Marcos Piangers: Falta referência

Madonna na turnê Blond Ambition

Notei minha idade um dia desses quando citei a Marília Gabriela e todo mundo me olhou como se citasse uma pessoa desconhecida. Era uma daquelas entrevistas em que falam uma frase curta e querem que você responda com uma frase curta também, o tipo de entrevista que me deixa profundamente desconfortável, porque tenho sempre que pensar em algo muito inteligente e curto – e, como todos sabemos, prolixidade é o refúgio do medíocre.

Alguém já disse: “se eu tivesse mais tempo poderia escrever uma carta mais curta”. Leva tempo ser sucinto. Pois, na minha época essas entrevistas eram chamadas de ping-pong. Os mais velhos, como eu, lembrarão da Marília Gabriela fazendo este tipo de coisa, os de meia idade terão na Xuxa sua referência de entrevista ping-pong. Os realmente novos não terão referência alguma, como é típico.

Esses dias, em uma conferência para gente mais nova, utilizei o termo “microfone da Madonna” para me referir àqueles que encaixam na orelha e vem até a boca com uma haste fina. Usar o termo “microfone da Madonna” denuncia muito sua idade. A plateia me olhou sem entender, muitos deles não conheciam nem a Madonna. Agora, como podem não conhecer a Madonna? Este é o problema com os muito jovens: sua ignorância evidencia nossa velhice.

Mostrei estes dias um telefone fixo de disco para minhas filhas. “Onde estão os botões?”, perguntaram. Não tinha botão. Tinha disco. Daí vem o termo “discar o telefone”. Odiávamos quem tinha 9 ou 0 no número de telefone, pois tínhamos que esperar todo o disco voltar para o lugar original, para poder discar outro número. Se tinha um 9 ou um 0 a gente levava horas para ligar para alguém. Quando a mãe via que estávamos usando muito telefone e a conta estava vindo cara demais, ela colocava um cadeado no disco, impedindo-o de girar. Era o que se tinha de mais sofisticado em termos de segurança de sistema.

Quando fazemos o sinal da conta, no restaurante, simulando um lápis que faz um cálculo no ar, também estamos denunciando nossa idade. Hoje em dia a conta vem pronta, impressa por um computador, e a gente paga com cartão, não preenchendo um cheque. Rabiscar o ar perdeu a lógica. O mundo como conhecíamos vai pouco a pouco desaparecendo, dando espaço para novas pessoas com novas referências. Experimentarão um pouco do que sentimos quando, em alguns anos, ninguém souber o que diabos foi um smartphone.

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