Paralela Arquitetura e Artes começa nesta sexta e discute direitos garantidos pela Constituição

Mobilidade, moradia, saneamento, liberdade de expressão, vozes minoritárias e o próprio direito à cidade são alguns dos temas abordados nas propostas exibidas

Ansia - Philippe Arruda
Corpo-significado: a arquitetura como corpo (estranho) na foto-instalação “Ânsia”, de Philippe Arruda

A cidade não é apenas um território ocupado, mas uma criação humana, ao mesmo passo artificial e caótica, que deve(ria) ser capaz de proporcionar aprendizado, libertação e renovação aos seus atores. Inscrita em espaços que são, mais que lugares, conjuntos de relações sociais, a vida na urbe oferece tanto desafios e problemas quanto oportunidades e prazeres. Como a arquitetura, o urbanismo, as ciências sociais, os governos e nós mesmos lidamos com a ideia da cidade como bem coletivo, de todxs, para todxs?

Para nos aproximarmos de uma compreensão ampla da sociedade urbana que construímos cotidianamente, precisamos recorrer a múltiplas linguagens, porque múltiplo é o fenômeno urbano. Os recursos da ciência, da filosofia e da arte nos indicam referências, pontos de vista e experiências complementares fundamentais nessa tarefa.

Aos 30 anos da Constituição Federal, um grupo de artistas, arquitetos e entusiastas apresenta, em Florianópolis, questionamentos sobre os direitos legalmente garantidos aos brasileiros, através de conversas, intervenções e oficinas, no circuito Paralela Arquitetura e Artes. Contemplado pelo Edital Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura de 2017, o evento começou nesta sexta-feira e vai até 22 de setembro, com gratuidade de acesso à toda programação, que conta com 33 ações norteadas pelo mote “o que te constitui?”

— Queremos aquecer o debate de questões de cidadania, de direitos e implicações da Carta Magna em nosso cotidiano, nossos corpos e nossa cidade — argumenta o arquiteto Lucas Reitz, membro da organização do evento bienal.

Mobilidade, moradia, saneamento, liberdade de expressão, vozes minoritárias e o próprio direito à cidade são alguns dos temas abordados nas propostas exibidas na Paralela.

Em 2016…

A Paralela Arquitetura e Artes de 2018 é uma ampliação do projeto implementado na primeira edição, em 2016, sob o título Paralela: Além de Gaudí, Aqui. O evento de estreia aconteceu também na Capital, entre os meses de setembro e outubro, em paralelo à exposição Gaudí, Barcelona 1900. A proposta era mostrar que as produções artística e arquitetônica catarinenses são tão “fantásticas” quanto a obra do arquiteto espanhol.
Com um calendário de 13 ações, incluindo exposições, intervenções, visitas guiadas, debates e oficinas, o primeiro circuito atingiu cerca de 2 mil pessoas. O financiamento foi privado, dos próprios idealizadores e de patrocinadores que viabilizaram a execução, divulgação e locação de trabalhos.

Pensar é construir

Revendo o mar: intervenção “Eu que não sou nada,…”traz painéis que resgatam a vista pública do mar perdida com as construções à beira d’ água na Ilha (Foto: Adson Loth/Divulgação)

Um grupo multidisciplinar de profissionais atuantes em Florianópolis idealiza e organiza a Paralela. Ele é formado por seis arquitetos (Camilla Ghisleni, Gabriela Favero, Julia Faveri, Laura Rotter, Louise Serraglio e Lucas Reitz), um artista visual (Nestor Júnior), uma advogada (Ana Luiza da Rosa) e uma jornalista (Mariana de Ávila). Gabriela Favero afirma que nenhum dos envolvidos tinha experiência em organização de eventos.

— Estamos aprendendo juntos e da melhor forma possível: nosso trabalho é plural e as decisões são coletivas, sem hierarquia — comenta.

A intenção do coletivo é desenvolver ações em paralelo a eventos e fatos históricos, com atividades concebidas por profissionais de arquitetura e artes.

— Assim é a Paralela, uma tentativa de transformar aquilo que é paralelo, por vezes escanteado, em algo com destaque — completa.

Espaços de livre fruição

“227 – De(s) Amor Tecendo”: intervenção pelo direito à brincadeira e à arte (Foto: Celia Regina/Divulgação)

As oficinas, intervenções e conversas da Paralela acontecem na semana do aniversário da promulgação da Carta Constitucional pela Assembleia Nacional Constituinte, no dia 22 de setembro de 1988. O conjunto de ações que mesclam artes visuais, cinema, teatro, dança, música, arquitetura, urbanismo e rodas de conversa resulta de um processo de seleção a cargo da curadoria da Paralela, após um chamamento público via carta-convite ou por meio de parcerias. Ocupando locais públicos e privados, os projetos em cartaz recontam a vida na cidade e buscam despertar a atenção de cada um quanto a si mesmo e ao seu entorno, sua casa e sua vizinhança.

O evento não tem cunho político-partidário, mas propõe um olhar engajado sobre a vida urbana, sobre as novas governanças e o protagonismo dos cidadãos na construção dos espaços – tangíveis ou intangíveis – que desejam produzir.

Lugar de fala: “A saga em busca de um banho”, encenação de rua protagonizada por pessoas que nela moram (Foto: Cassiana Lopes/Divulgação)

A arte restitui o sentido da obra; ela oferece múltiplas figuras de tempos e de espaços apropriados, não impostos, não aceitos por uma resignação passiva, mas metamorfoseados em obra (Henri Lefebvre)

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