Artesã transforma peças em obras de arte com ajuda de rede de mulheres

Luciana Andrade aciona tecelãs, tricoteiras, bordadeiras e crocheteiras de Florianópolis em cada projeto e elas produzem em conjunto as peças totalmente manuais, e que chamam atenção pela riqueza de detalhes

luciana andrade
Foto Cristiano Estrela/NSC

Quem vê uma almofada ou manta criada por Luciana Andrade exposta na vitrine de uma elegante loja de decoração de Florianópolis não tem ideia de quanta história ela carrega, além da beleza singular. Aos 46 anos, a estilista gaúcha radicada em Santa Catarina desenvolve um trabalho diferenciado com a ajuda de uma rede de mulheres. São tecelãs, tricoteiras, bordadeiras e crocheteiras da cidade que são acionadas em cada projeto de artesanato e produzem em conjunto as peças totalmente manuais, e que chamam atenção pela riqueza de detalhes.

Com formação em moda e design, passando por grandes centros como São Paulo e Itália, Luciana teve ainda na infância uma grande inspiração que acabaria por definir os seus caminhos. A avó era costureira. A mãe, que a adotou ainda bebê, trabalhava como assistente social na antiga Febem. Ambas eram admiradoras do trabalho feito a mão e do artesanato. Foi nos corredores da instituição, acompanhando a mãe, que a estilista conheceu e se encantou pelas oficinas de reciclagem de papel, brinquedo e madeira.

Não por acaso acabou levando para a vida muito do que viu por lá. A casa onde mora atualmente, na Barra da Lagoa, foi transformada em ateliê. Por lá suas almofadas e mantas são inseridas numa atmosfera de puro aconchego, enquanto o pão é preparado na hora, o café passado e os cães brincam livremente no jardim. O silêncio é tamanho que a gente até esquece o relógio, o celular e a correria do dia a dia. Foi nesse ambiente delicioso que ela me recebeu para uma conversa sobre estilo de vida – afinal anda na contramão de um mercado frenético – e projetos para o futuro. Luciana sonha, entre outras coisas, em levar esse conhecimento para dentro de instituições como a penitenciária feminina e ajudar outras mulheres.

O seu trabalho é feito a quatro mãos. Quem são suas parceiras?
Somente mão de obra local, aqui de Florianópolis. Trabalho com crocheteiras, tecelãs, bordadeiras, costureiras, utilizando todas as técnicas possíveis na confecção das almofadas e mantas.

Você faz o caminho inverno da produção em escala industrial. Qual a importância de valorizar e preservar o trabalho manual?
Florianópolis é muito rica nessa mão de obra, nós temos grandes profissionais que fazem um trabalho primoroso e que precisam ser valorizadas, precisam aparecer, muitas sustentam a sua casa com esse trabalho.

Você morou em Florianópolis por um tempo e depois acabou indo para São Paulo. Por que decidiu voltar para Santa Catarina?
Foi buscando qualidade de vida. O período em São Paulo foi importante para estudar no Instituto Europeu de Design, depois passei um tempo em Firenze também, mas eu queria retornar e para continuar esse trabalho tinha que ser aqui. A gente tem uma mão de obra muito capacitada em Santa Catarina. São poucos os lugares como aqui, por isso era aqui que tudo tinha que recomeçar.

luciana andrade
Foto Cristiano Estrela/NSC

Como foi a criação do seu ateliê?
Esta casa é da família do meu marido, o avô dele era italiano e criou o ambiente trazendo muitas referências da Itália. A partir dessas informações eu fui me apropriando e criando o meu ambiente. Trouxe cor, textura, formas. Acho que foi essa mistura de informações, tentando fazer daqui o meu cantinho, que resultaram no ateliê.

O trabalho artesanal tem um valor que muitas vezes é mais alto. Quem é o seu público?
Eu acho que é um público que busca a história daquilo que compra, busca a construção daquele profissional que está executando, que está criando aquele produto. Por exemplo, nos nossos produtos não é só a mão de obra que é artesanal, os fios são artesanais, a gente trabalha com fios de seda rústicos de casulos deficientes que são reaproveitados, que a empresa não quer. Trabalhamos também com fios de redes de pesca. Então é sempre levando algo a mais, não só a mão de obra em si, mas a matéria prima que é inserida nesse trabalho.

O seu projeto é levar esse conhecimento para mais pessoas?
Sim, é um grande sonho, queria muito poder levar essa informação, desse trabalho manual, dessa textura, cores, para a própria Febem e também para a Penitenciária Feminina. Eu fico pensando nessas mulheres que saem de lá e têm tanta dificuldade de conseguir um emprego. E quando você se apropria de algum aprendizado você pode ter um trabalho autônomo, então elas podem se capacitar, trabalhar em qualquer lugar e se empoderar, podem se sentir inseridas no mercado e voltar à vida profissional.

Assista ao vídeo com a entrevista

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