Pessoas idosas aproveitam a aposentadoria para conhecer o mundo

Com mais liberdade para gerenciar o tempo, público idoso viaja mais e faz amigos

Excursão para o Porto, em Portugal, um dos países queridinhos do público idoso. Foto: Fladner Cruz/Divulgação

A vida começa aos 60, alguém disse certa vez. E a maioria das pessoas pode esperar viver até esta idade, ou mais, de acordo com a Organização Mundial de Saúde. Segundo o relatório mundial de envelhecimento e saúde da Instituição, divulgado em 2015, uma criança nascida no Brasil naquele ano pode esperar viver 20 anos mais que uma nascida há 50 anos. Quem (ainda) não é considerado idoso, ou seja, quem tem menos de 60 anos, pode desde já ajudar a combater os estereótipos baseados em idade e a discriminação etária. Esqueça as antigas percepções e o senso comum sobre as pessoas mais velhas: hoje, a população idosa é bastante diversa, com pessoas que estão buscando novas carreiras, fazendo esportes desafiadores, com vida sexual ativa e, claro, viajando muito.

Segundo a última pesquisa Sondagem do Consumidor – Intenção de Viagem, realizada em novembro de 2017 pelo Ministério do Turismo, 31,7% dos idosos consultados afirmaram que fariam alguma viagem nos seis meses subsequentes à entrevista. De uma forma geral, é um público que já está aposentado e, portanto, pode administrar o tempo com mais liberdade do que quem só tem 30 dias de férias por ano.

A ex-professora Mirce Moretti, de Imaruí, é um exemplo. Se antes suas férias eram obrigatoriamente durante o recesso escolar, depois da aposentadoria ela pôde se organizar e arrumar as malas para conhecer o Brasil e o mundo. Primeiro, ela passou 30 dias no Nordeste com um grupo. Depois de conhecer boa parte do país, ela partiu para aventuras na Europa e nos Estados Unidos. Começou por Portugal e, desde então, passou pela França, Alemanha, Itália, Espanha, Suíça, entre outros países – alguns deles ela já visitou mais de uma vez.

— Enquanto eu trabalhava, só ia para resorts, em viagens mais curtas. Hoje, viajo tanto por conta própria quanto em grupo, mas entre as duas experiências prefiro ir em grupo. Tem a desvantagem de às vezes tu preferires estar em outro lugar e ter que seguir o roteiro, mas têm inúmeras vantagens – alguém que pensa por você, se incomoda por você. A única preocupação é de ir – conta.

Conversadeira e com facilidade de interagir com as pessoas, características que ela atribui ao fato de ter sido professora, Mirce acabou fazendo amigas durante essas viagens. Hoje, ela tem um grupo com 10 mulheres que se reúnem várias vezes por ano para encontros e mais viagens.

— É um exemplo de como é bom viajar em grupo. Tem um público enorme aí, de pessoas sozinhas, e vejo também que têm muitas mulheres que viajam sozinhas em excursões. Esse tipo de viagem favorece quem não tem muita experiência de sair de casa
e está nessa idade, quando os familiares ainda estão produzindo e trabalhando fora. Então, a melhor companhia é o grupo. Ali, você faz amizades e novos conhecimentos – opina.

Beth Ricardo, da Beth Tur, agência de viagens que tem como foco um público mais velho, concorda. Para ela, que trabalha no ramo há 30 anos, quem estiver com vontade de viajar não precisa ter medo de não conhecer ninguém da excursão.

– Meu público é dos 50 para cima. Cada um tem um sonho, e antes de viajar eu vou até à casa das pessoas e elas viram amigas. Eu sempre vou junto em todas as viagens. Porque quando as pessoas fecham pacotes elas pensam: não conheço ninguém. Aí eu digo: mas eu vou, você me conhece – explica.

Mãe e filha

A nutricionista Giovana Marcia dos Santos Guimarães, de 50 anos, não faz oficialmente parte da categoria de idosos como define a OMS. Mas foi depois de um empurrãozinho da mãe, Maria Madalena dos Santos, de 70 anos, que ela começou a fazer viagens em grupos, há 10 anos, e não parou mais. Mesmo com familiares que moram em cidades da Europa, Giovana, que é de Florianópolis, prefere contratar pacotes com excursões na hora de cruzar o oceano.

– Eu era meio paradona e comecei a viajar já com excursão, por causa da segurança e do serviço que eles prestam. Principalmente no início, quando a gente não conhece nada nem domina outras línguas. E mesmo que eu vá para a casa de parentes em outro país, sempre tem excursão. Geralmente vou para a casa deles antes e depois encontro a excursão e conheço mais países – explica a nutricionista.

A mãe, Maria Madalena, é aposentada e passeia bem mais que a filha. Aos 52 anos, a moradora de Imbituba fez sua primeira viagem internacional, na época com a irmã, para a Europa. Hoje ela, que brinca ser “meio maluca”, tem como prioridade viajar e não consegue imaginar a aposentadoria sem os passeios pelo mundo.

