Como o cinema mainstream cria personagens populares em franquias

O cinema e a televisão estão cada vez mais percebendo que o protagonismo não tem a ver com heroísmo ou valores

Blue, personagem do mais recente filme da saga Jurassic World. Foto: Reprodução

por Andrey Lehnemann

Há uma frase de Albert Camus que diagnostica precisamente nossa sociedade: “o homem adquire o hábito de viver antes de pensar”.  Ou seja, ao entrar em mundos já estabelecidos, nós somos ensinados a conviver em harmonia com a sociedade da maneira como ela é, jamais tendo a oportunidade de pensar fora dela ou de uma bolha. Pelo contrário, ficamos fadados a pensar sobre ela, quando adquirimos o hábito de pensar – e, ao compreendermos isso, é tarde demais.  É exatamente com esse pensamento de conformação social que o cinema mainstream vem trabalhando para criar personagens que fazem sucesso junto ao público: ao criar empatia para o anti-herói.

Afinal, o que separa alguns dos personagens mais populares da ficção científica mainstream atual, em filmes como Transformers, Planeta dos Macacos ou Jurassic Park? Pouquíssima coisa. A essência de Bumblebee, Cesar e Blue é a mesma – todos são personagens cujo contato humano inicial é imprescindível para demonstrar compaixão em momentos chaves. E, igualmente, todos eles precisam se adequar, veja só, a mundos distópicos e violentos. A chave para o público sempre será a empatia nostálgica. Quando Brian De Palma filmava a primeira cena de Scarface, um filme no qual entraríamos num mundo de ruínas e seríamos cúmplices de um criminoso cruel, ele demonstrava Tony Montana encurralado como um turista cubano, falando sobre sua família e a terra de oportunidades dos EUA. No decorrer do longa-metragem, por mais que Tony fizesse todas as atrocidades que viriam, o público se mostrava favorável a ele, pois carregava a lembrança inicial – que, acima de tudo, Tony era um bom homem, de família, que não teve as oportunidades certas.

Cesar, de Planeta dos Macacos. Foto: Divulgação

Quando Cesar mata pela primeira vez e lidera um exército de primatas rebeldes contra os seres humanos, em Planeta dos Macacos, não é incomum que o espectador projete no anti-herói uma chance de se vingar do meio violento ao qual foi jogado. Porque, mais uma vez, cabe ao público avaliar cada sequência da tortura animal que levou Cesar a se tornar um símio mais calculista e niilista. Sua tragédia soa humana e, portanto, palpável para um público que anseia por personagens falhos e vingativos.

Não é de hoje, inclusive, que o cinema norte-americano trabalha com essa percepção punitiva para com algo maior do que seu personagem. Ao avaliar alguém mais fraco lutando contra um sistema de valores (no caso de Cesar, uma causa ecológica e de direitos animais), você pode criar um personagem até como Joe Bang ou os irmãos Logan, em Logan Lucky, cuja narrativa é exatamente “roubar de quem rouba” o cidadão: o governo norte-americano. A torcida para que os anti-heróis possam humilhar essa segurança governamental, onde existe uma aura de impunidade, firma um propósito de roteiro simples, mas muito eficiente. E, com o passar do tempo, filmes como Baby Driver ou o novo Jurassic Park se tornaram ainda mais explícitos a solidificar o debate moral sobre as ações que percorrem a narrativa e como elas incidem em seus personagens.

A fragilidade de seus anti-heróis, igualmente, colabora ainda mais para a empatia ser promovida. Tanto Cesar e Blue quanto Bumblebee não são inatingíveis. Eles possuem fraquezas, não são necessariamente os mais fortes de suas tribos, porém passamos a tratá-los como tais – por serem mais afetuosos e racionais. Cesar defende sua família acima de tudo e só vai à batalha por ela vir até ele. Uma causa nacionalista simpatizada por muitos norte-americanos: a guerra pela paz. Blue é, igualmente, astuta e superior aos seus semelhantes. Sua fragilidade? A compaixão por seu criador, o personagem de Chris Pratt. Ambos são os pontos fracos um do outro. E o amor nutrido pelos dois exerce um forte sentimento de empatia sobre o público. Mesmo sentimento compartilhado por Bumblebee e Sam Witwicky, na franquia Transformers, diga-se de passagem.

Num mundo falho como o nosso, é comum que tenhamos carinho por personagens que não sejam necessariamente moralmente incorruptíveis, e o próprio western se ateve a isso no seu auge. Oposto a esta ótica, aliás, o cinema e a televisão estão cada vez mais percebendo que o protagonismo não tem a ver com heroísmo ou valores, mas com contexto e adaptação. É a ótica de Camus sendo aproveitada em favor da narrativa.

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