Escritores em SC: dores e delícias de quem estreou nos últimos 10 anos

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Nunca se publicou tanto quanto agora. Podemos creditar isso aos meios, que baratearam a produção editorial, principalmente com a chegada da impressão digital (que possibilitou a publicação de pequenas tiragens) e à internet, que facilitou a circulação e a divulgação de obras, gráficas e editoras. Santa Catarina não possui um mercado literário funcionando adequadamente, com editoras, distribuidoras, livrarias, eventos e autores interagindo decentemente (mais de 60% das cidades catarinenses não possui uma livraria sequer). Mas isso não impede (para nossa sorte, pois afinal o que resta de um povo é sua cultura) que centenas de pessoas publiquem todos os anos.

É uma literatura de resistência. E esperança. O complexo de vira-latas também está ficando para trás; afinal, o lageano Cristóvão Tezza é um dos escritores mais premiados e lidos do país, os blumenauenses Godofredo de Oliveira Neto e Dennis Radünz colhem grandes frutos junta à crítica nacional. Sem falar em nomes como Salim Miguel, Adolfo Boos, Lindolf Bell, Manoel Carlos Karam e Cruz e Sousa, que em outros tempos foram faróis na noite escura da literatura brasileira. A Versar conversou com alguns autores que estrearam na última década (2008 – 2018), de todas as regiões catarinenses, com idades entre 20 e 45 anos, e preparou uma lista com os melhores livros. É um recorte da produção dos últimos dez anos, mas também um inventário de problemas e caminhos.

A formação de um escritor

Eleito por nove entre cada dez críticos literários o melhor lançamento do ano passado no Brasil, Anos de formação – Os diários de Emilio Renzi (Todavia, 384 páginas, R$ 74,90, tradução de Sergio Molina) do argentino Ricardo Piglia é um mergulho na formação literária do alter ego de um dos mais populares e reconhecidos escritores latino-americanos. E já nas primeiras páginas dispara:

“Como é que alguém se transforma em escritor, ou é transformado em escritor? Não é uma vocação, imagine, também não é uma decisão, mais parece uma mania, um hábito, um vício, você deixa de fazer isso e se sente mal, mas ter que fazê-lo é ridículo, e acaba se tornando um modo de viver (como outro qualquer).”

De modo rasteiro, podemos afirmar que a literatura é uma experiência individual dos escritores, mediada pelo conhecimento (e isso tanto no processo de escritura quanto de leitura). Então ler muito é sobretudo uma maneira de descobrir novas maneiras de narrar, mas também de se descobrir.

O escritor Marcelo Labes (Foto: Acervo Pessoal)

O poeta blumenauense Marcelo Labes, de 33 anos, escreveu seu primeiro poema aos 11 anos, numa aula de língua portuguesa.

— Daí ao primeiro livro foi muito aprendizado, muita leitura, muita escrita jogada fora, desabafa Labes.

Fã de Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, lançou três obras (Porque Sim Não é Resposta, O Filho da Empregada e Trapaça) nos últimos três anos e se prepara para lançar Enclave, em fevereiro, pela editora paulista Patuá.

A escritora Elyandria Silva (Foto: Acervo Pessoal)

Já Elyandria Silva, 43 anos, de Curitibanos, começou por volta dos 30 anos, quando era professora e trabalhava com revisão de textos. Estreou em 2009, com o livro de contos Fadas de Pedra, mas já transitou pela poesia e pela crônica.

– E estou trabalhando para o lançamento de aulas online de redação e escrita, que devem estar no ar até o mês de abril.

Já Melanie Peter, de 33 anos, jaraguaense radicada em Joinville, aposta em caminhos múltiplos. Ela é autora dos Contos de Persona:

– Quando ingressei na faculdade de jornalismo me deparei com a necessidade de escrever textos seguindo certos “moldes”, certas “regras”. Tive um pouco de dificuldade no início, mas isso me ajudou a entender que o meu processo de escrita passa por outros caminhos, conta Melanie.