– Sempre digo para as minhas sobrinhas. Tenham como objetivo viajar, botem na cabeça que dá certo. Eu já começo o ano pensando: vou fazer tal coisa. Estou com 70, mas tenho vontade de morar alguns meses em um país. Sem as viagens, minha aposentadoria seria inteiramente sem graça. Não sou casada, então acho que eu seria muito infeliz se não fosse viajar – acredita.

Lia e Antônio Pioner esperaram a aposentadoria para viajar o mundo. Foto: Arquivo Pessoal

Em casal

Apesar de muitas mulheres se sentirem bem viajando sozinhas ou participando de excursões com desconhecidos, isso ainda pode ser um empecilho para aquelas que não se sentem seguras. Segundo uma pesquisa feita pelo comparador de passagens aéreas Voopter com 5.419 brasileiras, a falta de companhia está entre algumas das principais razões que as impedem de viajar mais (29,6%). Falta de tempo também foi citada por 50,8% das entrevistadas – coisa que quem é aposentada não precisa se preocupar tanto.
Lia Jussara da Silva Pioner, de 67 anos, esperou o marido se aposentar para que eles pudessem viver aventuras internacionais juntos.

– A gente sempre pensava que ia viajar quando se aposentasse. Sozinha, eu não gosto – afirma a ex-professora, que mora em Imbituba.

O marido, Antônio Valadares Pioner, de 74 anos, conta que o casal fez duas viagens internacionais nos últimos seis meses. A próxima deve ser até o fim do ano – só não é antes porque ele está tratando uma hérnia de disco e ela cuida de uma dor no joelho.

– Nessas viagens a gente tem que subir escadas, castelos, museus, tem um esforço físico grande. Mas tem que aproveitar a vida enquanto não dá um problema de saúde – defende.

Foto: Pixabay

Dicas para atender bem a população idosa

Em 2016, o Ministério do Turismo desenvolveu a cartilha “Dicas para atender bem turistas idosos”, em parceria com o Ministério da Justiça e Cidadania e o Conselho Nacional dos Direitos do Idoso. De acordo com o material, quem presta serviços para esse público deve ser amável, respeitoso e compreensivo para que estes viajantes sintam-se confortáveis durante a experiência turística. Os profissionais também devem estar atentos às necessidades especiais de cada viajante para oferecer o auxílio adequado.

Confira algumas recomendações da cartilha:

  • Identificar as necessidades específicas de cada pessoa idosa e buscar ferramentas para tratá-las com dignidade e respeito.
  • Fazer com que elas tenham prazer em viajar, participem das atividades de recreação, sintam-se confortáveis e à vontade, proporcionando bem-estar físico.
  • Tratá-las com consideração, respeito, compreensão e amabilidade para que se sintam acolhidas, animadas e alegres.
  • Proporcionar oportunidades de novas amizades.
  • Agir naturalmente e não se sentir mal em perguntar se a pessoa precisa de ajuda e como deve ajudá-la.
  • Observar as normas e padrões de acessibilidade de forma a oferecer mais conforto ao público idoso.
  • Investir na qualificação do atendimento das pessoas idosas.
  • Reservar assentos preferenciais e apresentar placas/sinalizações de fácil visualização e com cores fortes.
  • Oferecer filas preferenciais.
  • Não subestimar ninguém física, cultural ou intelectualmente.
Foto: Fladner Cruz

Top 5 destinos

Segundo Beth Ricardo, da Beth Tur, os destinos mais procurados pelo público idoso estão na Europa e na América do Sul. Confira os destaques:

Portugal

Com muitas tascas (restaurantes típicos) que servem o tradicional bacalhau, vinho famosos em todo o mundo, belas paisagens naturais e arquitetura histórica, Portugal vem se tornando cada vez mais queridinho pelos viajantes. Lisboa, Sintra, Porto e Fátima, onde o santuário atrai visitantes de todo o mundo, estão entre as cidades mais visitadas.

Itália

Passear pela apaixonante Itália dá a oportunidade de ficar pertinho de monumentos que fazem parte da história do Ocidente. As cidades fascinantes estão entre as mais visitadas do mundo e o país ainda tem uma das culinárias mais deliciosas – é difícil encontrar quem não goste de uma boa macarronada com molho de tomate.

Leste Europeu

Um destino menos óbvio mas ainda assim bastante popular entre o público idoso é o leste europeu, com países como República Tcheca, Eslováquia, Hungria e Croácia, que faziam parte do antigo bloco soviético.

Machu Picchu

Descoberto em 1911, o sítio arqueológico de Machu Picchu, no Peru, é um destino mágico que atrai visitantes de todas as idades. Segundo Beth, quem tiver mobilidade reduzida ou simplesmente não tiver vontade de fazer alguma das trilhas que levam ao local pode optar por ir de van. É também preciso seguir as orientações dos guias para não sofrer com o mal da montanha.

Patagônia

Um dos locais mais belos da América do Sul, a Patagônia está localizada entre o Chile e a Argentina e tem paisagens inóspitas e bucólicas. Um dos principais destinos da região é El Calafate, onde fica o famoso glaciar Perito Moreno.

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