Pelo direito de não gostar de cerveja – e de ouvir a música que bem entender

fone de ouvido
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O conceito de guilty pleasure é uma coisa engraçada: é algo de que você não deveria gostar, mas gosta. E, como não deveria gostar, raramente admite. Curte sozinho, em segredo — e, se alguém lhe perguntar, pode até jurar de pés juntos que não gosta; que, na verdade, odeia aquela determinada coisa ou pessoa. Mas a parte engraçada está justamente nesse “não deveria” — porque quem disse que não deveria foi, bem, o senso comum. Não é que o seu guilty pleasure vá lhe prejudicar ou fazer mal a alguém: foi simplesmente a sociedade, a mídia, os seus amigos, os juízes do Facebook, que decidiram que não é legal gostar daquilo. Não é cool. Nem cult.

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É claro que existem guilty pleasures que fazem mal — o argumento do seu médico contra seu vício em cigarros é bem diferente dos argumentos dos autointitulados especialistas em cinema contra o seu gosto por, sei lá, Transformers. Ou sua empolgação diante da notícia de que vai haver mais um (talvez o vigésimo) Piratas do Caribe. Gostar desses filmes não faz mal, até onde se sabe. Não prejudica quem assiste, e não prejudica os amigos de quem assiste. Então por que essa hesitação? Essa vergonha em dizer em voz alta “Meu filme favorito é Piratas do Caribe”? Não é um crime. Não é algo que coloque em xeque o seu caráter. Relaxa. Pode compartilhar sem medo esse trailer.

E o contrário também é válido, já percebeu? Seria um… Guilty displeasure, por assim dizer: é ter medo de dizer que viu Breaking Bad e achou um saco, contrariando as toneladas de Emmys que a série levou. Ou que Pink Floyd te dá sono. Ou que você nunca assistiu Forrest Gump. Ou que você tentou ler Saramago e não conseguiu passar das primeiras páginas. Quem disser qualquer uma dessas frases vai ser tachado de ignorante — esse não entende nada de seriados, mesmo. Ou de música. Ou de cinema. Ou de literatura. Ah, sabe, tudo bem você não gostar — mas internamente eu estou pensando que esse seu desgosto vem não de uma estética pessoal, e sim de um desconhecimento a respeito do assunto. Não posso aceitar que gosto, como já diriam nossas avós, é gosto, e meio difícil de discutir.

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cerveja
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Meu caso mais clássico de guilty displeasure é com cerveja: não gosto. Mesmo. Acho o gosto horrível, o cheiro nojento. Mas, toda vez que digo isso a alguém, preciso explicar por quê — não, não estou dirigindo. Não, não estou tomando nenhum tipo de medicamento. Não, não tenho traumas com alcoolismo na família. “Ah, mas então você ainda não aprendeu a beber. Não experimentou a cerveja certa.” Na boa: que vontade de mandar à merda.

Ficar se justificando é uma das partes mais chatas de tudo isso. Mas a pior mesmo é se privar das coisas de que você gosta — e tudo por causa de um suposto entendimento da sociedade sobre o que é bom ou ruim. Para não ser zoado na rodinha de amigos. Para não ter seus posts detonados na internet. Não tenho vocação para isso, não. Adoro Piratas do Caribe. Me diverti muito com o primeiro Transformers (mas gostei de Breaking Bad, de verdade). Nunca li Saramago. Harry Potter, em compensação, já li milhares de vezes — e não ligo se o crítico Harold Bloom acha que quem gosta da série é um ignorante que nunca leu outra coisa na vida. Vou continuar lendo. E incentivando meus amigos a ir assistir o novo Animais Fantásticos – Os Crimes de Grindelwald, porque tudo o que faz parte do universo criado por J.K. Rowling me fascina.

Amigos que, aliás, eu fiz bebendo chá gelado. Porque cerveja aqui não entra, obrigada.