A poeta Priscila Costa Lopes. (Foto: Arquivo Pessoal)

Priscila Lopes, 34 anos, de Florianópolis, estreou na literatura em 2010, com um livro de breves narrativas chamado Uns Traços, Todos Imponderáveis, e em 2014 lançou outro: O Livro Espantado. E brinca:

– Comecei na poesia ainda criança. Só para me divertir. Quando eu quiser, eu paro.

E deixa de recado uma leitura imprescindível:

– A Redoma de Vidro, da Silvia Plath me deslocou. Nunca me senti tão eu mesma lendo a obra de outra.

Garuvense radicado em Joinville, Giovanni Arceno, de 24 anos, estreou no ano passado, com o romance Vitória.

– Comecei muito cedo. Escrevo desde os doze, eu acho. No começo era só uma vontade, aquele prazer estético do ‘ser escritor’. Com o tempo, lendo mais, amadurecendo, resolvi investir tempo e energia em escrever, entender como o mercado literário funciona e, claro, ler ainda mais e melhor.

Talvez escrever ficção ou poesia não seja buscar uma verdade, mas a verdade de cada personagem ou então o gesto correto para um poema. O lageano Guille Thomazi, de 31 anos, autor do elogiado romance de estreia Gado novo é pragmático:

– Leio muito, estudo e elaboro diligentemente a estrutura das minhas histórias. Este é um caminho desgastante e dispendioso, demandando muito tempo e energia.

Ferreira Gullar disse que é preciso um espanto para escrever. Manoel de Barros acreditava que é preciso voltar a ser criança para se encantar com tudo e ver de outras formas. O Renzi de Piglia também tem algo a dizer sobre isso:

“A maravilha da infância é que é tudo real. O homem crescido é que vive uma vida de ficção, preso às ilusões e aos sonhos que o ajudam a sobreviver.”

Escrever talvez seja uma eterna infância ou infância eterna.

O mapa e o território

André Timm escreveu o romance “Modos Inacabados de Morrer”

André Timm é um exemplo de como as fronteiras geográficas hoje não tem mais tanta importância para um escritor. Gaúcho radicado há treze anos em Chapecó, Timm e seu romance Modos Inacabados de Morrer foram finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura, o mais polpudo do país, e venceram a Maratona Literária da editora Oito e Meio. Também foi finalista do Concurso Brasil em Prosa, da Amazon. Sobre a questão dos prêmios, Timm acredita que “escrever é sempre um exercício de pisar em falso, de tatear no escuro. O reconhecimento ajuda a fortalecer a crença de que acertamos em algo.”

Patrícia Galelli é autora de Carne Falsa

Concordiense radicada em Florianópolis, Patrícia Galelli, 29 anos, estreou na literatura com Carne Falsa em 2013, e vai mais fundo na questão:

–Não há facilidade e nem dificuldade em ser escritora em Santa Catarina, nem em qualquer outro estado, se, porventura, ser escritora significasse, apenas, escrever. Escreve-se, ponto. Mas se ser escritora é também fazer parte de um circuito, ou de uma cadeia comercial do livro, ou ter algum tipo de incentivo cultural pra fazer o livro ser editado e circular, então eu diria que, entre a minha preguiça para o marketing pessoal e a ausência de incentivo para a Arte e para a Cultura em Santa Catarina, ser escritora aqui é difícil.

A maioria dos estados brasileiros possui um sistema de incentivo e produção de sua literatura, assim como prêmios específicos para escritores regionais (como Pernambuco e Rio Grande do Sul) e editais regulares. A verdade é que o caminho seria muito menos árduo para nossa literatura, se os dispositivos de incentivo funcionassem. A escritora e editora joinvillense Katherine Funke, de 36 anos, autora de Notas Mínimas e Viagens de Walter, dentre outros, defende um olhar mais sensível dos governos para a arte.

– É verdade que as políticas públicas catarinenses estão bem insuficientes. Estão sendo desarticuladas sob a justificativa burra de que “arte é inútil”, de que a grana que vai para arte deveria ir para comprar mais medicamentos ou pagar mais policiais. O Estado tem grana suficiente para tudo, e se não tiver, não vai ser a mínima fatia de 1% do orçamento público destinado à arte que vai salvar o mundo.

