontam colegas, do que os multiplex acrescentaram na cultura popular.

A partir do momento que os cinemas passaram a ser – quase que em sua totalidade – planejados nos grandes shoppings da cidade, a arte também passou a ser vista como consumo rápido, tal qual uma praça de alimentação, em que você pede pelo que você quer e quer sentir prazer ao degustar. É uma degustação rápida, fácil e que planeja ser individual, mesmo que o local seja compartilhado. Ao não atingir o objetivo, se a comida não soa aprazível, o estômago e a mente se sentem traídas.

Desde os anos 80, a crítica de cinema Pauline Kael indicava com preocupação que seus textos haviam sido sepultados pela era das videolocadoras, onde o jornalista especializado se tornara um mero guia de consumo, sem audácia ou influência. A opinião era compartilhada com Roger Ebert, que escrevia semanalmente no Chicago Sun e percebeu que muitos espectadores jamais tinham ouvido falar de nomes como Ozu, Buñuel ou Bresson, inclusive em faculdades de cinema, algo que lhe fez criar um espaço que relembrasse jovens clássicos tanto quanto escrevia sobre os filmes modernos. O norte-americano apontava, ainda, a falta de criatividade do mercado, com a ausência cada vez maior de nomes de destaque, num cenário que se resumia aos filmes mainstreams ou obras que seguiam certas convenções que lhe possibilitavam algumas estatuetas (no Oscar). O crítico lembra no seu livro A Magia do Cinema de um discurso de Sean Penn, que declarou no Festival de Edimburgo que filmes que exploravam conceitos incomuns ou até mesmo mais de um conceito numa mesma obra estavam soando imprudentes e afastando o público, na nossa realidade. A asseveração parece extremamente vívida em anos como os nossos, nos quais filmes que procuram debater temas mais espinhosos são logo jogados ao escárnio público.

Não é um grande momento para filmes pessimistas no mercado, portanto, assim como para longas-metragens que planejam gerar debates sociais maiores que o significado da nova armadura do homem-aranha no universo cinemático Marvel X.

Ao escrever sobre Midsommar, lançado esse ano, por exemplo, destaquei a maneira como o terror passou a dialogar com o público no estranhamento, na angústia, no que muitos não considerariam filme de gênero noutros anos pela “falta de sustos”, o jumpscare – e obras como A Bruxa, The Wind, Gwen, Ritual e Thelma exemplificam bem a dubiedade contida no cenário atual. A falta de empatia com o universo que quer lhe provocar mais dúvidas do que lhe responder, que apresenta um final “moralmente repreensível” e de ritmo mais lento que obras americanas similares, no entanto, não cativam as audiências de forma unânime. O público procura algo menos difícil e menos complexo, os números indicam. Está engessado à própria cultura do mercado e se moldou por ela – não ao contrário. Trata o cinema como um palco para fugir da rotina e ser acalorado por um mundo suficientemente divertido e às vezes um pouco tolo. As obras que mais faturaram em 2019, no planeta, são Vingadores, Rei Leão, Homem Aranha, Capitã Marvel e Toy Story 4. Midsommar rendeu 1,6 bilhão a menos em bilheteria que a refilmagem de Rei Leão, ainda que seja uma comparação injusta. Numa análise comparativa de gênero, It – Capítulo II, com maior publicidade e adaptado ao mercado, chamou 350 milhões a mais ao cinema, mesmo assim. As distribuidoras, com medo, reservam aos seus filmes com argumentos originais o destino do streaming ou dos festivais, julgando a inteligência do público conforme ela se posta no cenário comercial. Quando a obra tende a ser polêmica, pior a resolução. A forma como Marighella foi tratado pelas distribuidoras é um exemplo próximo de nós, nesta ótica.

A moralidade cinematográfica e a discussão de temas controversos sempre foram tabus entre as plateias e a crítica, claro. Nos anos 60, o atrevimento de A Tortura do Medo custou caríssimo para o inglês Michael Powell, que nos colocava como cúmplices de um assassino que filmava suas vítimas para observar a expressão de terror pouco antes da morte. O filme fez algo como 150 mil dólares, ajustado a inflação, no mundo todo, tamanho a ferida que a crítica provocou na obra, acusando-a de imoral e perversa. Mas a discussão existia. As pessoas buscavam o debate, a discussão e o prazer de testemunhar algo incomum. Neste ano, a dubiedade de um filme como Coringa retratará o mais próximo de uma discussão dessa natureza, ao nos fazer acompanhar um serial killer, um vilão, corrompido pelo mundo ou sua fantasia de realidade. Noutros tempos, é o sentimento que enfrentaríamos ao assistir Taxi Driver, Scarface, Caminhos Perigosos, O Rei da Comédia, A Tortura do Medo. Como nos conectar com criminosos, na tela? A cumplicidade atrevida nos faz analisar que a tênue moralidade desses filmes nos fascinam talvez menos que a estrutura nos impacta. Ao nos colocar em cheque, o diretor provoca uma contracultura cinematográfica excitante. Desafia-nos. Nos afasta do jogo de regras que o cinema vem se tornando, afagado por um público que procura o entretenimento rápido, fácil e enlatado. É irônico que esse debate seja reascendido em outubro por um filme que sai da cultura do herói para falar do vilão, provavelmente pensaria Pauline Kael.

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