Peça de teatro acontece durante viagem de ônibus por Florianópolis

Espetáculo Entrepartidas aborda as relações humanas e o encontro com a cidade

Foto: Diego Bresani

Uma viagem sobre o amor e o abandono, sobre o efêmero das relações contemporâneas onde os personagens se encontram e se desencontram com o público e a cidade. Resultado de dois anos de pesquisa do grupo Teatro do Concreto, de Brasília, o espetáculo Entrepartidas, selecionado pelo Programa Petrobras Distribuidora de Cultura, começa sua nova turnê desembarcando em Florianópolis nesta quinta-feira, dia 21, até domingo, 24.

Com três horas de duração e a participação de 15 atores, entre profissionais do elenco e convidados, a peça tem início do Terminal Urbano Cidade de Florianópolis, no Centro, e se desenrola durante uma viagem de ônibus permeada por paradas em diferentes pontos da capital catarinense.

— Essa ideia de trânsito é muito forte, é um elemento concreto com o qual a peça tem que lidar, na medida em que acontece num percurso de ônibus pela cidade. O espetáculo faz uso de espaços privados e públicos – o ponto de partida é o terminal antigo de Florianópolis – e então carrega emoções e sentimentos de outro tempo — relata o diretor Francis Wilker sobre a dramaturgia assinada por Jonathan Andrade.

São seis personagens que constroem a história de encontros e partidas, contracenando com a arquitetura do centro de Florianópolis. A peça, que já passou por outras cidades do Brasil, é modificada e influenciada pelas ruas e prédios da cidade enquanto retrata essa relação de amor e abandono.

— O espetáculo se transforma, cada cidade é uma nova paisagem. O que ajuda a construir o sentido da cena também está muito relacionado ao afeto que se tem pelos espaços dessa cidade, que são parte da peça. Uma pessoa que passou muito tempo fora retorna e pergunta “nossa, essa ponte ainda está assim?”, e ela vai tentar identificar o que mudou no tempo em que esteve fora. Então a cidade atravessa o trabalho, numa dimensão textual e na dimensão da composição da cena, já que cada lugar carrega uma história, uma memória, e esse espetáculo acontece onde o espectador tem uma camada repleta de memória.

A peça contracena com a arquitetura da cidade (Foto: Diego Bresani)

O movimento da peça, da cidade e da vida

A poesia da peça, além do roteiro de uma história que acontece em movimento e remete ao movimento da vida, propõe tornar o espectador um viajante. O diretor acredita que o espetáculo é o elemento que cria certo distanciamento para que o espectador lance um olhar renovado para a própria cidade.

— Muitas pessoas nos param para dizer “nossa, a peça me fez olhar para a cidade de outro jeito”. No Rio, uma pessoa falou “eu morei aqui quando era criança e me fez ver de outro jeito esse espaço que eu já tinha até esquecido tudo que representava”. Então é uma possibilidade de reencontro também das pessoas com esses espaços da cidade — comenta Francis.

Questionado sobre os desafios de criar e realizar uma peça que acontece em movimento, Francis Wilker comparou a produção com uma peça tradicional e concluiu apenas com benefícios desse trabalho.

Foto: Thiago Sabino

— O Entrepartidas exige todo um trabalho de pré-produção anterior, toda uma comunicação muito intensa com a produção local, e é um trabalho que nos permite conhecer a cidade, que a gente caminhe pelas suas ruas, praças. Uma relação muito diferente que esse tipo de produção estabelece. Mas para essa peça acontecer, por exemplo, precisamos ter dois carros de apoio e que realizam o transporte dos atores. Então os atores também estão em trânsito. Por exemplo: você vê um ator numa rua e depois chega a outro espaço que ele já está lá. Então, para essa mágica acontecer, tem um trabalho de bastidores muito intenso, que parece uma gincana.

Entrepartidas ganha as ruas do país a partir da seleção pública do Programa Petrobras Distribuidora de Cultura, em parceria com o Ministério da Cidadania, cujo objetivo é contemplar projetos de circulação não inéditos. No último edital foram investidos R$ 15 milhões na escolha de 57 espetáculos representantes de todas as regiões do Brasil e com encenação em todos os estados.

Foto: Diego Bresani

Encenação e educação

Além das quatro apresentações, uma delas exclusiva para uma escola pública da cidade (dia 21), participante também de uma ação de mediação, e as outras três para o público em geral (de 22 a 24), o Teatro do Concreto promove ações gratuitas com estudantes e artistas de Florianópolis:

A atividade EntreOlhares será conduzida com alunos do Ensino Médio de uma escola pública da Capital com o objetivo de formação de plateia a partir de três momentos distintos conduzidos pela arte educadora Paula Gotelip com assessoria pedagógica de Glauber Coradesqui. Num primeiro momento, a oficina Cartografia de Afetos levará os alunos a vivenciar o trajeto do espetáculo e suas percepções sobre estes espaços e a cidade; em seguida, eles irão assistir à primeira apresentação de Entrepartidas em Florianópolis, no dia 21, para que possam refletir sobre os temas e as questões levantadas pela peça em seu diálogo com o tecido urbano. Para finalizar, produzirão uma carta à cidade que será exposta no site do Teatro do Concreto, assim como nas mídias sociais do grupo.

Em outra ação, chamada de EntreGrupos, os brasilienses organizam um intercâmbio ético e poético com um grupo de teatro local para discutir temas como gestão, relação dos artistas com a cidade, processos criativos e traços de linguagem. Nesta “troca de figurinhas” os profissionais contam também suas histórias e debatem sobre mobilidade.

Ainda no sentido desta troca recíproca, EntreNós é um workshop/oficina que reunirá seis atores/alunos de Teatro com foco em performance no espaço urbano. Os participantes escolhidos previamente integrarão ainda o elenco de Entrepartidas durante a passagem por Florianópolis realizando um conjunto de ações performativas nas ruas.

Serviço

Entrepartidas

De 21 a 24 de março de 2019 (a sessão do dia 21 é exclusiva para estudantes)
Hora: 19h30min
Local (embarque e desembarque): Terminal Urbano Cidade de Florianópolis
Endereço: Rua Antônio Luz, s/nº, Centro, Florianópolis
Capacidade: 30 pessoas
Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia) pelo site www.sympla.com.br
Duração do espetáculo: 3h
Classificação indicativa: 16 anos

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