Piangers: Deu bandeira!

Foto de Marcos Piangers com as filhas - Foto Giselle Sauer, divulgação

Piangers e as filhas Aurora e Anita – Foto Giselle Sauer, divulgação

Foi com algum constrangimento que falei sobre maconha com minha filha pela primeira vez. Não pelo tema, que aqui em casa achamos que é dever dos pais falar sobre tudo, mas pela situação. A menina estava fazendo um trabalho escolar sobre o México, cartolina com letras enfeitadas contando a história da nação, e bem grande no meio do cartaz tinha uma bandeira mexicana tirada da internet.

Era a bandeira do México, sem dúvida, verde branca e vermelha, a águia com uma serpente no bico, ramos de louro embaixo, mas, na bandeira que minha filha pegou da internet, uma gigantesca folha de sete pontas aparecia em destaque na boca da águia. Se você procurar “bandeira do México” no Google Images vai encontrá-la, no meio de tantas outras bandeiras mexicanas caretas, a bandeira que minha filha escolheu. “Achei esta mais enfeitada”, me disse a pequena. “Mas esta tem uma folha a mais, não é a bandeira correta”, argumentei. “É a mais bonita”, ela me disse.

Bonita ou não, por alguns momentos pensei em deixar que a menina fizesse a apresentação na frente da turma. A professora, talvez, nem notasse. Minha filha iria mostrar as virtudes do batalhador povo mexicano, explicando o brasão de armas e o deus da guerra, e quando perguntada sobre a estranha folha no bico da água diria: “é só um enfeite”. Mas sempre existe um garoto de dez anos com um irmão mais velho, um garoto que já identificou um padrão nas roupas do irmão e perguntou o que era aquela planta na camiseta, no boné ou no caderno. Identificando a folha, denunciaria para toda a turma: “Maconha! Aquilo é maconha!”. Minha filha diria que é apenas um enfeite que deixa a bandeira mais bonita, mas tenho certeza que o mole impactaria sua nota.

“É uma planta ilegal que as pessoas fumam pra ficarem tipo bêbadas”, disse pra ela. “Pegaria mal usar essa imagem no trabalho de classe”, expliquei. “Mas por que as pessoas não bebem cerveja pra ficarem bêbadas?”, perguntou Anita, a menina das argumentações intermináveis. “Algumas preferem fumar”, expliquei, relembrando os colegas da faculdade. “Mas por que cerveja é legalizado e essa planta não?”, me perguntou a menina. É uma boa pergunta, eu reconheço. Não sei por que eu insisto em responder as perguntas infantis. Crianças são especialistas em perguntar, eu sou um amador na arte de responder.

“Anita, simplesmente tira esta bandeira do México e substitui pela bandeira sem a folha”, eu disse. “Por favor!”. Substituição feita, trabalho apresentado, Anita voltou pra casa com uma nota oito. Foi prejudicada por alguns erros de português. Desatenção boba, você sabe como é. Papai aqui ficou tão atrapalhado com a bandeira que não deu atenção pro trajeto com g.