Marcos Piangers: será que envelhecemos no paraíso?

Será que somos sempre crianças no paraíso? Foto: Scott Webb, Divulgação

Não vou dizer que não existem dias em que estou tão tranquilo e feliz que digo para mim mesmo e, às vezes, até para outras pessoas: “eu poderia morrer agora e morreria feliz”. Só de vez em quando. Na maior parte do tempo estou decepcionado pela brevidade da vida, pela curiosidade com o mundo em 3018, pela angústia de deixar um dia de existir. Alguns dizem: “é apenas um sono eterno”, como se dormir para sempre não fosse também um desespero. Será que há sonho? Alguém me acordará depois de milênios por conta de alguma descoberta científica?

Alguns outros estão firmes na convicção de uma vida eterna (e como eu quero que estejam certos!), mas não há detalhes: envelheceremos no paraíso? Moraremos juntos das nossas famílias?

Existirão mosquitos?

Gosto de pensar que o paraíso post mortem é congelado eternamente na época que você foi mais feliz. Você passaria o resto do “para todo sempre” naquela mesma praia que ia na infância correndo com seus amigos de oito anos de idade. Ou estaria para sempre vivo no dia da festa do seu casamento, rodeado de amigos e ao lado do seu grande amor. Ou seu paraíso seria viver para sempre acompanhando o crescimento das suas filhas pequenas, em um andamento temporal imperceptivelmente delicioso. Seja qual for, parecem apenas sonhos irreais. Não sei o que vem depois e qualquer pessoa que diz que sabe está mentindo.

Quando leio sobre a astrofísica e os bilhões de anos que me separam da explosão inicial isso também só me deixa mais angustiado. Sou uma coincidência minúscula e insignificante contemplando a grandeza do universo. E como explicar a infinidade do espaço sideral? São estrelas e galáxias e planetas e o que vem depois? E depois disso, o que vem? E por quanto tempo?

Entendo que, para não pensarmos nessas coisas, tenhamos inventado nossos trabalhos insignificantes e nossas discussões de internet. Nossos dilemas diários tão profundos são também bobos quando nos deparamos com uma visão do todo. O reconhecimento de que não sabemos de nada. De que um dia iremos embora. De que só temos o hoje. E que o hoje, de vez em quando, possa ser um daqueles
dias tranquilos em que a gente morreria em paz.

Leia outras colunas de Marcos Piangers

Aos dois anos, Aurora já acenava para cachorros na rua

Presentes de Natal e o caso da Boneca LOL