Piangers: Que companhia

Marcos Piangers - Foto Julio Cordeiro, divulgação

Marcos Piangers – Foto Julio Cordeiro, divulgação

Eu fico realmente feliz de escrever no mesmo jornal que a Martha Medeiros, quanto mais na mesma página. Que companhia, não tenho nem roupa pra isso. Uma vez troquei e-mails com a Martha, lembro de ficar nervoso quando ela me respondia. É um nervosismo duplo: “ela respondeu!” e “vou ter que responder com um e-mail muito bem escrito! Tragam o dicionário!”.

Sei que a Martha é muito ligada à mãe porque nos poucos e-mails que trocamos já foi logo citando a mãe dela. Falou da mãe em duas ou três frases. E, claro, escreve sobre mães como ninguém. As frases da Martha viram aqueles powerpoints animados que a mães mandam umas para as outras. A forma mais singela de perceber que um escritor é um verdadeiro sucesso.

Assim como a Martha, adoro a minha mãe. Ela é de ferro. Passou por câncer, acidente de carro que vitimou seu namorado, quinze dias de coma induzido na UTI. Ela anda com a perna firme, cheia de cicatrizes, como se fosse um soldadinho de chumbo. Nunca quer ajuda quando estendo a mão para ajudá-la, a não ser quando estamos em público. Quando estamos em público me dá o braço como se fosse uma anciã endinheirada passeando com seu filho escritor. Seu filho escritor que sonha em ver suas frases em powerpoints animados.

Assim que conseguiu, minha mãe se aposentou e fugiu pra sua casa de praia. É um condomínio decadente em que tudo está sempre descascando. Mas minha mãe não liga. Compra garrafas de vinho branco no supermercado por nove reais. Não importa se é um bom vinho, por este preço é o melhor vinho que existe. Combina com o jogo semanal de cartas com as amigas. Combina com os filmes da Netflix. Combina com os livros da Martha Medeiros. Combina com as caminhadas no fim de tarde na areia. Combina com a leitura deste jornal.

Assim que estreou este novo caderno minha mãe me mandou uma foto da página: “Você e Martha Medeiros na mesma página!”. Esses dias fez calor e fomos pra Florianópolis, passar o feriadão.

Foi então que vi com meus próprios olhos: eu e Martha, Martha e eu. Acho que cheguei lá. Na boa, não há mais necessidade de colocar minhas frases em powerpoints animados. Estou satisfeito com esta página. Com esta companhia. Com a alegria da minha mãe. E claro, com esse vinho de nove reais.

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