Pesquisa aponta que youtubers substituem pais, amigos e outras atividades de lazer entre crianças de 3 a 13 anos

criança com celular
Foto: Diogo Sallaberry/Agência RBS

Que o modelo tradicional de pais como principais tomadores de decisão da vida dos filhos está superado não é novidade. Há décadas outros influenciadores como os grupos de pares e amigos, a escola, clubes, instituições como a igreja e até a TV concorrem com o que em algum momento foi a autoridade inquestionável da família. Mas hoje todas essas influências também parecem ter ficado no passado ou — no mínimo — conservam apenas resquícios do seu poder de persuasão.

Pesquisa inédita do instituto Market Analysis com mais de 600 mães de crianças entre 3 e 13 anos residentes nas grandes cidades do Brasil revela que são os youtubers os que mais fazem a cabeça da molecada. O estudo “Desafíos da Maternidade 2020” indica que as crianças são fortemente influenciadas nas suas decisões cotidianas pelos youtubers, seguir seus vídeos ocupa cada vez mais tempo na vida delas e que os pais sentem-se crescentemente impotentes e desconfortáveis com essa situação, sendo receptivos a uma regulação estatal do fenômeno. Nas palavras do diretor do instituto Fabián Echegaray:

— O súbito peso dos youtubers no cotidiano das crianças tomou por surpresa nós pesquisadores, mas também os próprios pais das crianças. Junto com a surpresa vem o desconforto já que pais e mães intuem por trás da chegada dos youtubers a longa mão dos criativos e executivos de marketing e publicidade, buscando comercializar a infância mais um pouco.

Confira os principais resultados do estudo “Desafíos da Maternidade 2020”:

  • 83% das crianças em casa tem acesso ao Youtube – uma proporção quase 3 vezes maior que a segunda rede social de acesso: Facebook com apenas 33% de presença. De longe seguem, Instagram (22%) e Snapchat (10%)
  • O principal uso da internet pelos filhos tem a ver com assistir podcasts/vimes/filmes dos youtubers: 29,5% – essa proporção quase dobra o 2do maior propósito de navegação que são os jogos online (16%)
  • A exposição à conteúdo é a atividade de lazer do maior aumento entre as crianças ao longo do último ano: +28% no caso de youtubers da mesma idade que a criança e +21% de idade mais velha. Em contraposição brincadeiras com outras crianças sem uso de eletrônicos só subiu 19% e brincadeiras sozinho sem eletrônicos (15,5%). Práticas de leitura, esportes individuais ou coletivas ficaram bem por debaixo desse patamar
  • Dos diferentes ambientes digitais usados pelas crianças, os vídeos de youtubers e o acesso ao Youtube no geral são os menos controlados pelos pais: bem mais do que 1 a cada 3 pais admite ter um controle parcial ou fraco do que os filhos vem por essas redes. Comparativamente os pais sentem que tem bem mais controle acima do uso das redes convencionais como Facebook, Instagram e Whatsapp dos filhos, além de controle sobre a própria navegação digital no geral.
  • Videos no youtube são admitidos pelos pais como a principal influência em situações de compra/escolha de marca entre os filhos: 56,3% lhe atribuem muita ou alguma influência, acima das recomendações dos próprios pais (51,8%) ou influência de amigos/as das crianças (43,7%). Redes sociais e influenciadores digitais das redes sociais ficam com 40% e 44% das atribuições de influência sugerindo uma pequena brecha entre conteúdos de youtubers e conteúdo do Youtube
  • As reações dos pais aos conteúdos dos youtubers são parcialmente adversas, caracterizadas pelo desconhecimento e compreensão parcial das consequências da exposição extensiva.

 

Ficha técnica: A pesquisa entrevistou online 603 mães com crianças entre 3 e 13 anos entre os dias 23 e 30 de novembro de 2018. A amostra selecionou mães participantes no maior painel de internautas ativos no Brasil, distribuídas em termos de sexo, idade e classe social de modo a representar a população geral. As entrevistadas residem em 519 municípios diferentes das 5 macro-regiões do país.

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