Piangers: “Nunca ouvi ‘eu te amo’ de um pai”

Foto Bonnie Kittle on Unsplash, Divulgação

Quando eu ainda tinha mãozinhas gordas e bracinhos fofos, me lembro de levar até a minha mãe meu cobertor favorito. Ela chorava na cama uma desilusão amorosa. Lembro que ela sempre chorava quando eu lhe pedia pra ter um pai. Percebi que era algo forte demais de pedir. Ter um pai. Eu queria ter um pai que me pegasse no colo na saída do colégio. Que me ensinasse a fazer uma pipa. Que me assistisse em apresentações escolares. Eu queria ter um pai porque todo mundo tinha pai menos eu. Porque eu queria ser normal.

É algo injusto de se pedir pra uma mãe. Percebo só agora. Ela se esforçou pra manter relacionamentos nos quais sofria, pra me dar um pai. Aguentou traições. Finalmente, convenceu um namorado a me registrar no cartório. Era pra ser meu pai. Mas nunca tive pai. Nunca dormi abraçado com um pai. Nunca ouvi “eu te amo” de um pai. Essas coisas que os pais fazem com os filhos. Nunca tive um pai me trazendo remédio pra tosse. Aprendi a andar de bicicleta depois de velho, com um amigo. Aprendi a dirigir com 20 anos. Nunca torci para um time de futebol, realmente.

Cresci inseguro. Como todo inseguro, agressivo. Tinha problema com autoridade, especialmente masculina. Desafiava professores na faculdade. Desrespeitei chefes. Sentia a necessidade de agredir os outros com comentários malvados. Acho que me transformei em uma pessoa desagradável. Tive a sorte de conhecer uma mulher especial, de me reconectar com a minha mãe, de ter duas filhas que me ajudaram a ser quem eu posso ser. Me dedicar a elas me curava todos os dias.

Não faz muito tempo, ouvi uma história linda de um pai. Quando o filho de sete anos brincava de skate, caiu, ralou o joelho e começou a gritar de dor e susto. O homem me contou que lembrou dele mesmo, quando criança, ralando o joelho e ouvindo do pai: “Não chora! Homem não chora!”. Com seu próprio filho, ele resolveu fazer diferente. Abraçou a criança e disse: “Pode chorar, filho. Eu sei que dói. Papai está aqui”. Lembrando do seu próprio pai. Ele estava curando seu trauma.

Quando durmo abraçado com minhas filhas estou dormindo comigo mesmo, quando eu era criança. Estou sendo o pai que eu não tive. Estou sendo meu próprio pai. Estou sendo alguém que minha mãe sempre quis pra ela.

Enfim, conseguimos, mãe.

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