Parasita, transita entre instantes de material circense e outros de personalidade real

Um dos favoritos ao Oscar de melhor filme estrangeiro, foi exibido pela CineShow, na Capital

Foto: Divulgação

*Andrey Lehnemann, especial

Uma das cenas mais honestas e emblemáticas do filme Parasita, de Bong Joon-ho, coloca-nos diante de Kim Ki-taek, que se esconde com a família debaixo de um sofá, enquanto seus patrões falam do cheiro que carrega em suas vestes. “É o mesmo cheiro de gente que pega metrô“, diz o personagem interpretado por Lee Sun-kyun. “Faz tempo que não uso isso – o metrô“, responde Chung-sook. É precisamente neste instante que Bong Joon-ho nos imerge na realidade que administrava com certa leveza até então – a desigualdade social também pode incidir na moralidade.

Assim, a força da cena seguinte, onde a família volta para a casa debaixo de uma chuva que arruína o bairro pobre em que moram, a luta pela sobrevivência contra o esgoto e a necessidade de passar a noite em abrigos, colabora para ressaltar a vida quase fabulesca na casa que trabalham versus a realidade que conhecem. É indubitavelmente uma das melhores sequências do cinema em 2019.

Essa tênue linha que Bong Joon-ho propõe sobre a malícia de conseguir se aproveitar de quem se aproveita nos ancora numa comédia dramática que transita entre instantes de material circense e outros de personalidade real, como essa cena com Kim. Na primeira metade do longa-metragem, a evidente metáfora quanto ao parasita e o perfil da família elitista pode causar certo incômodo sobre a jornada que será construída para aquelas pessoas e sua percepção sobre o que é real e o que não é, mas o espectador não parece se importar frente ao impacto da segunda metade do filme. Isso diz muito respeito a construção da narrativa se compreender na visão da família de Ki-taek sobre sua própria condição.

Joon-ho nunca glamouriza as condições apresentadas em Parasita, por exemplo, nem quando se esforça para tirar o cômico de uma situação como o aproveitamento de uma dedetização de rua ou uma oração pelo Wi-fi gratuito, contudo tampouco parece querer fugir da caricatura prosaica em determinados momentos, como aquele em que o casal transa no sofá de forma constrangedora, tentando obedecer aos fetiches que sentem pela classe operária, vistos como animais por eles. A cena concebida de cima, aliás, tem um tom debochadíssimo.

Ainda assim, a partir da aproximação da realidade mundana ditada no longa-metragem tanto pela família quanto pelo público, que conseguem conceber o absurdo presente nas disparidades, Parasita se torna um filme intenso e menos banal. Quando Park usa o trabalho de Kim num domingo para a festa de aniversário de seu filho e lhe afirma seriamente que ele receberá hora extra por diverti-los, aliado com as exorbitantes compras no supermercado feitas por Chung, a narrativa muda. Existe atrevimento e ousadia no uso indicativo de fatos e trajetórias das duas famílias. Uma honestidade que deve muito a mudança brusca orientada pelo retrato feito com Kim debaixo de seus patrões, ouvindo uma conversa.

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