Os 30 anos não são mais como eram antigamente

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Falta menos de um mês para o meu aniversário de 30 anos. Engraçado pensar como, quando eu tinha meus 15 ou 16 anos, os 30 pareciam quase uma idade “depois da vida” – no sentido de que, de forma quase inconsciente, eu já visualizava minha vida como “zerada” bem antes disso: provavelmente casaria ali pelos 24 ou 25, época em que já estaria 100% segura a respeito da minha carreira e escolhas profissionais. Teria filhos ali pelos 27, 28 – com a casa própria já comprada, é claro. Daí para frente, seria só continuar tocando as coisas, que já estariam todas resolvidinhas, ou no mínimo muito bem encaminhadas. Sem grandes dúvidas, dilemas ou preocupações.

Hoje, esse cenário não apenas não me parece nada óbvio (de todos os meus amigos na casa dos vinte e tantos ou dos trinta e poucos, eu consigo contar nos dedos de uma só mão quem já está casado, tem casa própria e/ou filhos), como parece um pouco assustador: o que diabos a Marina de 15 ou 16 anos imaginava que ia fazer depois dos 30? Se, aos 30, os sonhos estariam todos realizados, as metas todas alcançadas, as verdades todas definidas, as decisões todas tomadas, o que restaria fazer nos próximos talvez 50 ou 60 anos da minha vida?

Acho que parte desse descompasso entre imaginação e realidade vem do passado – de uma época em que, em certa medida, as pessoas já chegavam sim aos 30 anos com a vida em maior parte definida. Aposto que os pais ou avós de muitos leitores e leitoras da minha faixa etária já tinham famílias constituídas – às vezes, famílias bem grandes! – antes de completar três décadas de vida. Já tinham os filhos na escola, o negócio próprio herdado dos pais ou construído com as próprias mãos. Tinham mais certezas: a profissão era para sempre; o casamento, também. Era um mundo mais seguro, mais estável.

Um mundo que hoje nos assombra – será que eu não deveria estar seguindo os passos dos meus pais? Garantindo um futuro mais tranquilo? Será que eu sou menos competente, menos responsável que os meus avós? Será que aos 80 anos eu não vou me arrepender desse estilo de vida Geração Y (ou millenial, ou seja lá como quiserem chamar – confesso que me perco nas nomenclaturas), que a cada cinco, três ou dois anos troca de relacionamento, de trabalho, de cidade?

Dizem que somos inseguros e ansiosos porque, mesmo instintivamente, sentimos falta dessa estabilidade, dessa constância. Mas uma renúncia a algo é sempre uma escolha por outra coisa – e eu, particularmente, gosto do mundo mais livre em que vivemos hoje. Em que podemos, aos 20, aos 30 ou aos 50, virar a mesa e mudar de trabalho ou profissão, se isso for o que nos fizer feliz. Em que podemos abrir mão de relacionamentos que não nos servem mais, de decisões que não fazem mais sentido, de rumos dos quais nos arrependemos em algum ponto do caminho. Em que ser feliz, bem-sucedido ou bem visto pela sociedade não corresponde mais a uma fórmula fixa e universal: cada um pode seguir a sua definição do que é ser feliz e bem-sucedido – seja casar aos 25, usar as economias para comprar a casa própria e ter cinco filhos; namorar a vida toda e ter um trabalho remoto enquanto mochila pelo mundo ao lado do parceiro/a; ser solteiro e integralmente dedicado ao trabalho; recomeçar uma faculdade aos 28 porque escolheu errado quando foi obrigado a fazer isso pela primeira vez (quem, afinal de contas, sabe o que quer da vida aos 17 anos, quando termina o ensino médio?).

Eu, aos 30, ainda não casei; mas tenho um relacionamento longo e que vai muito bem, obrigada. Não tenho filhos, e na verdade ainda não decidi se quero ter – e pendo mais para o “não” do que para o “sim”. Não escolhi errado minha profissão, e sou muito feliz no trabalho – mas estou cursando uma segunda faculdade, simplesmente pelo prazer de aprender, e para expandir minhas possibilidades lá no futuro. Tenho carro próprio, mas não uma casa. Fiz um intercâmbio pela primeira vez aos 27 anos (e, cá entre nós, planejo fazer mais um). E ainda tenho muitos planos e sonhos a realizar – se depender deles, eu só vou “zerar” a vida quando tiver lá meus 90 anos de idade. Ainda bem.

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