Martha Medeiros: “Qual o problema de Piangers palestrar num evento dedicado às mulheres?”

Foto: Box Produtora

Era por volta de 8 de março, Dia da Mulher. Uma amiga comentou que um evento alusivo à data tinha sido cancelado. Uma palestra. “Você não vai acreditar em quem a empresa havia convidado”, ela disse. Eu não fazia ideia. “Chuta”, insistiu. Mas ela nem esperou eu pensar um nome, entregou direto: “O Marcos Piangers!!”. Silêncio. “O Piangers é ótimo”, eu disse. “Por que cancelaram? Ele ficou doente?”. Minha amiga fez aquela cara de “hellooou” e gritou nos meus ouvidos: “PIANGERS É HOMEM!!”

Eu sei que Piangers é homem e logo entendi a gafe da empresa: convidou um macho para palestrar num evento “cor-de-rosa”. Entendi, mas não entendi. Piangers viaja por todo o Brasil dando palestras sobre sua experiência de ter sido um menino que foi criado só pela mãe, o que o estimulou a ser um pai mais do que participativo de suas duas filhas. Piangers é aquele cara desassombrado com a paternidade: assume sua função com prazer, com responsabilidade, com criatividade. Escreve sobre isso em jornais, participa de programas, grava vídeos, conscientiza: pai não é decorativo, não é apenas um provedor. Pai educa, pai ama, pai brinca, pai orienta, pai vacila, pai é uma mãe também.

Piangers é um feminista.

Ora, um homem que faz outros homens repensarem seu papel dentro de casa é um aliado. Nosso empoderamento passa também por viver ao lado de maridos e namorados que compreendam que homens não têm que “ajudar” a cuidar dos filhos, e sim que reconheçam a profundidade da sua missão na criação deles. Logo, Piangers colabora demais. Qual o problema de ele palestrar num evento dedicado às mulheres? Achei a proposta avançada – só que não rolou.

Além da tripla jornada de trabalho, somos vítimas de assédio, violência, machismo. Somos as maiores interessadas em acabar com este quadro de abuso, mas não as únicas interessadas. A maioria dos homens não é bandido. Eles têm irmãs, filhas, namoradas, esposas, mães, primas, tias, avós – estão cercados por mulheres e talvez queiram conversar conosco sobre tudo isso. Por que estamos impedindo-os de participar desta revolução?

Mudar padrões de comportamento depende da gente: não aceitar piadinhas preconceituosas, denunciar agressões, fortalecer a autoestima. Com quem praticar essa nova postura? Com os homens com quem convivemos, para início de conversa. Então me parece producente trazê-los para perto em vez de isolá-los. Assim como Piangers, há outros que têm a cabeça aberta sobre o atual papel masculino.

Admito: sou fã de homem. Fico nervosa com clubes da luluzinha. Não quero fazer parte de nenhuma tribo sexista. Lutamos tanto para quê? Para expulsar os homens depois da nossa
ocupação ou para fundar uma nova sociedade  ao lado deles, de igual para igual? O Dia das Mães está aí. Que Piangers faça muitas palestras. Ao formatar um novo pai, ele adianta bastante o nosso serviço.

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