O escritor João Chiodini (Foto: Acervo Pessoal)

O jaraguaense João Chiodini, de 36 anos, que publicou seu primeiro romance, Os Abraços Perdidos, em 2015, levanta outra questão:

– Dentro do estado, as regiões, as cidades não se comunicam. Sabemos muito pouco dos movimentos que ocorrem no resto do estado.

A escritora Méroli Habitzreuter (Foto: Arquivo Pessoal)

Méroli Habitzreuter, 30 anos, de Guabiruba, autora de Boa Noite ao Tempo, Spleen e Canto do Cisne adota um tom conciliatório e quer que ambos deem um passo: escritores e leitores.

– O campo da literatura ainda preserva muita distância das pessoas, ou vice-versa. Precisamos urgentemente, estreitar laços. E para isso, precisamos estar disponíveis. E você leitor, que tal dar uma chance a uma obra catarinense neste ano?

Voltemos ao livro de Piglia e Renzi para encerrar essa questão:

“Para escrever é preciso não se sentir à vontade no mundo, é um escudo para enfrentar a vida (e falar disso).”

As referências

O escritor Antonio Pokriewicki (Foto: arquivo pessoal)

Cada autor encontra seu próprio caminho: constrói seu próprio léxico, entende suas obsessões e no que pode se desdobrar seus projetos de escritura.. Mas como somos a soma das nossas referências, as leituras indicam muito sobre escolhas narrativas. O joinvillense Antonio Pokrywiecki, de 21 anos, lançou o romance Tua Roupa em Outros Quartos no final do ano passado, e mostra seu mapa literário:

– Gosto dos pós-modernos norte-americanos de modo geral, por capturarem com tanta habilidade a essência do século passado, e também do presente, com passagens quase premonitórias. Tudo isso embrulhado em uma investigação psicológica excepcional, com generosas doses de sensibilidade. Pynchon, Don Delillo, David Foster Wallace, Donald Barthelme, esses caras têm uma profundidade inumana, é possível mergulhar em cada um deles por anos e anos. O difícil é voltar à superfície – diz.

O escritor de Laguna Hang Ferrero (Foto: Acervo Pessoal)

O lagunense radicado em Itajaí, Hang Ferrero, 45 anos, autor da coletânea de poemas Aos Pés do Monte More das crônicas de Código 1 – Crônicas de Plantão ressalta a importância dos livros de Waly Salomão, Mário de Andrade , Cruz e Souza e até o velhinho do boteco que tocava violão no bar que seu pai frequentava como inspiração.

O escritor Caléu Nilson (Foto: Arquivo Pessoal)

Caléu Nilson Moraes, 33 anos, de Santa Cecília, que levou o prêmio Silveira de Souza da EdUFSC com seu irreverente Guia Literário para Machos acredita que seus escritores prediletos mudem constantemente:

– Depende do dia, de verdade. No minuto em que escrevo são dois: Thomas Bernhard e Viet Thanh Nguyen. Ontem, eram Rabelais e o Diderot de “Jacques, o fatalista e seu amo”. Amanhã, só o diabo sabe…

A autora Cristina Vazques. (Foto: Acervo Pessoal)

Cristina Moraes Vazquez, gaúcha radicada em Florianópolis, estreou na literatura no ano passado, aos 45 anos, com o romance O Abismo Entre Nós, e cita Guimarães Rosa, Salinger, Alice Munro e Elena Ferrante como suas grandes referências. O que todos os autores concordam é que gostariam de ter mais tempo para ler e escrever, já que todos dividem a produção literária com outras profissões. “Não é a mesma coisa nadar no mar, nadar numa piscina, a mesma diferença entre viver e ler?” nos pergunta o Renzi do livro de Piglia. Mas mesmo com toda a incerteza de um mercado incipiente, o que mais querem é encarar uma página em branco, quando a realidade se dissipa e as letras e palavras buscam seu próprio espaço.

 

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